Pesquisa da Emater/RS-Ascar mostra que preço baixo do leite, custos elevados, falta de mão de obra, rotina pesada e ausência de sucessores estão entre os principais fatores; quase 80% das famílias que saíram não pretendem voltar
Uma transformação profunda está redesenhando a pecuária leiteira do Rio Grande do Sul. Entre 2015 e 2025, mais de 55 mil produtores deixaram de comercializar leite no Estado, movimento que vai além de uma simples redução no número de propriedades e revela mudanças econômicas, sociais e geracionais no campo gaúcho.
Para compreender quem são essas famílias, por que abandonaram a atividade e o que aconteceu depois da decisão, a Emater/RS-Ascar realizou uma pesquisa com 571 famílias distribuídas por 385 municípios gaúchos. O levantamento foi apresentado durante a 49ª Expointer, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.
Os resultados ajudam a desmontar uma explicação recorrente para o encolhimento da base produtora: não foram apenas pequenas propriedades pouco tecnificadas ou produtores com baixa produtividade que deixaram o leite. Segundo o estudo, muitas das famílias apresentavam estrutura e indicadores semelhantes aos do produtor médio gaúcho.
O problema é mais complexo. Preço recebido pelo leite, custos de produção, falta de trabalhadores, penosidade da rotina e ausência de sucessores aparecem combinados em uma decisão que, na maioria das propriedades, foi amadurecida durante anos.
Por que 55 mil produtores deixaram de produzir leite?
A dimensão da saída já vinha sendo identificada nos relatórios socioeconômicos da cadeia produtiva elaborados pela Emater/RS-Ascar. Foi justamente a recorrência de uma pergunta que levou à realização de uma investigação específica em 2026: quem eram os produtores que estavam deixando o leite e por quê?
O levantamento foi realizado em julho e procurou descrever o perfil das famílias, caracterizar como produziam, identificar os fatores determinantes para a saída e entender as consequências da mudança.
Segundo o extensionista rural Jaime Ries, a intenção é utilizar os resultados tanto na Assistência Técnica e Extensão Rural e Social (Aters) quanto na formulação de ações para o setor.
“Quando apresentávamos os relatórios, as pessoas queriam saber quem eram os produtores que estavam deixando a atividade, como eles produziam, por que haviam parado e o que tinha acontecido com essas famílias depois. Então, neste ano, aproveitamos para aprofundar essa questão”, explicou.
Preço baixo do leite aparece como principal fator externo
Entre as dificuldades externas apontadas pelas famílias, 79,3% mencionaram o baixo preço recebido pelo leite, maior percentual registrado nesse grupo.
Na sequência aparece o custo de aquisição dos insumos, citado por 66,7% dos entrevistados. A contratação de mão de obra também surgiu como problema para 30,3%.
Os números ajudam a explicar a pressão econômica enfrentada por propriedades que dependem de uma atividade de fluxo contínuo, com necessidade diária de alimentação dos animais, ordenha, manejo sanitário e manutenção da estrutura.
Diferentemente de outras atividades agropecuárias, a produção de leite praticamente não permite interrupções. As vacas precisam ser manejadas todos os dias, independentemente de finais de semana, feriados ou condições climáticas.
Quando a margem financeira diminui, portanto, o peso dessa rotina tende a ficar ainda mais evidente.
Rotina pesada e falta de mão de obra pesaram na decisão
Os fatores econômicos, entretanto, contam apenas parte da história.
Entre as razões internas das propriedades, 66,4% das famílias apontaram a penosidade da atividade, enquanto 61,3% mencionaram a falta de mão de obra familiar.
Outro dado particularmente importante para o futuro da pecuária leiteira aparece na sucessão: 37,8% citaram o desinteresse dos filhos pela atividade.
O levantamento mostra como o leite gaúcho permanece fortemente dependente da família rural.
Nas 571 propriedades pesquisadas, 1.485 pessoas trabalhavam na produção, média de 2,6 pessoas por estabelecimento.
Desse total, 1.384 trabalhadores — 93,2% — pertenciam às próprias famílias. Apenas 101 pessoas, ou 6,8%, eram contratadas.
Em média, cada propriedade possuía 2,4 integrantes da família envolvidos diretamente na atividade e somente 0,2 trabalhador contratado.
Isso significa que aposentadoria, envelhecimento dos responsáveis, saída de um filho ou impossibilidade de contratar funcionários podem alterar completamente a viabilidade da produção.
Não eram necessariamente produtores atrasados ou pouco eficientes
Um dos resultados mais relevantes da pesquisa está no perfil das propriedades que abandonaram a atividade.
