Empresário teria defendido maior acesso da proteína do Brasil ao mercado americano em reunião no dia 20 de agosto; seis dias depois, governo dos EUA ampliou temporariamente cota para importação de carne bovina magra
Uma movimentação nos bastidores de Washington colocou a tarifa sobre carne brasileira novamente no centro das atenções do mercado pecuário. Joesley Batista, um dos controladores da JBS, teria se reunido com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 20 de agosto para defender condições mais favoráveis à entrada do produto brasileiro no país, segundo informação publicada pelo Wall Street Journal e repercutida pela Reuters nesta terça-feira (1º).
De acordo com a apuração, o empresário teria apresentado ao presidente norte-americano uma avaliação essencialmente econômica: uma maior disponibilidade de carne importada poderia contribuir para aliviar a pressão sobre os preços nos Estados Unidos. Entre os pontos discutidos estaria a redução da tarifa de 26% incidente sobre a carne bovina brasileira mencionada pela reportagem.
A existência e os detalhes da conversa, entretanto, devem ser tratados como informação atribuída a fontes. A Reuters declarou não ter conseguido confirmar de maneira independente o conteúdo relatado sobre a reunião.
Tarifa sobre carne brasileira entra no radar em momento de preços elevados
O suposto encontro ocorre em um cenário no qual Washington tenta ampliar a disponibilidade de carne bovina sem depender apenas da recuperação da produção doméstica.
Os Estados Unidos convivem com uma oferta limitada de gado após anos de seca e outras adversidades enfrentadas pelos pecuaristas. Segundo reportagem da Reuters publicada em 31 de agosto, o rebanho bovino norte-americano chegou ao menor nível em aproximadamente 75 anos, contribuindo para preços elevados da proteína no país.
Nesse ambiente, importar determinados cortes e matérias-primas tornou-se uma das ferramentas adotadas pelo governo para ampliar a oferta no curto prazo.
A estratégia, porém, enfrenta resistência dentro do próprio setor agropecuário norte-americano. Entidades de produtores argumentam que uma entrada maior de produto estrangeiro pode pressionar a remuneração dos pecuaristas locais justamente durante um período de recuperação do rebanho.
Trump amplia cota para carne bovina seis dias depois do encontro relatado
Em 26 de agosto, seis dias após a data atribuída à reunião com Joesley Batista, Trump assinou uma proclamação alterando temporariamente as condições para importação de carne bovina.
O ato presidencial acrescentou 300 mil toneladas métricas de aparas de carne bovina magra à quantidade que pode entrar nos Estados Unidos utilizando a tarifa prevista dentro da cota de importação. A medida começa a valer em 1º de setembro de 2026 e tem caráter temporário.
Esse tipo de carne é especialmente importante para a indústria norte-americana porque pode ser misturado à matéria-prima produzida no próprio país na fabricação de carne moída.
O volume será disponibilizado em três etapas de 100 mil toneladas, entre setembro e novembro. Segundo a proclamação, a quantidade adicional foi destinada à categoria de “outros países ou áreas”, e não especificamente ao Brasil.
Portanto, a decisão pode favorecer exportadores brasileiros habilitados, mas não representa uma cota exclusiva para frigoríficos do Brasil.
Decisão oficial não estabelece ligação com atuação de Joesley
A proximidade entre as duas datas chama atenção do mercado, mas exige cautela na interpretação.
A reportagem sobre Joesley indica que o empresário teria defendido mudanças nas condições de importação poucos dias antes da nova medida. Isso não significa, entretanto, que exista comprovação de que a conversa tenha provocado a decisão da Casa Branca.
No documento que oficializa a ampliação da cota, o governo norte-americano justifica a intervenção pela dificuldade de atender a demanda doméstica por carne bovina a preços considerados razoáveis.
A Casa Branca cita problemas de oferta decorrentes de desastres naturais, doenças e perturbações relevantes no mercado, além da expectativa de que os preços permaneçam elevados sem medidas adicionais.
Assim, editorialmente, é importante diferenciar os dois acontecimentos: o encontro é uma informação jornalística atribuída a fontes; a ampliação da cota é uma decisão oficial documentada pelo governo dos Estados Unidos.
Tarifa sobre carne brasileira interessa diretamente aos frigoríficos do país
Os Estados Unidos já representam um mercado importante para a indústria de carne bovina brasileira.
Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil embarcou 233,8 mil toneladas de carne bovina para o mercado norte-americano, volume 17,1% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com dados da Secretaria de Comércio Exterior.
O país ficou atrás apenas da China entre os principais destinos do produto brasileiro no período.
No conjunto de todos os mercados, as exportações brasileiras chegaram a 1,969 milhão de toneladas nos primeiros sete meses do ano, crescimento de 9,9%. A receita alcançou US$ 11,43 bilhões, avanço de 28,3% na comparação anual.
Esses números ajudam a explicar por que qualquer mudança na tarifa sobre carne brasileira nos Estados Unidos é acompanhada de perto por frigoríficos, pecuaristas e agentes do mercado.
Nova cota pode abrir espaço adicional para o Brasil
A ampliação das importações norte-americanas cria uma oportunidade comercial, mas o tamanho efetivo desse espaço para o Brasil ainda dependerá da utilização da cota e da concorrência com outros fornecedores.
O texto oficial permite que parceiros comerciais habilitados a vender carne bovina para os Estados Unidos disputem o volume adicional. Ou seja, as 300 mil toneladas não devem ser interpretadas como uma autorização para que o Brasil sozinho aumente seus embarques nesse montante.
Para o setor brasileiro, o próximo indicador relevante será justamente a participação nacional dentro dessa nova janela de importação.
Caso os frigoríficos brasileiros consigam ampliar as vendas, o movimento poderá reforçar a posição dos Estados Unidos entre os principais destinos da carne nacional. Ao mesmo tempo, a reação dos pecuaristas norte-americanos e eventuais novas decisões comerciais de Washington permanecem como fatores capazes de alterar esse cenário.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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