Lula volta a prometer em 2026, mas a picanha nunca chegou à mesa do brasileiro

O Brasil multiplicou a produtividade no campo, modernizou a pecuária e bateu recordes na produção e exportação de proteínas. Se milhões de brasileiros ainda não conseguem levar um corte nobre para casa, o problema não está na falta de carne, mas na perda do poder de compra em uma economia sufocada por gastos, dívida e juros elevados

A picanha voltou ao centro da disputa política brasileira. Às vésperas de mais uma eleição presidencial, vídeos gravados em supermercados tentam provar duas realidades completamente diferentes: de um lado, há quem mostre cortes a preços elevados para denunciar o custo de vida; do outro, quem encontre uma promoção isolada para defender que a carne voltou a caber no bolso.

Mas a realidade econômica de uma família não pode ser medida por uma etiqueta escolhida diante de uma câmera. O preço encontrado em um supermercado de bairro não representa todo o país, assim como uma promoção de fim de semana não significa que o trabalhador recuperou o poder de compra.

A verdadeira pergunta não é se a picanha continua exposta na gôndola. Ela está lá. A pergunta é quantos brasileiros conseguem colocá-la no carrinho sem deixar para trás o arroz, o feijão, o leite, o remédio ou a conta de energia.

Durante a campanha presidencial de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva transformou o churrasco em um dos símbolos mais eficientes de sua candidatura. “O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha”, afirmou o então candidato em entrevista ao Jornal Nacional.

A fala não significava que o governo distribuiria picanha. Era uma metáfora sobre renda, emprego e qualidade de vida. O próprio Lula explicou, em outra ocasião, que prometia recuperar a economia para que o trabalhador pudesse reunir a família, fazer um churrasco e tomar uma cerveja no fim de semana.

Justamente por ser uma metáfora sobre poder de compra, a promessa precisa ser avaliada dessa maneira. E, para milhões de brasileiros, a picanha não voltou.

A carne está disponível; o dinheiro é que não chega

É importante reconhecer que o consumo e a disponibilidade interna de carne bovina melhoraram depois dos momentos mais críticos observados antes da eleição de 2022. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a disponibilidade por habitante passou de 28,2 quilos em 2022 para 31,9 quilos em 2023 e chegou a 36 quilos em 2024.

Isso não significa, entretanto, que todos voltaram a comer picanha. Disponibilidade de carne bovina não é sinônimo de acesso aos cortes nobres. A estatística reúne toda a carne destinada ao mercado interno, dos cortes dianteiros e usados na indústria até as peças mais valorizadas.

Também não significa que a melhora tenha sido permanente. A Conab estimou uma disponibilidade de 34,1 quilos por habitante em 2025 e projeta 31,6 quilos em 2026. A própria estatal reconhece que os preços podem levar os consumidores, especialmente os de menor renda, a substituir a carne bovina por proteínas relativamente mais baratas, como frango, ovos e carne suína.

A picanha, portanto, não desapareceu. Ela apenas continua economicamente distante de grande parte da população.

Esse é um detalhe fundamental. Quando uma família deixa de comprar carne porque o produto não existe, temos um problema de abastecimento. Quando a carne está disponível em volumes elevados, mas a família não consegue pagar, temos um problema de renda e poder de compra.

O Brasil vive principalmente o segundo caso.

Nunca produzimos tanto

Se existe algo que os números deixam claro é que o pecuarista brasileiro cumpriu sua parte.

Em 2025, foram abatidos 42,94 milhões de bovinos no país, o maior resultado da série histórica do IBGE. O número representou crescimento de 8,2% sobre 2024, que até então já era o maior volume registrado.

A produção brasileira de carne bovina alcançou o recorde de 11,1 milhões de toneladas equivalentes de carcaça em 2024. Mesmo com a mudança do ciclo pecuário e a retenção de fêmeas para recomposição dos rebanhos, a Conab estimou produção próxima de 11 milhões de toneladas em 2025 e superior a 10,6 milhões em 2026.

As exportações também alcançaram patamares inéditos. Somente no primeiro semestre de 2026, o Brasil embarcou 1,811 milhão de toneladas de carnes e subprodutos bovinos, alta de 7,3% sobre igual período de 2025. A receita chegou a US$ 9,929 bilhões, crescimento de 33,4%. Volume e faturamento foram recordes para um primeiro semestre.

