Lodo do tratamento de água vira fertilizante e triplica desempenho de gramíneas em testes

Pesquisa da Embrapa com a Sabesp transforma resíduo de estações de tratamento de água em grânulos com nitrogênio e potássio de liberação lenta

Pesquisadores da Embrapa e da Sabesp desenvolveram uma tecnologia capaz de transformar lodo de Estações de Tratamento de Água (ETAs) em fertilizante de liberação lenta. Nos testes realizados com azevém, alguns tratamentos apresentaram eficiência agronômica entre duas e três vezes superior à registrada no controle.

O material utilizado é diferente do lodo produzido em estações de tratamento de esgoto. Nas ETAs, o resíduo pode conter sais de alumínio usados durante o processo de tratamento da água, o que dificulta seu aproveitamento direto na agricultura. A solução encontrada pelos pesquisadores foi modificar esse material antes de utilizá-lo como fonte de nutrientes. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Processo reduz disponibilidade do alumínio e incorpora nutrientes

A tecnologia utiliza um processo realizado sob temperatura e pressão controladas para transformar componentes do lodo em estruturas semelhantes às zeólitas.

Entre elas está a sodalita, mineral capaz de reter o alumínio e reduzir sua possibilidade de liberação no ambiente. Depois dessa etapa, o material é utilizado na fabricação de grânulos enriquecidos com nitrogênio e potássio.

A proposta é liberar esses nutrientes gradualmente no solo, aumentando o tempo em que permanecem disponíveis para as plantas e diminuindo possíveis perdas.

Pesquisas com esse tipo de tecnologia vêm ganhando espaço no agro. Estudos anteriores também avaliaram fertilizantes com liberação controlada de nutrientes, especialmente para melhorar o aproveitamento do nitrogênio.

Azevém apresentou resultado mais expressivo

Os testes foram realizados em casa de vegetação pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), utilizando azevém (Lolium multiflorum) e capim-piatã (Urochloa brizantha).

No azevém, os tratamentos com sodalita granulada alcançaram eficiência agronômica entre duas e três vezes superior à do controle, considerando indicadores como produção de biomassa e absorção de nutrientes.

O capim-piatã também respondeu positivamente, mas com diferença menor.

O resultado não significa que o fertilizante tenha triplicado a produtividade de uma lavoura. Os testes ocorreram em ambiente controlado e ainda precisam ser reproduzidos em condições reais de cultivo.

Resíduo chega a 124 mil toneladas por ano

A escala de produção do lodo ajuda a explicar o interesse pela tecnologia. Segundo os dados apresentados no projeto, a Sabesp gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano em 208 estações de tratamento de água operadas no estado de São Paulo.

Nas maiores unidades, a movimentação pode exigir até 16 viagens de caminhão por dia, enquanto o custo médio de transporte e destinação fica próximo de R$ 300 por tonelada.

Transformar parte desse resíduo em matéria-prima agrícola poderia reduzir a destinação para aterros e criar uma nova utilização para um material que atualmente representa custo para o setor de saneamento.

A pesquisa não deve ser confundida com iniciativas que utilizam lodo de esgoto na fabricação de fertilizantes. A origem do resíduo e o processo empregado são diferentes.

Grânulos também carregaram bactéria benéfica

Os pesquisadores avaliaram ainda a possibilidade de utilizar os grânulos como suporte para microrganismos de interesse agrícola.

A formulação não apresentou bom desempenho com o fungo Trichoderma asperelloides, mas mostrou compatibilidade com a bactéria Bacillus megaterium.

Nos testes, a bactéria permaneceu viável por quase cinco meses, indicando que o material pode futuramente combinar a liberação de nutrientes com microrganismos associados ao desenvolvimento vegetal.

Essa aplicação, porém, também permanece em fase experimental.

Tecnologia ainda precisa ser testada no campo

O projeto recebeu mais de R$ 2,7 milhões e foi desenvolvido ao longo de aproximadamente quatro anos, com participação de diferentes unidades da Embrapa e apoio da Fapesp.

O próximo passo é avançar para uma unidade-piloto industrial e produzir volumes maiores do fertilizante para novos testes.

Também serão necessárias avaliações em condições reais de campo, incluindo diferentes tipos de solo, culturas, doses e condições climáticas.

A tecnologia ainda deverá passar pelos procedimentos necessários para eventual registro no Ministério da Agricultura e Pecuária antes de chegar ao mercado.

O desenvolvimento ganha relevância em um país que ainda depende fortemente de fertilizantes estrangeiros. Dados oficiais indicam que cerca de 93% dos fertilizantes utilizados no Brasil têm origem externa, enquanto as importações atingiram 45,5 milhões de toneladas em 2025.

Isso não significa que o novo produto substituirá fertilizantes importados em grande escala, mas reforça a busca por novas fontes nacionais de nutrientes e pelo aproveitamento de resíduos dentro da agricultura.

Agora, os testes de campo deverão indicar se a solução consegue manter os resultados agronômicos e apresentar viabilidade econômica fora das condições controladas de laboratório e casa de vegetação.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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