Segundo a Emater/RS-Ascar, os produtores que saíram do leite apresentavam características bastante semelhantes às encontradas entre os produtores médios do Rio Grande do Sul, considerando escala, tecnologia, estrutura produtiva, tamanho do rebanho e produtividade.
“Quando comparamos os indicadores, encontramos um perfil muito semelhante ao produtor médio do Rio Grande do Sul. Isso é importante porque mostra que a decisão de sair não pode ser explicada simplesmente por uma característica isolada da propriedade”, afirmou Ries.
A constatação muda a interpretação do processo. A redução do número de produtores não representa simplesmente uma seleção entre propriedades eficientes e ineficientes.
Famílias estruturadas e tecnificadas também decidiram abandonar a atividade.
A saída do leite geralmente acontece depois de vários problemas
A pesquisa aponta que raramente existe uma única razão capaz de explicar a decisão.
Baixo preço pode ocorrer simultaneamente ao aumento dos custos. A falta de mão de obra pode coincidir com a aposentadoria dos pais. Um período de estiagem pode elevar despesas justamente quando um filho decide buscar emprego na cidade.
Em outros casos, a propriedade já vinha considerando abandonar o leite havia algum tempo e um acontecimento específico funciona como ponto final.
“É um conjunto de condições que vai se somando. Geralmente, a decisão já vinha sendo pensada e, em determinado momento, acontece um gatilho. É um processo multifatorial”, explicou o extensionista.
Essa característica também indica que políticas voltadas exclusivamente para preço ou crédito podem não ser suficientes para conter a saída de produtores. Renda, qualidade de vida, disponibilidade de trabalhadores, tecnologia e sucessão rural estão cada vez mais interligadas.
Depois do leite, maioria não pretende voltar
Talvez o dado mais contundente do levantamento esteja no que aconteceu depois que essas famílias encerraram a comercialização.
Pouco mais de um terço relatou algum grau de redução da renda. Mesmo assim, boa parte afirmou estar satisfeita com as atividades desenvolvidas atualmente quando compara sua realidade com o período em que trabalhava com leite.
A mudança está relacionada não apenas ao dinheiro, mas também à rotina.
Muitas famílias reconhecem que a pecuária leiteira foi essencial para construir patrimônio, melhorar as condições da propriedade e até financiar a educação dos filhos.
Isso, porém, não significa desejo de retornar.
Quando questionadas sobre a possibilidade de algum integrante da família voltar à produção comercial de leite, 79,8% disseram que não pretendem retornar.
Outros 16,2% responderam que não sabem ou talvez possam voltar.
Somente 4% afirmaram pensar em retomar a comercialização de leite.
O resultado sugere que recuperar produtores depois que eles deixam a cadeia é extremamente difícil. Por isso, entender os fatores que antecedem a saída pode ser tão importante quanto tentar estimular posteriormente o retorno.
O que os números revelam para o futuro do leite gaúcho
A perda de mais de 55 mil produtores em uma década não significa necessariamente o desaparecimento da produção leiteira gaúcha. O movimento pode estar associado também à concentração da atividade em um número menor de propriedades, com maior escala, produtividade e especialização.
Mas existe uma consequência social importante.
Historicamente, o leite funciona como fonte recorrente de receita para milhares de pequenas e médias propriedades familiares, movimentando cooperativas, laticínios, transportadores, comércio e serviços nos municípios produtores.
Quando uma família abandona a atividade, portanto, os efeitos ultrapassam a porteira.
A pesquisa também coloca a sucessão rural no centro da discussão. Se quase toda a mão de obra ainda vem das próprias famílias e uma parcela relevante aponta o desinteresse dos filhos como motivo para deixar a atividade, o desafio da cadeia não será apenas produzir mais leite, mas criar condições econômicas e de qualidade de vida capazes de manter novas gerações no negócio.
A Emater/RS-Ascar pretende agora aprofundar os dados por regiões administrativas e pelos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes).
A análise regional poderá revelar diferenças importantes. Problemas de estradas, fornecimento de energia, disponibilidade de trabalhadores, acesso à assistência técnica ou estrutura de comercialização podem ter pesos muito diferentes entre as regiões produtoras.
“Precisamos entender essas diferenças para conseguir desenvolver ações a partir dos resultados”, destacou Jaime Ries.
O levantamento deixa uma mensagem importante para toda a cadeia: a saída de milhares de famílias da pecuária leiteira não possui uma causa única e tampouco pode ser atribuída apenas à eficiência dentro da porteira. É resultado da combinação entre margem econômica, custos, mão de obra, qualidade de vida e sucessão.
E um número resume a dimensão do desafio: depois de deixar o leite, apenas 4% das famílias pesquisadas afirmam pensar em voltar à atividade.
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