A carne está sendo produzida. O boi está sendo terminado. Os frigoríficos estão abatendo. Os mercados estão sendo abastecidos. O problema não é uma suposta incapacidade do campo.

bela peca de picanha cortada em mantas sobre a tabua de madeira
Foto: Divulgação

Uma revolução construída dentro da porteira

O desempenho atual não surgiu por acaso. A pecuária brasileira passou por uma das maiores transformações produtivas da história do agronegócio mundial.

Há quatro décadas, o rebanho brasileiro era pouco superior à metade do atual, a produtividade era baixa, o país precisava importar carne para complementar o abastecimento e problemas sanitários limitavam o acesso aos mercados internacionais. Desde então, houve uma verdadeira revolução baseada em genética, nutrição, manejo de pastagens, sanidade, reprodução, gestão e tecnologia.

MFG Confinamento - uso de antibioticos
Foto: Divulgação

O produtor passou a produzir animais mais jovens, mais pesados e mais eficientes. A idade média de abate caiu. A taxa de lotação avançou. A mortalidade diminuiu. A qualidade das carcaças melhorou. A inseminação artificial, a seleção genética, a suplementação estratégica, o confinamento e a integração entre lavoura e pecuária deixaram de ser exceções e ganharam espaço nas fazendas.

Entre 1950 e 2006, os ganhos de produtividade responderam por 79% do crescimento da produção pecuária brasileira, enquanto a expansão das pastagens explicou menos de 21%. Segundo estudo da Embrapa, esses avanços produziram um efeito poupa-terra estimado em 525 milhões de hectares, área que seria necessária para obter o mesmo volume com os indicadores de produtividade do passado.

Nas últimas décadas, o rebanho mais que dobrou, enquanto a área de pastagens avançou muito menos e chegou a diminuir em várias regiões. Isso significa que o Brasil aumentou a produção principalmente por eficiência, e não apenas pela incorporação de novas áreas.

A proteína animal como um todo seguiu a mesma trajetória. Em 2025, o país produziu cerca de 15,3 milhões de toneladas de carne de frango e exportou o recorde de 5,324 milhões de toneladas. O Brasil consolidou-se como maior exportador mundial e terceiro maior produtor dessa proteína.

Na carne suína, as exportações alcançaram o recorde de 1,510 milhão de toneladas em 2025, avanço de 11,6% em um ano, colocando o país em posição de superar o Canadá e assumir o terceiro lugar entre os maiores exportadores mundiais.

O campo produziu mais carne bovina, mais carne suína, mais frango, mais ovos e mais leite. O Brasil tornou-se uma potência global da proteína animal.

Diante desses resultados, culpar o produtor pelo churrasco que não chegou à mesa seria ignorar a realidade.

carne bovina -
Foto: Wenderson Araujo / Trilux

A economia andou na direção contrária

Enquanto o campo avançou em produtividade, a economia brasileira deteriorou sua capacidade de transformar produção em poder de compra.

O governo elevou despesas, criou novos compromissos permanentes, flexibilizou metas e apostou repetidamente no aumento da arrecadação para fechar as contas. Em vez de enfrentar de maneira estrutural o crescimento dos gastos obrigatórios, preferiu buscar novas receitas, ampliar tributos e acomodar despesas por meio de exceções fiscais.

Os resultados aparecem na dívida.

No fim de 2022, a dívida bruta do Governo Geral estava projetada em 73,7% do Produto Interno Bruto. Em junho de 2026, já havia alcançado 81,9% do PIB, ou aproximadamente R$ 10,8 trilhões. É uma elevação de mais de oito pontos percentuais do PIB durante o atual mandato.

Somente nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. Quando os juros são incluídos, o déficit nominal chegou a R$ 1,318 trilhão, quase 10% de tudo o que o país produziu no período. A conta de juros, isoladamente, alcançou R$ 1,160 trilhão, ou 8,8% do PIB.

É verdade que a dívida pública não cresce apenas por causa das despesas primárias. O próprio Banco Central mostra que os juros nominais têm peso decisivo na expansão do endividamento. Mas é justamente a ausência de uma trajetória fiscal confiável que aumenta o risco, pressiona os juros de longo prazo, desancora expectativas e dificulta a queda sustentável da Selic.

Gastos elevados alimentam déficits. Déficits aumentam a necessidade de financiamento. Uma dívida crescente exige remuneração maior para atrair compradores. Juros elevados encarecem ainda mais a dívida e também o crédito de empresas, produtores e consumidores. Forma-se um círculo vicioso cuja conta termina no bolso da população.

