Robôs para posicionar e cortar filés, sistemas de raio X, visão computacional, desossa automatizada e monitoramento inteligente mostram como a tecnologia avança sobre diferentes etapas da produção animal
Os frigoríficos e granjas do futuro já começam a ganhar forma por meio de equipamentos que vão muito além da mecanização convencional. Aberto nesta terça-feira (4), em São Paulo, o SIAVS 2026 reúne soluções capazes de posicionar cortes automaticamente, identificar ossos por raio X, interpretar imagens com inteligência artificial, automatizar a desossa de aves e monitorar informações da produção diretamente dentro das granjas.
Realizado até 6 de agosto no Distrito Anhembi, o evento ocupa cerca de 45 mil metros quadrados, uma área aproximadamente 65% maior que a edição de 2024, segundo a organização. Empresas ligadas à produção de aves, suínos, bovinos, peixes e ovos participam da programação, que coloca a tecnologia entre os principais eixos desta edição.
RoboOptimizer prepara cada filé antes do corte
Entre os equipamentos apresentados pela JBT Marel está o RoboOptimizer, desenvolvido para automatizar o posicionamento de filés de peito antes da etapa de porcionamento.
O sistema organiza as peças de maneira adequada para que sigam até a I-Cut 122, máquina responsável por realizar cortes de acordo com parâmetros previamente definidos.
Embora pareça uma etapa simples, o posicionamento correto interfere diretamente na eficiência do corte seguinte. Ao automatizar esse trabalho, a linha reduz a dependência de ajustes manuais e consegue manter maior regularidade ao longo do processamento.
A I-Cut 122 completa esse conjunto utilizando informações sobre tamanho e formato das peças para produzir porções com características previamente determinadas.
SensorX Poultry usa raio X para localizar ossos
Em outra frente, o SensorX Poultry atua na inspeção da carne.
O equipamento utiliza tecnologia de raio X para identificar ossos e outros materiais de maior densidade presentes nos produtos de aves, permitindo que essas ocorrências sejam detectadas antes das etapas finais de processamento.
A tecnologia é um exemplo de como diferentes sistemas podem coexistir dentro de uma planta moderna.
Apesar do avanço da inteligência artificial, nem toda tarefa exige algoritmos de aprendizado de máquina. No caso do SensorX, a detecção é baseada nas propriedades físicas captadas pelo raio X, solução adequada para localizar materiais que apresentam densidade diferente da carne ao redor.
VC-i utiliza inteligência artificial para interpretar as aves
A inteligência artificial aparece de forma mais direta na VC-i, equipamento utilizado nas etapas iniciais do processamento de aves.
A máquina trabalha com o sistema de visão PUPIL, formado por câmeras e algoritmos capazes de analisar imagens durante a passagem das carcaças pela linha.
O sistema consegue identificar informações como posição da ave, localização da cloaca e forma como a carcaça está presa ao transportador.
Esses dados auxiliam o equipamento na execução da operação e ajudam a reduzir variações que poderiam comprometer o processamento.
É um exemplo claro de inteligência artificial aplicada a uma função industrial específica: em vez de responder perguntas ou produzir textos, o algoritmo é treinado para reconhecer características visuais relevantes dentro da linha frigorífica.
Nuova-i transforma a evisceração em processo monitorado
Depois das primeiras etapas de processamento, outra máquina assume uma função diferente.
A Nuova-i, também desenvolvida pela JBT Marel, automatiza a retirada do conjunto de vísceras das aves e permite configurar diferentes parâmetros de acordo com as características do lote.
O equipamento trabalha integrado ao SmartBase, software que acompanha informações relacionadas ao funcionamento da máquina.
A plataforma permite verificar o desempenho da operação, consultar dados históricos e identificar situações que precisam de intervenção da equipe.
Outros sistemas da fabricante, como o ProductionBase e o IMPAQT, podem ampliar essa visão ao reunir informações de diferentes pontos da linha industrial.
Nesse caso, a principal transformação não está somente no movimento mecânico realizado pelo equipamento, mas na possibilidade de acompanhar sua operação por meio de dados.
TORIDAS automatiza a desossa de pernas de frango
A Mayekawa também integra a programação tecnológica do SIAVS 2026 com soluções voltadas à desossa automatizada de aves.
Entre os equipamentos desenvolvidos pela companhia está o TORIDAS, máquina criada para retirar automaticamente o osso de pernas inteiras de frango.
O operador abastece o sistema com a peça e o equipamento realiza a separação da carne ao longo da linha.
De acordo com a fabricante, o TORIDAS pode processar até 1.000 pernas por hora, transformando uma atividade tradicionalmente dependente de trabalho manual em uma operação industrial automatizada.
A tecnologia busca atender principalmente plantas que trabalham com grandes volumes e precisam manter ritmo constante de processamento.
YIELDAS 3000-E1 usa imagens para lidar com diferenças entre as peças
Outro equipamento da Mayekawa leva a automação da desossa para um nível mais complexo.
