Estudo avalia se a composição química das árvores pode revelar a origem geográfica da madeira e fortalecer sistemas de rastreabilidade das cadeias florestais brasileiras.
Pesquisadores brasileiros estão investigando uma nova ferramenta científica que poderá reforçar o combate à extração ilegal de madeira no país. O foco da pesquisa está no mercúrio, elemento químico naturalmente presente no meio ambiente, que pode funcionar como um marcador capaz de indicar a origem geográfica da madeira e ampliar a confiabilidade dos sistemas de rastreabilidade florestal.
O estudo é conduzido por pesquisadores do projeto RastreIA, iniciativa que reúne especialistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). A proposta é verificar se os traços de mercúrio absorvidos pelas árvores ao longo de seu desenvolvimento podem integrar uma espécie de “impressão digital química” capaz de identificar a procedência da madeira.
Segundo o pesquisador da Esalq/USP, Dr. Matheus Bortolanza Soares, o mercúrio está naturalmente presente em solos, rios, atmosfera e demais componentes do ambiente. As árvores absorvem esse elemento tanto pelas raízes quanto pelas folhas, especialmente durante as trocas gasosas, registrando em seus tecidos características próprias da região onde cresceram.
“As árvores conseguem absorver mercúrio diretamente do ar, principalmente na forma gasosa, por meio das folhas durante as trocas gasosas. Por isso, as florestas funcionam como uma espécie de filtro natural, retirando parte do mercúrio da atmosfera”, explica o pesquisador, autor de estudo recente sobre a mobilidade desse elemento nos biomas brasileiros.
Assinatura química das florestas
Os cientistas explicam que o mercúrio circula continuamente entre atmosfera, solo, água, organismos vivos e vegetação, podendo permanecer no ambiente por décadas ou até séculos. Esse comportamento faz com que diferentes regiões apresentem composições químicas específicas, determinadas por fatores como acidez do solo, matéria orgânica e composição mineral.
Essa combinação de características pode gerar uma assinatura química própria para cada bioma ou região florestal, oferecendo informações valiosas para rastrear a origem da madeira.
Além do mercúrio, o projeto analisa dezenas de outros elementos químicos e isótopos estáveis presentes nas amostras de madeira. O objetivo é construir um conjunto de indicadores que permita identificar com maior precisão a procedência do material.
De acordo com o pesquisador Dr. Paulo Sérgio Cardoso da Silva, do Ipen, o mercúrio não será analisado de forma isolada, mas integrado a diversos outros parâmetros químicos.
“A relação entre o mercúrio e os demais elementos pode ajudar a compor a impressão digital da região amostrada”, afirma o pesquisador.
Transparência nas cadeias produtivas
Os pesquisadores acreditam que o avanço desse tipo de tecnologia poderá fortalecer mecanismos de certificação de origem da madeira, ampliar a transparência das cadeias produtivas e oferecer novas ferramentas para órgãos de fiscalização e controle ambiental.
A expectativa é que a identificação dessas assinaturas químicas contribua para diferenciar madeiras provenientes de regiões distintas e reduza as possibilidades de fraudes na declaração de origem do produto.
Ciência aplicada às commodities brasileiras
A pesquisa integra o projeto RastreIA, que desenvolve métodos científicos para rastrear importantes commodities brasileiras, como madeira, carne bovina e soja.
Os estudos utilizam marcadores químicos, isotópicos e ambientais para criar sistemas capazes de verificar a origem geográfica dos produtos, aumentando a transparência das cadeias de exportação e contribuindo para sistemas forenses de monitoramento.
No caso específico da madeira, os pesquisadores procuram compreender como elementos naturalmente presentes no ambiente podem servir como indicadores geográficos confiáveis, auxiliando tanto na diferenciação entre regiões florestais quanto na ampliação do conhecimento sobre a dinâmica química dos ecossistemas brasileiros.
O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio do Projeto Temático “Transparência nas cadeias produtivas brasileiras de commodities agrícolas de exportação: Estudo holístico de marcadores elementares e isotópicos”, que busca desenvolver soluções científicas para elevar a credibilidade dos produtos brasileiros nos mercados nacional e internacional.
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