Primeiro lote de 40 unidades faz parte de contrato de R$ 770 milhões para fornecimento de 721 vagões; equipamentos serão usados no transporte da celulose de Inocência (MS) até o Porto de Santos (SP)
A gigante de celulose que está sendo construída em Inocência, no Mato Grosso do Sul, começa a ganhar forma também fora dos canteiros de obras. Com investimento de aproximadamente R$ 25 bilhões, o Projeto Sucuriú, da chilena Arauco, terá uma ferrovia própria para escoar a produção até o Porto de Santos (SP), em uma operação logística de grande escala. A fábrica terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano e deverá entrar em operação no fim de 2027.
Agora, a estrutura ferroviária começa a receber um dos seus principais componentes. A Randon, empresa da vertical Montadora da Randoncorp, entregou o primeiro lote de 40 vagões ferroviários que fazem parte do contrato firmado com a Arauco Brasil para o fornecimento de 721 unidades.
O acordo, anunciado no início deste ano e estimado em R$ 770 milhões, prevê a fabricação e entrega dos vagões ao longo de 19 meses. A produção ocorre na unidade da Randon em Araraquara (SP), e os equipamentos serão enviados diretamente para o canteiro de obras da fábrica em Inocência.

Vagões vão transportar milhões de toneladas de celulose
Os equipamentos são do modelo Sider FLT, desenvolvido para o transporte ferroviário de cargas que exigem eficiência operacional, segurança e cuidados com a preservação do produto.
Cada vagão possui capacidade bruta de 130 toneladas e capacidade líquida de 98 toneladas, o equivalente a mais de 390 fardos de celulose. As unidades têm 23 metros de comprimento, 3,3 metros de largura e 4,28 metros de altura.
O projeto conta ainda com abertura lateral total, permitindo carregamento e descarregamento pelos dois lados. Os vagões possuem lonas com tramas de aço antivandalismo, sistema de tensionamento reforçado, divisórias internas e barrotes equipados com tecnologia para reduzir a absorção de umidade.
A configuração foi pensada para minimizar riscos durante o transporte e preservar as características da celulose até a chegada ao destino.
“Essa entrega reforça a trajetória de sucesso da Randon nos mercados ferroviário e rodoviário de cargas. Nossas equipes reúnem sólida expertise técnica e ampla experiência no desenvolvimento e fabricação de vagões ferroviários”, afirmou o Executive Vice President (EVP) América do Sul das verticais Autopeças e Montadora da Randoncorp, Ricardo Escoboza.
Entregas serão mensais até novembro de 2027
O cronograma estabelecido entre as empresas prevê a entrega de 40 vagões por mês até novembro de 2027.
A programação acompanha o calendário de implantação da megafábrica da Arauco. Conforme forem concluídas, as unidades ferroviárias serão encaminhadas diretamente para Inocência, onde integrarão a estrutura logística que deverá movimentar a produção de celulose a partir do início das operações industriais.
Para a Arauco, a aquisição dos vagões é parte fundamental da preparação para colocar em funcionamento uma operação de escala internacional.
“O alto nível dos vagões adquiridos reafirma o compromisso da companhia com a preservação da qualidade da celulose produzida, garantindo que chegue aos nossos clientes de forma íntegra”, afirmou o diretor de Logística e Suprimentos da Arauco Celulose, Alberto Pagano.
Segundo o executivo, a fabricação segue o cronograma estabelecido para que toda a infraestrutura necessária esteja disponível quando a fábrica começar a operar.
Ferrovia própria será peça-chave do Projeto Sucuriú
A dimensão do investimento ajuda a explicar o tamanho da estrutura logística necessária. A Arauco está implantando um ramal ferroviário, identificado como EF-A35, para conectar a fábrica à Malha Norte, permitindo que a celulose siga pelos trilhos até Santos.
O trecho próprio terá aproximadamente 47 quilômetros, além de estruturas internas no complexo industrial. Depois de alcançar a Malha Norte, a carga deverá percorrer aproximadamente 1.050 quilômetros até o Porto de Santos. O investimento associado à estrutura ferroviária, incluindo locomotivas e vagões, é estimado em bilhões de reais.
A previsão é que a ferrovia esteja concluída no segundo semestre de 2027, próxima ao início das operações da fábrica.
A estrutura deverá contar com 26 locomotivas e cerca de 1.000 vagões, com capacidade logística estimada em aproximadamente 9,6 mil toneladas de celulose por viagem. A expectativa é que o transporte ferroviário substitua cerca de 190 viagens de caminhões por dia, além de reduzir significativamente as emissões de CO₂ associadas ao escoamento da produção.
Projeto bilionário enfrenta disputa envolvendo a ferrovia
Apesar dos avanços, a construção do ramal ferroviário não está livre de obstáculos.
Em julho, a concessionária Way-112 acionou a Justiça para tentar impedir a continuidade de parte das obras da ferrovia da Arauco em Inocência. A disputa envolve a utilização da faixa de domínio da rodovia MS-112 e a construção de um viaduto ferroviário que permitirá a passagem dos trilhos sobre a estrada.
A concessionária sustenta que houve ocupação irregular da área sob sua administração e pediu a paralisação das obras, além da retirada da estrutura e reintegração de posse.
A Arauco, por outro lado, defende que possui autorização federal da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para implantar o ramal ferroviário e que não dependeria de autorização da concessionária ou do órgão regulador estadual para executar o empreendimento.
Até a publicação da reportagem original do Compre Rural, a liminar solicitada pela Way-112 ainda não havia sido analisada definitivamente. O juiz responsável determinou que a Arauco se manifestasse antes de decidir sobre o pedido emergencial e também solicitou esclarecimentos à Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul (Agems).
A controvérsia, portanto, pode representar um ponto de atenção para o cronograma de uma ferrovia considerada estratégica para o funcionamento da futura fábrica.
Randon amplia atuação além dos trilhos
A entrega dos vagões reforça uma estratégia mais ampla da Randon no mercado de transporte de cargas. Ao longo de 77 anos, a companhia já fabricou mais de 13 mil vagões ferroviários para operadores do Brasil e do exterior.
A empresa também mantém forte presença no transporte rodoviário. Em 2024, por exemplo, entregou à AMAGGI um lote de rodotrens basculantes destinados ao transporte de grãos utilizando biodiesel B100, combustível produzido pela própria companhia do agronegócio a partir de matéria-prima vegetal.
A operação foi apresentada como uma iniciativa voltada à redução do uso de combustíveis fósseis e à chamada economia circular, mostrando que a atuação da Randon envolve diferentes frentes da logística do agronegócio e da indústria.
No caso da Arauco, entretanto, o desafio é de uma escala ainda maior: preparar uma cadeia logística capaz de retirar milhões de toneladas de celulose do interior de Mato Grosso do Sul e conectá-las ao mercado internacional.
Com os primeiros 40 vagões já entregues, uma parte dessa gigantesca engrenagem começa a sair do papel. A expectativa é que, até novembro de 2027, as 721 unidades previstas no contrato de R$ 770 milhões estejam prontas para integrar a operação ferroviária do Projeto Sucuriú.
Se o cronograma da fábrica e da ferrovia for mantido, Inocência passará a abrigar não apenas uma das maiores fábricas de celulose do mundo, mas um complexo integrado de florestas, indústria, geração de energia e logística ferroviária, conectado diretamente ao Porto de Santos e às rotas internacionais de exportação.
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