Juros de 14% não combinam com prosperidade

Mesmo após os cortes promovidos em 2026, a taxa Selic ainda estava em 14% ao ano em agosto. O próprio Comitê de Política Monetária destacou que as expectativas de inflação permaneciam acima da meta e afirmou continuar acompanhando os impactos da política fiscal sobre a política monetária e os ativos financeiros.

Uma Selic nesse patamar não fica restrita às reuniões do Banco Central. Ela chega ao financiamento do carro, ao crédito imobiliário, ao cartão, ao capital de giro, à dívida das empresas e ao custeio da produção rural.

O juro alto reduz investimentos, trava negócios, aumenta a inadimplência e encarece a rolagem da dívida pública. Também desacelera a atividade econômica justamente porque essa é uma das formas de conter a inflação: limitar a demanda das famílias e das empresas.

Na prática, o governo mantém uma política fiscal expansionista, enquanto o Banco Central precisa pisar no freio monetário. Um lado estimula a economia por meio do gasto; o outro tenta conter a inflação com juros elevados. Quem fica entre o acelerador e o freio é o brasileiro.

O salário entra, mas desaparece antes do açougue

A perda de poder de compra não ocorre apenas porque um produto ficou mais caro. Ela resulta da soma de alimentos, moradia, serviços, transporte, impostos, dívidas e crédito oneroso.

Em Belo Horizonte, por exemplo, um trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisou comprometer 51,04% de sua renda líquida para adquirir a cesta básica em julho de 2026. Na mesma capital, a carne bovina de primeira acumulava alta de 4,98% entre dezembro de 2025 e julho de 2026.

Depois de pagar a cesta básica, resta pouco para aluguel, energia, água, transporte, remédios, roupas e imprevistos. A picanha não precisa desaparecer da gôndola para ficar inacessível. Basta que todas as demais despesas cresçam mais rapidamente do que a renda disponível.

Por isso, mostrar uma peça em promoção não resolve o debate. Poder de compra não é encontrar um preço baixo por acaso. É ter renda suficiente para adquirir o produto com regularidade, sem comprometer necessidades essenciais.

Frigoríficos de MT aumentam exportações de carne bovina para a Espanha em 172% em julho
Foto: Divulgação

Exportar não é retirar comida da mesa

Há ainda quem tente responsabilizar as exportações. Segundo essa interpretação, a carne ficou cara porque o Brasil passou a vender demais para o exterior.

Essa explicação também é incompleta.

As exportações geram renda, empregos, tributos, investimentos e entrada de dólares. Elas remuneram a eficiência construída pelo produtor e permitem que o país aproveite sua vocação agropecuária. Sem o mercado internacional, a pecuária perderia investimentos, escala e capacidade tecnológica.

Além disso, cada bovino fornece apenas uma quantidade limitada de picanha. O restante da carcaça precisa encontrar compradores nos mercados interno e externo. Não existe decisão política capaz de transformar todo o boi em corte nobre.

O produtor também não pode ser obrigado a trabalhar no prejuízo para corrigir os erros da política econômica. Entre o valor recebido na fazenda e o preço encontrado no supermercado existem frigorífico, desossa, embalagem, refrigeração, transporte, tributos, distribuição, perdas e margens comerciais.

O pecuarista não define o salário do trabalhador, a Selic, a dívida pública ou o orçamento federal.

A promessa não foi cumprida dentro de Brasília

A picanha prometida em 2022 nunca foi apenas um corte de carne. Ela representava a expectativa de que o brasileiro teria renda, segurança e tranquilidade para reunir a família no fim de semana.

É sob esse critério que a promessa deve ser analisada.

O campo produziu. A pecuária ganhou produtividade. O abate bateu recorde. As exportações alcançaram volumes históricos. A proteína animal brasileira conquistou mercados e demonstrou competitividade diante do mundo.

A picanha continua na gôndola.

O que não chegou até ela foi o poder de compra de milhões de brasileiros.

E a razão não está na falta de trabalho do pecuarista. Está em uma política econômica que convive com despesas crescentes, déficits recorrentes, dívida em expansão e juros sufocantes. Um governo que não consegue controlar seus próprios gastos também não consegue criar, de forma duradoura, as condições para que a renda do cidadão avance.

O produtor colocou a carne no mercado. Quem não colocou a picanha no prato foi uma economia incapaz de fazer o salário chegar até o fim do mês.

No fim das contas, a promessa não fracassou dentro da porteira. Fracassou dentro de Brasília.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM