Mato Grosso chega a três décadas sem um único foco da doença, protege um patrimônio de mais de 32 milhões de bovinos e transforma sanidade em vantagem para acessar mercados mais exigentes.
Trinta anos podem representar apenas uma marca no calendário. Para a pecuária de Mato Grosso, porém, significam três décadas protegendo um dos maiores patrimônios produtivos do agronegócio brasileiro. O estado completa em 2026 exatamente 30 anos sem registrar um foco de febre aftosa, uma conquista que ganha dimensão ainda maior por ocorrer justamente no território que concentra o maior rebanho bovino do país.
O último foco da doença em Mato Grosso ocorreu em janeiro de 1996. Desde então, a pecuária estadual atravessou uma profunda transformação: aumentou a produção, expandiu as exportações, modernizou propriedades e frigoríficos e, mais recentemente, deixou de vacinar contra a enfermidade. Hoje, preservar a ausência do vírus não representa apenas uma questão veterinária. É uma forma de proteger bilhões de dólares movimentados pela cadeia da carne e a confiança construída pelo Brasil diante dos compradores internacionais.
A dimensão da conquista aparece nos números.
Os dados mais recentes da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do IBGE, apontam que Mato Grosso possuía 32,85 milhões de bovinos em 2024, o maior efetivo entre todas as unidades da Federação. O Brasil, no mesmo levantamento, contabilizava aproximadamente 238,18 milhões de cabeças.
Isso significa que cerca de 14% de todo o rebanho bovino brasileiro estava concentrado dentro das fronteiras mato-grossenses.
O protagonismo também aparece quando o gado deixa a fazenda. No primeiro trimestre de 2026, Mato Grosso respondeu por 17,5% dos bovinos abatidos no país sob algum tipo de inspeção sanitária, permanecendo na liderança nacional, à frente de São Paulo, Goiás e Pará.
É essa escala que transforma a prevenção da febre aftosa em assunto econômico.
Um problema sanitário em uma região com tamanha concentração de animais não ficaria limitado à propriedade onde eventualmente surgisse. Dependendo das circunstâncias, poderia provocar bloqueios de trânsito, criação de zonas de emergência, restrições comerciais e questionamentos de compradores.
Por isso, os 30 anos sem aftosa representam mais do que ausência de doença: são três décadas de construção de confiança sanitária em torno do maior rebanho do Brasil.
Da vacinação à vigilância permanente
Durante boa parte desse período, a vacina foi uma das principais ferramentas utilizadas para impedir o retorno da enfermidade.
Essa etapa terminou.
Mato Grosso suspendeu a vacinação contra a febre aftosa em 2023 e, em 2024, foi oficialmente reconhecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) como livre da doença sem vacinação. O movimento fez parte da estratégia nacional de retirada gradual da imunização.
O passo seguinte foi ainda mais importante.
Em maio de 2025, o Brasil alcançou o reconhecimento internacional da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como país livre de febre aftosa sem vacinação, encerrando uma longa trajetória de combate à enfermidade.
A conquista, entretanto, trouxe uma mudança importante para dentro das propriedades.
Sem campanhas periódicas de vacinação, a proteção do rebanho passa a depender ainda mais da vigilância epidemiológica, fiscalização do trânsito, controle das fronteiras, capacidade de diagnóstico e comunicação rápida de qualquer suspeita.
Em outras palavras: deixar de vacinar não significa deixar de combater a aftosa.
Significa mudar a forma de combatê-la.
O produtor virou uma das principais sentinelas
É justamente aí que começa uma nova fase para a pecuária mato-grossense.
O próprio Programa Nacional de Vigilância para a Febre Aftosa (PNEFA) passou a concentrar sua estratégia na manutenção do território livre e na prevenção da reintrodução do vírus.
Nas fronteiras internacionais, portos e aeroportos, a fiscalização busca impedir a entrada de animais suscetíveis ou produtos que representem risco sanitário. Dentro do país, os serviços veterinários estaduais trabalham para identificar rapidamente qualquer eventual suspeita.
Na fazenda, entretanto, quem observa o gado todos os dias é o produtor.
Isso torna especialmente importantes sinais como salivação excessiva, febre, falta de apetite, lesões na boca e focinho, ferimentos nos cascos ou tetas e dificuldade de locomoção. Diante de uma suspeita, a orientação é comunicar imediatamente o serviço veterinário oficial.
A velocidade dessa comunicação pode fazer enorme diferença caso exista uma ocorrência sanitária.
O desafio dos próximos anos, portanto, será evitar justamente um dos riscos naturais após tanto tempo sem a doença: a perda da percepção de perigo.
Quanto mais distante fica a lembrança de um surto, maior precisa ser a capacidade do sistema de manter produtores, transportadores, veterinários, leilões, frigoríficos e órgãos públicos atentos.
