Caso apresentado durante simpósio em Chapecó identificou três micotoxinas na alimentação de vacas leiteiras; após intervenção na dieta, índice de prenhez relatado passou de menos de 50% para mais de 70%
As micotoxinas na silagem entraram no centro da investigação de um problema reprodutivo registrado em uma propriedade leiteira de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. Em um estudo de caso divulgado durante o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), análises do alimento apontaram três micotoxinas e, depois de uma mudança no manejo nutricional, a taxa de prenhez do rebanho, que estava abaixo de 50%, superou 70% em aproximadamente um mês.
O resultado chama atenção para um problema que pode permanecer pouco evidente dentro da propriedade. Micotoxinas são compostos produzidos por determinados fungos e podem contaminar alimentos destinados aos animais. Dependendo da substância, da concentração e do período de exposição, seus efeitos podem alcançar saúde, produtividade e reprodução. No caso apresentado em Chapecó, entretanto, os dados públicos disponíveis não permitem atribuir toda a melhora da prenhez exclusivamente à intervenção nutricional. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Micotoxinas na silagem entraram na investigação da baixa prenhez
A propriedade acompanhada enfrentava problemas reprodutivos e baixos índices de concepção. A investigação avançou sobre a alimentação oferecida às vacas e encontrou três micotoxinas na silagem, segundo as informações divulgadas sobre o caso.
Após essa identificação, foi incorporado à dieta um produto destinado a reduzir a exposição dos animais às micotoxinas. No acompanhamento relatado, a taxa de prenhez saiu de um patamar inferior a 50% e ultrapassou 70% em cerca de um mês.
A diferença é expressiva, mas existe uma ressalva essencial para interpretar o número. O material científico completo não estava disponível publicamente nas fontes consultadas, o que impede verificar informações como quantidade de animais acompanhados, período anterior de comparação, micotoxinas identificadas, respectivas concentrações e eventuais alterações simultâneas no manejo.
Dessa forma, o caso mostra uma associação temporal entre a intervenção e a melhora do indicador reprodutivo, mas não permite concluir, isoladamente, que o uso do produto tenha sido responsável por toda a evolução observada.
Levantamentos realizados em propriedades leiteiras brasileiras também mostram que a ocorrência simultânea de diferentes contaminantes merece atenção. Uma pesquisa da Esalq/USP, por exemplo, mapeou a presença de micotoxinas em sistemas de produção de leite do Sudeste, reforçando a importância do monitoramento dos ingredientes utilizados na dieta.
O que a ciência sabe sobre micotoxinas e reprodução bovina
Há respaldo científico para considerar a exposição às micotoxinas entre os fatores que podem interferir na reprodução animal. Uma revisão sistemática publicada na Pesquisa Veterinária Brasileira analisou alterações reprodutivas, gestacionais e fetais relacionadas a diferentes compostos, entre eles zearalenona, fumonisinas, ocratoxina A, deoxinivalenol e toxina T-2.
Isso não significa, porém, que essas tenham sido as substâncias encontradas na propriedade catarinense. As três micotoxinas do estudo de caso não foram identificadas nominalmente nas informações públicas consultadas.
Entre as micotoxinas mais relacionadas a alterações reprodutivas está a zearalenona, produzida por fungos do gênero Fusarium. O composto apresenta atividade estrogênica e pode interferir em mecanismos hormonais envolvidos na reprodução.
Estudos experimentais e revisões científicas descrevem alterações reprodutivas associadas à exposição à substância. A resposta dos animais, entretanto, depende de fatores como concentração, duração da exposição, estado fisiológico e composição da dieta.
Os bovinos contam ainda com a ação da microbiota ruminal sobre diferentes compostos ingeridos. Essa capacidade metabólica pode reduzir a exposição a determinadas toxinas, mas não representa proteção absoluta, especialmente diante de contaminações relevantes ou exposição simultânea a diferentes compostos.
Contaminação pode começar antes de a silagem chegar ao cocho
O controle de micotoxinas começa antes de o alimento ser fornecido aos animais. A qualidade final da silagem depende de uma sequência de decisões tomadas desde a lavoura até a abertura e utilização do silo.
Condições ambientais podem favorecer o desenvolvimento de fungos ainda no campo. Posteriormente, problemas durante colheita, compactação, vedação e armazenamento podem comprometer a conservação do material.
O momento da colheita também interfere no processo fermentativo. Teores inadequados de matéria seca e compactação insuficiente podem prejudicar a conservação. Por isso, identificar corretamente o ponto de colheita da silagem é uma das etapas que ajudam a preservar o valor nutricional e a estabilidade do alimento.
