Estudo de três anos no Colorado mostra que áreas irrigadas de produção de feno podem reter sedimentos e nutrientes antes que a água retorne aos rios
Uma pesquisa conduzida pela Colorado State University (CSU), nos Estados Unidos, trouxe um resultado pouco intuitivo sobre a relação entre produção agrícola e recursos hídricos. O monitoramento mostrou que campos de feno irrigados em regiões montanhosas podem funcionar como grandes filtros vegetais, retendo sedimentos, fósforo e outros materiais transportados pelo escoamento. Em alguns locais avaliados, a água deixou a propriedade com indicadores melhores do que apresentava antes da irrigação.
O trabalho foi desenvolvido pelo Agricultural Water Quality Program da universidade a pedido da Colorado Ag Water Alliance, organização formada por produtores e entidades interessadas na preservação dos recursos hídricos. A dúvida que motivou a investigação era justamente se a produção de feno e o pastejo estariam contribuindo para aumentar a presença de nutrientes nas águas superficiais das regiões produtoras.
Pesquisa acompanhou três regiões produtoras
O monitoramento começou em 2022 e se estendeu por três anos, com propriedades localizadas nas bacias dos rios Yampa, Gunnison e Colorado.
Em cada região, produtores disponibilizaram áreas para instalação de equipamentos na borda dos campos. Os pesquisadores analisaram a água antes de sua aplicação na irrigação e novamente depois que ela atravessava as áreas produtivas.
As medições incluíram principalmente sedimentos e nutrientes como nitrogênio e fósforo. Ao final do acompanhamento, as concentrações encontradas no escoamento permaneceram baixas nos diferentes locais estudados.
Campos de feno funcionaram como barreira para sedimentos
A cobertura permanente dessas áreas ajuda a explicar o comportamento observado.
Os campos montanhosos estudados são compostos por vegetação perene e formam uma superfície densa sobre o terreno. Quando a água atravessa esse conjunto de plantas, sua velocidade pode diminuir e parte das partículas carregadas pelo fluxo permanece no próprio campo.
É um princípio semelhante ao das faixas vegetadas utilizadas para reduzir perdas de solo e nutrientes próximas a áreas agrícolas.
No caso do fósforo, esse processo é particularmente relevante porque o nutriente possui forte associação com partículas de solo. Se o sedimento permanece no terreno, parte do fósforo transportado junto com ele também pode ser retida. A própria CSU destaca que o manejo adequado da irrigação é uma ferramenta para manter solo e nutrientes dentro da área produtiva.
Água chegou a sair melhor do que entrou
O resultado que mais chamou a atenção surgiu na comparação direta entre a água utilizada na irrigação e aquela que posteriormente deixava algumas áreas.
Segundo a Colorado State University, houve situações em que os níveis de nutrientes encontrados na saída eram inferiores aos registrados na água aplicada inicialmente.
Um dos participantes foi Carlyle Currier, produtor e presidente da Colorado Farm Bureau. Ele escolheu para o acompanhamento justamente a parte da fazenda que considerava apresentar maior possibilidade de contaminação.
Os dados coletados indicaram que, de maneira geral, a água que deixava aquele campo apresentava qualidade superior à utilizada para irrigá-lo.
A descoberta não significa, porém, que a atividade agrícola transforme água contaminada em água potável. O que os pesquisadores identificaram foi melhora em determinados parâmetros relacionados ao escoamento, dentro de um sistema produtivo e ambiental específico.
Manejo faz diferença no resultado
Há uma característica importante nas propriedades analisadas: os sistemas de produção de feno das montanhas do Colorado possuem ciclo produtivo curto e utilização relativamente baixa de fertilizantes.
Essa condição influencia diretamente o risco de perdas de nutrientes.
A aplicação excessiva de água, por exemplo, pode favorecer o transporte de sedimentos e fertilizantes para fora da área produtiva. Já o ajuste da quantidade e do momento da irrigação ajuda a reduzir essas perdas. No caso do nitrato, o cuidado é ainda maior porque essa forma de nitrogênio possui alta mobilidade na água.
O estudo, portanto, não sustenta a ideia de que qualquer cultivo agrícola produz o mesmo efeito. Tipo de vegetação, solo, relevo, volume de fertilizantes e manejo da irrigação alteram completamente o comportamento da água dentro da propriedade.
Por que reduzir fósforo e nitrogênio importa?
O problema surge quando nutrientes essenciais para as plantas chegam aos ambientes aquáticos em quantidades excessivas.
Nitrogênio e fósforo podem favorecer a multiplicação de algas em lagos e reservatórios. Esse processo pode reduzir a qualidade da água e afetar organismos aquáticos, principalmente quando a decomposição dessas algas diminui a quantidade de oxigênio disponível.
Sedimentos em excesso também representam risco. Quando acumulados no fundo de rios e lagos, podem modificar habitats e prejudicar áreas utilizadas por diferentes espécies.
Por isso, evitar que solo e nutrientes deixem a propriedade interessa tanto à conservação ambiental quanto ao produtor, que perde junto com o escoamento recursos utilizados para manter a produtividade da área.
Campos de feno abrem caminho para novas pesquisas
Os resultados agora servirão como referência para uma nova etapa de investigação na bacia do rio Yampa.
A proposta é avaliar práticas de manejo em campos montanhosos e descobrir quais estratégias conseguem combinar proteção da qualidade da água, produção de forragem e viabilidade econômica para as propriedades rurais.
O levantamento original recebeu recursos do Colorado Department of Public Health and Environment e da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).
Há, entretanto, uma limitação importante para interpretar a descoberta. Os resultados divulgados em agosto de 2026 são classificados como relatório e proceedings, e não como um artigo científico revisado por pares. Além disso, foram obtidos em sistemas específicos de feno irrigado das montanhas do Colorado.
Ainda assim, o trabalho revela um aspecto interessante da agricultura: uma área produtiva bem coberta e manejada pode participar ativamente da retenção de sedimentos e nutrientes, reduzindo a quantidade desses materiais que alcança rios e córregos.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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