Por que a aftosa pesa tanto no comércio internacional
A febre aftosa possui enorme importância econômica porque é uma enfermidade altamente contagiosa que atinge animais de casco fendido, incluindo bovinos, bubalinos, suínos, ovinos e caprinos.
Mas o impacto mais temido pela cadeia brasileira está além da porteira.
Sanidade animal funciona como uma espécie de passaporte para o comércio internacional de proteína.
Mercados importadores estabelecem seus próprios protocolos e podem exigir determinadas condições sanitárias para autorizar produtos, regiões ou frigoríficos. Por isso, um status sanitário melhor não significa que um país automaticamente começará a comprar carne brasileira, mas remove obstáculos importantes das negociações.
E os efeitos dessa mudança já começam a aparecer.
Depois da certificação brasileira, as Filipinas concluíram negociação para permitir a entrada de carne bovina com osso e miúdos bovinos brasileiros. A Indonésia também abriu seu mercado para carne com osso, miúdos e outros produtos cárneos.
Em setembro de 2026, mais 21 estabelecimentos brasileiros foram habilitados pela Indonésia, elevando para 73 o número de unidades autorizadas a atender aquele mercado. Entre os estados contemplados pelas novas habilitações está Mato Grosso.
As negociações com mercados ainda mais exigentes também avançam. Em fevereiro deste ano, o governo brasileiro informou progressos nas tratativas com a Coreia do Sul, incluindo a previsão de auditorias em frigoríficos brasileiros dentro do processo de abertura para a carne bovina.
A Rússia, por sua vez, reconheceu em junho de 2026 todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação.
É nessa frente que os 30 anos de Mato Grosso deixam de ser apenas uma conquista sanitária histórica e passam a ter valor comercial.
Mato Grosso já movimenta bilhões com carne bovina
Para o maior rebanho brasileiro, qualquer avanço ou retrocesso sanitário ganha proporções bilionárias.
De janeiro a agosto de 2026, Mato Grosso exportou 665,91 mil toneladas de carne bovina em equivalente carcaça, correspondentes a 25,77% das exportações brasileiras, segundo números do Imea divulgados pelo setor produtivo.
O faturamento alcançou US$ 3,16 bilhões no período.
Esses números ajudam a explicar por que sanidade não deve ser vista apenas como custo ou exigência burocrática.
Ela faz parte da infraestrutura econômica da pecuária.
Estradas transportam o gado. Frigoríficos transformam o animal em carne. Portos levam o produto aos compradores. Mas é a confiança no sistema sanitário que permite que parte dessa carne atravesse determinadas fronteiras.
Quanto maior a quantidade de destinos e produtos autorizados, maior também tende a ser a capacidade da indústria brasileira de diversificar compradores e reduzir sua dependência de poucos mercados.
O fim da vacina aumentou o valor da vigilância
Existe ainda um ponto importante por trás da comemoração dos 30 anos.
Durante décadas, a vacinação criou uma camada adicional de proteção sobre o enorme rebanho brasileiro. Agora, a estratégia é outra.
Desde maio de 2024, todo o Brasil deixou de utilizar a vacinação contra a febre aftosa como ferramenta regular de prevenção.
O sucesso do novo modelo depende justamente da capacidade de detectar rapidamente uma eventual entrada do vírus.
Por isso, propriedades organizadas, documentação de trânsito, atualização dos rebanhos, fiscalização, capacidade laboratorial e produtores capazes de reconhecer sintomas passam a ganhar ainda mais relevância.
O marco de três décadas sem aftosa, paradoxalmente, não deveria servir para reduzir a preocupação com a enfermidade.
Deveria produzir o efeito contrário.
Trinta anos construídos dentro e fora da porteira
Mato Grosso mudou profundamente desde aquele último foco registrado em 1996.
A pecuária tornou-se mais produtiva, profissionalizada e integrada ao mercado internacional. O estado consolidou o maior rebanho bovino brasileiro, tornou-se líder no abate e passou a ocupar posição estratégica nas exportações nacionais de carne.
A defesa sanitária acompanhou essa transformação.
Agora, com o Brasil internacionalmente reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação, começa talvez a etapa mais delicada dessa história: preservar uma conquista que passa a ser percebida apenas quando é ameaçada.
Para Mato Grosso, manter a aftosa longe significa proteger mais de 32 milhões de bovinos, milhares de propriedades, frigoríficos, transportadores, trabalhadores e uma cadeia exportadora que movimenta bilhões de dólares.
Depois de 30 anos, portanto, o maior patrimônio não é simplesmente poder dizer que a doença desapareceu.
É ter construído um sistema capaz de mantê-la distante enquanto a maior pecuária bovina do Brasil continua crescendo e disputando os mercados mais exigentes do mundo.
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