Depois da abertura, a exposição ao oxigênio favorece a deterioração aeróbia. Aquecimento da massa, mudanças de cheiro ou textura e material visivelmente deteriorado são sinais que justificam uma avaliação mais cuidadosa.
O manejo não termina no silo. A limpeza adequada do cocho também reduz o acúmulo de resíduos deteriorados antes do fornecimento de uma nova dieta.
Sequestrantes não apresentam a mesma eficiência para todas as micotoxinas
O resultado observado na propriedade catarinense não deve ser interpretado como indicação de que qualquer sequestrante produzirá resposta semelhante.
Uma revisão publicada no Journal of Animal Science, baseada em 68 estudos e 1.842 dados experimentais, encontrou grande variação na capacidade de adsorção conforme o tipo de produto, a micotoxina avaliada e condições como o pH.
Na análise, a adsorção média das aflatoxinas foi superior à observada para compostos como deoxinivalenol e toxina T-2. Os autores também destacam limitações na extrapolação de ensaios realizados in vitro para situações reais de produção.
Por isso, a escolha de uma estratégia de mitigação deve considerar quais contaminantes estão presentes e o nível de exposição dos animais. O uso indiscriminado de um produto, sem diagnóstico do alimento, pode acrescentar custos à dieta sem necessariamente controlar o problema predominante.
A prevenção permanece como ponto central: matéria-prima adequada, colheita no momento correto, boa compactação, vedação eficiente, armazenamento protegido e manejo correto depois da abertura do silo.
Queda na prenhez não deve ser atribuída automaticamente às micotoxinas
A eficiência reprodutiva de um rebanho é resultado da interação de diferentes fatores. Condição corporal, balanço energético, doenças uterinas, estresse térmico, qualidade do sêmen, inseminação, identificação do cio, protocolos hormonais, conforto e sanidade podem modificar as taxas de concepção e prenhez.
Por isso, encontrar micotoxinas na dieta não significa automaticamente que elas expliquem todo o problema reprodutivo da propriedade.
Quando os indicadores permanecem abaixo do esperado, a análise dos alimentos pode fazer parte de uma investigação mais ampla. Isso é particularmente relevante quando há problemas de conservação do volumoso ou quando outras causas mais frequentes já foram avaliadas.
Análises laboratoriais também ganham importância porque a aparência da silagem, isoladamente, não permite determinar quais micotoxinas estão presentes nem suas concentrações. A avaliação visual continua útil para detectar deterioração, mas não substitui métodos analíticos quando existe suspeita de contaminação.
Conhecer como as micotoxinas podem chegar à alimentação animal e quais medidas ajudam na prevenção permite incorporar o problema ao controle de qualidade dos alimentos da propriedade sem tratá-lo como explicação automática para toda queda de desempenho.
Caso foi apresentado durante simpósio de bovinocultura leiteira
O estudo de caso integra a programação científica da 15ª edição do Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite, realizada entre 6 e 8 de outubro de 2026, em Chapecó.
Segundo o Nucleovet, organizador do evento, foram recebidos 108 resumos científicos distribuídos em 11 áreas temáticas. Após avaliação de 45 especialistas, 92 trabalhos foram aprovados para apresentação.
A suplementação de bovinos concentrou 23 trabalhos submetidos, seguida de forragicultura e pastagens, com 21; produção, bem-estar e manejo, com 19; sanidade animal, com 16; e reprodução, com dez.
Entre as instituições envolvidas nos trabalhos científicos estavam Epagri, Udesc, Instituto Federal Catarinense, UFSM, USP, Unicentro, Unipampa, Unoesc, Furb, URI, Unisul, UnoChapecó e UniCruz.
O caso das micotoxinas ajuda a mostrar como alimentação e reprodução podem estar conectadas dentro da propriedade. Ao mesmo tempo, seus resultados precisam permanecer dentro dos limites metodológicos disponíveis: trata-se de um estudo de caso, e não de evidência suficiente para garantir que a mesma intervenção produza aumento semelhante de prenhez em outros rebanhos.
Para propriedades que enfrentam queda persistente nos índices reprodutivos, a principal aplicação prática é incluir a qualidade dos alimentos entre os pontos investigados. A presença e a concentração de micotoxinas devem ser avaliadas tecnicamente, enquanto outros componentes nutricionais, sanitários e reprodutivos continuam sendo examinados em paralelo.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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