O YIELDAS 3000-E1 trabalha com a parte dianteira das aves e utiliza processamento de imagens para identificar características individuais das peças antes da realização dos cortes.
A partir dessa leitura, a máquina consegue separar filés, asas e sassamis, além de retirar a estrutura restante da carcaça.
A capacidade informada pela fabricante chega a 3.000 partes dianteiras por hora.
O uso de imagens é importante porque peças provenientes de diferentes animais não apresentam exatamente o mesmo formato. O equipamento precisa reconhecer essas variações para adaptar a operação antes de executar o corte.
Essa capacidade diferencia o sistema de máquinas tradicionais que repetem movimentos idênticos independentemente das características do produto recebido.
HYBRID leva automação para a limpeza dos frigoríficos
Nem todas as inovações estão concentradas no processamento da carne.
A Ecolab leva à programação do evento o sistema HYBRID, desenvolvido para automatizar etapas de higienização dentro das instalações frigoríficas.
A tecnologia pode integrar operações como enxágue, aplicação de espuma e pulverização de soluções de limpeza, dependendo da configuração utilizada pela indústria.
Entre os equipamentos relacionados à linha está o Hybrid Typhoon, destinado à higienização de ambientes de processamento de alimentos.
Em frigoríficos, a limpeza integra diretamente os protocolos de segurança dos alimentos. Por isso, controlar a aplicação dos produtos e manter regularidade no procedimento é tão importante quanto automatizar etapas de corte ou embalagem.
A presença desse tipo de solução no SIAVS mostra que a modernização das plantas também avança sobre áreas menos visíveis da operação.
Frigoríficos e granjas do futuro começam antes da indústria
A transformação tecnológica não ocorre apenas depois que os animais chegam ao frigorífico.
Dentro das granjas, sensores e sistemas digitais começam a acompanhar fatores relacionados à alimentação e ao desenvolvimento dos lotes.
Um dos exemplos é o ProSense Feed, tecnologia ligada à Cargill que utiliza sensores instalados nos silos para monitorar o nível de ração disponível.
O sistema permite realizar medições sem depender exclusivamente de inspeções presenciais e fornece informações que podem ser utilizadas para planejar o reabastecimento.
A tecnologia está associada à plataforma desenvolvida pela BinSentry, especializada no monitoramento remoto de silos.
Broiler View usa câmeras e IA para acompanhar o peso das aves
Outra solução aplicada às granjas é o Cargill Broiler View.
O sistema utiliza câmeras associadas à inteligência artificial para estimar o peso dos frangos e acompanhar sua evolução ao longo do ciclo produtivo.
Segundo informações divulgadas pela Cargill, um dispositivo pode acompanhar dados referentes a até 12 mil aves.
A diferença em relação à pesagem tradicional está na continuidade do monitoramento.
Em vez de trabalhar apenas com amostras retiradas do lote em determinados momentos, a tecnologia permite produzir estimativas ao longo da criação, oferecendo ao produtor uma visão mais frequente sobre o desenvolvimento dos animais.
As informações podem apoiar ajustes de manejo e planejamento da produção sem exigir a manipulação constante de grandes grupos de aves.
Escala da produção brasileira aumenta o interesse por automação
O avanço dessas tecnologias ocorre em uma das maiores cadeias de proteína animal do mundo.
Dados consolidados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) apontam que o Brasil produziu aproximadamente 15,289 milhões de toneladas de carne de frango em 2025.
No mesmo ano, a produção brasileira de carne suína alcançou 5,592 milhões de toneladas, enquanto a produção de ovos chegou a aproximadamente 62,3 bilhões de unidades.
Em operações dessa dimensão, melhorias aparentemente pequenas podem produzir impactos relevantes quando aplicadas de forma contínua e em larga escala.
É por isso que fabricantes direcionam investimentos para áreas tão diferentes da cadeia: corte, inspeção, evisceração, desossa, higienização, alimentação e monitoramento dos animais.
Cada etapa representa uma oportunidade distinta para reduzir variações, melhorar o controle operacional ou retirar atividades repetitivas da rotina manual.
Frigoríficos e granjas do futuro ganham inteligência por etapas
O SIAVS 2026 revela que a próxima transformação da proteína animal dificilmente será provocada por uma única máquina.
Ela ocorre aos poucos, à medida que diferentes pontos da cadeia passam a receber equipamentos capazes de executar tarefas específicas com maior controle.
Em alguns casos, isso acontece por meio de robôs e sistemas mecânicos. Em outros, são câmeras, raio X, sensores ou algoritmos que acrescentam novas capacidades à operação.
A inteligência artificial aparece principalmente onde interpretar informações ajuda a resolver um problema que equipamentos convencionais teriam dificuldade para enfrentar.
Já tecnologias mais tradicionais continuam eficientes quando a tarefa depende essencialmente de precisão mecânica ou propriedades físicas bem conhecidas.
O resultado é uma cadeia produtiva cada vez mais especializada.
Os frigoríficos e granjas do futuro não serão definidos apenas pelo nível de automação, mas pela capacidade de escolher a tecnologia certa para cada etapa da produção.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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