Maior projeto de potássio no Amazonas avança com incentivos federais e deve reduzir importação de fertilizantes

Brazil Potash afirma que Profert, incentivos da Suframa e possibilidade de financiamento pelo BNDES fortalecem o Projeto Potássio Autazes; empreendimento também acumula avanços jurídicos e entra em nova etapa de engenharia

O Projeto Potássio Autazes, no Amazonas, ganhou novos elementos para avançar rumo à fase de construção. A Brazil Potash, responsável pelo empreendimento, anunciou nesta quinta-feira (10) uma série de avanços envolvendo incentivos federais, decisões judiciais e trabalhos de engenharia que, segundo a companhia, ajudam a reduzir os riscos do projeto e fortalecem sua estrutura de financiamento.

O movimento tem importância estratégica para o agronegócio brasileiro. O Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de fertilizantes e depende fortemente do mercado externo para abastecer suas lavouras. No caso do potássio, essa dependência é especialmente elevada, fazendo com que a expansão da produção nacional seja tratada como questão estratégica para a segurança alimentar e para a competitividade da agricultura.

Localizado em Autazes, no Amazonas, o empreendimento da Brazil Potash pretende explorar uma das grandes reservas brasileiras de potássio e ampliar significativamente a oferta doméstica do nutriente utilizado na fabricação de fertilizantes.

Profert pode reduzir custos e facilitar financiamento

Um dos principais avanços destacados pela empresa é a sanção do Profert, legislação voltada à indústria de fertilizantes. Segundo a Brazil Potash, a lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem vetos nas disposições fiscais aprovadas pelo Congresso.

Na avaliação da companhia, a combinação do Profert com os incentivos fiscais da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) poderá gerar economias relevantes durante a implantação do empreendimento.

Entre os mecanismos destacados estão créditos tributários relacionados à produção e instrumentos de financiamento administrados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinados ao fortalecimento da produção brasileira de fertilizantes e minerais considerados estratégicos.

A empresa também destaca a criação de requisitos graduais de conteúdo nacional para fertilizantes comercializados no país. De acordo com as informações divulgadas pela Brazil Potash, o percentual começaria em 2% em 2027, avançando gradualmente até alcançar 10% em 2037.

Para Autazes, esse mecanismo poderia ajudar a criar uma base adicional de demanda para o potássio produzido no Brasil.

Governo anuncia mais R$ 4 bilhões para indústria de fertilizantes

A movimentação ocorre em meio a uma estratégia mais ampla do governo brasileiro para estimular a indústria nacional de fertilizantes.

Em 26 de agosto, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, anunciou R$ 4 bilhões adicionais em recursos administrados pelo BNDES e apoio para capital de giro destinado ao setor de fertilizantes, dentro de um pacote mais amplo de R$ 18,5 bilhões.

O fortalecimento da produção doméstica tornou-se uma questão estratégica diante da exposição brasileira às oscilações internacionais de preços, câmbio, logística e conflitos geopolíticos.

Nesse cenário, projetos de potássio em território nacional ganham relevância não apenas para a mineração, mas diretamente para culturas altamente dependentes de fertilizantes, como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar.

Projeto Autazes também avança na Justiça

Além da frente financeira, a Brazil Potash informou avanços jurídicos relacionados ao empreendimento.

Em 11 de agosto de 2026, segundo a companhia, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) rejeitou recurso envolvendo decisões relacionadas ao Projeto Potássio Autazes. A empresa afirma que o resultado manteve decisões anteriores relacionadas às licenças ambientais e ao processo de consulta aos povos indígenas.

Poucos dias depois, em 21 de agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou uma petição separada que buscava suspender atividades relacionadas à construção do empreendimento, mantendo os efeitos das decisões judiciais e das licenças atualmente vigentes, conforme informado pela companhia.

Os processos ambientais e as discussões envolvendo comunidades indígenas estão entre os pontos mais sensíveis da trajetória do empreendimento e têm sido acompanhados ao longo dos últimos anos.

Engenharia entra em nova etapa

Paralelamente às questões jurídicas e financeiras, o Projeto Potássio Autazes avançou para uma etapa importante de engenharia.

A Brazil Potash informou ter iniciado a cobertura de Front-End Engineering Design (FEED) para todo o projeto. Foram contratadas a WSP UK Ltd. e a Redpath Deilmann para trabalhos relacionados aos poços da mina e ao desenvolvimento subterrâneo.

As empresas se juntam à Wood e à Promon Engenharia, responsáveis por trabalhos relacionados às instalações de superfície.

A conclusão dessa etapa está prevista para o início do segundo trimestre de 2027. O trabalho é considerado fundamental para aumentar a precisão das especificações técnicas, dos custos e do cronograma antes da contratação do financiamento necessário para a construção.

A companhia também informou que iniciou programas de treinamento de mão de obra no local, avançou em acordos para perfurações geotécnicas e recebeu propostas no modelo BOOT — Build, Own, Operate and Transfer — para atender à demanda energética prevista durante a implantação.

Ao mesmo tempo, investidores realizaram novas visitas ao empreendimento e continuam os processos de diligência relacionados à estruturação da dívida para financiar a construção.

“Cada etapa concluída elimina uma camada de risco”

Para o CEO da Brazil Potash, Matt Simpson, os acontecimentos recentes fortalecem a trajetória do empreendimento.

“Temos avançado com o Projeto Potássio Autazes nas frentes comercial, técnica e jurídica, e os acontecimentos dos últimos meses só fortaleceram nosso impulso”, afirmou.

Segundo Simpson, as decisões judiciais, a sanção do Profert e a contratação dos trabalhos de engenharia FEED reforçam o avanço em direção à construção.

“Cada etapa concluída elimina uma camada de risco do Projeto”, acrescentou o executivo.

Por que Autazes interessa diretamente ao produtor rural?

Embora o projeto esteja localizado no coração da Amazônia, seus efeitos potenciais alcançam as principais regiões agrícolas do país.

O potássio é um dos três macronutrientes fundamentais dos fertilizantes NPK e desempenha papel importante no desenvolvimento, produtividade e resistência das plantas. A forte dependência das importações significa que mudanças no mercado internacional podem chegar rapidamente ao custo de produção das propriedades brasileiras.

A entrada de uma nova fonte nacional de grande escala não significa, por si só, fertilizante imediatamente mais barato na fazenda. Preço internacional, câmbio, logística, transformação industrial e custos de distribuição continuarão influenciando o valor pago pelo agricultor.

Ainda assim, uma maior produção brasileira pode diversificar as fontes de abastecimento e reduzir parte da vulnerabilidade do país a choques externos, especialmente em momentos de restrição internacional da oferta.

Por isso, o avanço de Autazes extrapola o setor mineral. Se conseguir chegar à produção comercial na escala projetada, o empreendimento poderá se tornar uma peça importante da estratégia brasileira para diminuir a dependência externa de um insumo indispensável à produção de alimentos.

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