Levantamento destaca novo ciclo de desafios institucionais para a Embrapa

Levantamento aponta que a Embrapa precisa modernizar governança, financiamento e gestão interna para manter sua relevância estratégica na pesquisa agropecuária brasileira

Os desafios institucionais para a Embrapa voltaram ao centro do debate sobre o futuro da pesquisa agropecuária no Brasil. Um levantamento elaborado no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), em projeto relacionado à Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), avalia que a estatal precisa revisar sua forma de atuação para continuar relevante em um cenário de mudanças aceleradas no campo, na ciência e no financiamento público.

A discussão ocorre em um momento de forte peso econômico do setor rural. Segundo o Cepea/CNA, o PIB do agronegócio brasileiro chegou a R$ 3,20 trilhões em 2025, com participação de 25,13% na economia nacional. Já a Conab projeta produção de 358,6 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, indicando novo patamar para a produção agrícola brasileira.

Desafios institucionais para a Embrapa vão além do orçamento

A Embrapa construiu parte importante da base científica que permitiu ao Brasil ampliar a produção em clima tropical, desenvolver tecnologias adaptadas aos diferentes biomas e consolidar cadeias agrícolas mais produtivas. Por isso, a empresa segue reconhecida como uma das principais instituições de pesquisa aplicada do país.

O relatório, no entanto, aponta que o legado histórico não garante, sozinho, a capacidade de resposta diante das novas exigências do agro. Os desafios institucionais para a Embrapa envolvem governança, gestão de pessoas, definição de prioridades, financiamento, modernização tecnológica e maior capacidade de transformar conhecimento científico em impacto prático.

A própria Embrapa divulga indicadores que mostram sua importância econômica e social. No Balanço Social referente a 2025, a empresa informou retorno de R$ 27,12 à sociedade para cada R$ 1 investido, com lucro social estimado em R$ 124,76 bilhões.

Governança e coordenação estão no centro do diagnóstico

Um dos pontos centrais do estudo é a necessidade de fortalecer a coordenação interna. A avaliação dos pesquisadores é que a Embrapa ainda reúne ativos relevantes, como corpo técnico qualificado, presença territorial e reconhecimento institucional, mas enfrenta dificuldade crescente para alinhar essas capacidades em torno de prioridades estratégicas.

A estatal opera em rede, com centros de pesquisa, unidades descentralizadas e atuação em diferentes regiões do país. Essa capilaridade é uma vantagem competitiva, mas também exige mecanismos claros de gestão, avaliação e integração. Sem isso, a estrutura pode perder eficiência e dificultar decisões rápidas em áreas consideradas estratégicas.

Nesse contexto, os desafios institucionais para a Embrapa passam por organizar melhor suas unidades, definir critérios transparentes para distribuição de recursos e acompanhar resultados de forma mais objetiva.

Pesquisa pública precisa acompanhar a transformação do agro

A agricultura brasileira mudou de escala, de tecnologia e de complexidade. Hoje, além de produtividade, o setor precisa responder a demandas ligadas à sustentabilidade, rastreabilidade, adaptação climática, bioeconomia, automação, digitalização e segurança alimentar.

Esse novo ambiente exige uma Embrapa mais preparada para atuar em frentes como ciência de dados, inteligência artificial aplicada ao campo, agricultura de precisão, biotecnologia e avaliação de impacto. O estudo indica que a empresa precisa renovar competências sem perder sua função pública de desenvolver soluções para áreas que nem sempre atraem investimento privado.

A questão não é apenas produzir conhecimento, mas garantir que a pesquisa chegue ao produtor, ao mercado e às políticas públicas com velocidade, escala e relevância.

Desafios institucionais para a Embrapa incluem gestão de pessoas

Outro eixo apontado pelo levantamento é a gestão de talentos. A Embrapa depende de pesquisadores, analistas e técnicos altamente especializados, mas precisa preparar lideranças capazes de unir excelência científica com visão administrativa.

A modernização da empresa exige profissionais aptos a lidar com dados, inovação aberta, parcerias institucionais, comunicação científica, novos modelos de financiamento e demandas ambientais. Sem renovação e formação contínua, a estatal corre o risco de manter excelência técnica em áreas específicas, mas perder capacidade de coordenação no conjunto da organização.

Por isso, o estudo recomenda maior atenção à formação de lideranças, à retenção de talentos e à criação de incentivos alinhados às demandas futuras do agro brasileiro.

Financiamento público segue como base estratégica

O levantamento também trata do modelo de financiamento. A recomendação é que a Embrapa diversifique receitas e amplie parcerias, mas sem substituir o papel central dos recursos públicos.

A razão é simples: parte relevante da pesquisa agropecuária tem retorno de longo prazo e interesse coletivo. Isso inclui estudos sobre mudanças climáticas, conservação de recursos naturais, inclusão produtiva, segurança alimentar e tecnologias voltadas a regiões ou culturas com menor atratividade comercial.

Assim, os recursos privados podem complementar projetos e acelerar determinadas agendas, mas não devem definir sozinhos a missão da empresa. Para os pesquisadores, a previsibilidade orçamentária é essencial para preservar a função pública da Embrapa e sustentar pesquisas estruturantes.

Reposicionamento pode ampliar protagonismo internacional

O Brasil ocupa posição estratégica no fornecimento global de alimentos, fibras, energia e soluções tropicais. Nesse cenário, a Embrapa pode reforçar seu papel internacional como referência em agricultura tropical sustentável, desde que consiga atualizar sua governança e seus instrumentos de atuação.

Os desafios institucionais para a Embrapa também envolvem a capacidade de participar de redes globais de ciência, inovação e políticas públicas. Temas como adaptação climática, bioeconomia, agricultura regenerativa e digitalização do campo tendem a ganhar ainda mais importância na competitividade do agro brasileiro.

A conclusão do levantamento é que a empresa segue indispensável, mas precisa transformar diagnóstico em execução. O risco não está na perda imediata de relevância, e sim na possibilidade de permanecer presa a conquistas do passado sem adaptar sua estrutura às demandas atuais.

Para continuar decisiva nas próximas décadas, a Embrapa terá de combinar seu legado científico com uma agenda institucional mais ágil, integrada e preparada para o futuro da agropecuária.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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