Mil jumentos deixam o Piauí rumo à China; pele é o principal interesse desse mercado

Em apenas três meses, cerca de mil jumentos deixaram o Piauí rumo a frigoríficos habilitados na Bahia; entenda como funciona a cadeia que abastece o mercado chinês com carne e pele destinada à produção do tradicional ejiao.

Uma cadeia produtiva pouco conhecida do agronegócio brasileiro voltou a chamar atenção após o registro de que cerca de mil jumentos criados no Piauí foram enviados à Bahia e posteriormente destinados ao mercado chinês nos últimos três meses. O fluxo ocorre dentro das exigências sanitárias oficiais, com fiscalização da movimentação animal e abate realizado apenas em frigoríficos habilitados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF).

Na China, a carne dos animais é destinada ao consumo humano, enquanto a pele possui maior valor agregado por servir de matéria-prima para o ejiao, uma gelatina tradicional produzida a partir do colágeno extraído da pele dos jumentos e utilizada há séculos na medicina tradicional chinesa.

O tema desperta interesse por envolver comércio internacional, fiscalização agropecuária e um mercado específico voltado principalmente à Ásia, além de debates sobre preservação da espécie e regulamentação da atividade.

Como funciona a rota dos jumentos até a China

Diferentemente de outras cadeias pecuárias, o Piauí não possui fazendas dedicadas exclusivamente à criação de jumentos para abate. Segundo informações da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi), os animais são adquiridos em diferentes municípios, permanecem temporariamente em propriedades cadastradas e, após a formação da carga, seguem para a Bahia.

Todo o transporte interestadual depende da emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), documento oficial que registra origem, destino, quantidade de animais, finalidade da viagem e transportador.

Antes da movimentação, a Adapi verifica a regularidade sanitária das propriedades e mantém fiscalização durante o transporte por meio de barreiras e operações em rodovias. Caso sejam encontradas irregularidades, o transporte pode ser impedido e os responsáveis autuados.

Mais de 3 mil animais já foram enviados em 2026

Dados da Adapi mostram que, apenas em 2026, foram emitidas GTAs para o envio de 3.172 jumentos destinados ao abate na Bahia.

Os municípios piauienses com maior movimentação foram:

  • Marcos Parente: 1.570 animais
  • Floriano: 1.405
  • São Raimundo Nonato: 147
  • Campo Maior: 50

Segundo a Adapi, o volume supera o registrado em 2025, quando decisões judiciais reduziram temporariamente o trânsito de animais destinados ao abate.

Frigoríficos baianos concentram a operação

Atualmente, o Brasil possui três frigoríficos autorizados para o abate de jumentos, todos localizados na Bahia. Entretanto, segundo representantes do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA), apenas a unidade localizada em Amargosa está habilitada para exportar produtos derivados de jumentos ao mercado chinês.

O Ministério da Agricultura é responsável pela habilitação e fiscalização das unidades exportadoras por meio do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

O que é o ejiao?

Embora a carne seja aproveitada comercialmente, especialistas afirmam que o principal interesse do mercado chinês está na pele dos animais.

Dela é produzido o ejiao, um produto tradicional da medicina chinesa fabricado a partir do colágeno obtido da pele dos jumentos.

Segundo pesquisadores ouvidos pelo portal, o ejiao é culturalmente associado, na medicina tradicional chinesa, a benefícios relacionados ao fortalecimento do organismo. Os mesmos pesquisadores ressaltam, porém, que essas alegações pertencem à tradição cultural e não possuem comprovação científica segundo as evidências disponíveis atualmente.

Cadeia legal, mas cercada por debates

A atividade integra uma cadeia internacional regulamentada e fiscalizada pelos órgãos oficiais de defesa agropecuária. Ao mesmo tempo, ela é tema de discussões envolvendo pesquisadores, entidades de proteção animal e projetos de lei.

Há estudos que apontam preocupações relacionadas à conservação do jumento nordestino, enquanto órgãos estaduais destacam que toda a movimentação ocorre mediante controle sanitário, emissão de GTA e fiscalização oficial.

O assunto também está sendo discutido no Judiciário e no Congresso Nacional, onde tramitam propostas relacionadas ao abate de equídeos e à preservação da espécie.

Um mercado de nicho dentro das exportações brasileiras

Embora represente uma cadeia muito menor quando comparada às exportações de bovinos, aves ou suínos, o comércio de jumentos destinados ao mercado chinês demonstra como nichos específicos continuam encontrando demanda internacional.

No caso brasileiro, a operação envolve fiscalização sanitária, transporte interestadual regulamentado, frigoríficos habilitados e atendimento às exigências do país importador, compondo uma cadeia especializada voltada principalmente ao fornecimento da pele para a produção do ejiao e, em menor escala, da carne para consumo humano.

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