Coalizão anuncia 14 queixas em quatro países e questiona relações financeiras da companhia. Levantamento associa fornecedores a mais de 6,5 milhões de hectares desmatados; JBS contesta a falta de acesso aos dados e afirma manter controles socioambientais nas compras de gado.
A JBS é alvo de denúncias na Europa por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao desmatamento ilegal na Amazônia. Em comunicado de quinta-feira (5 de novembro), a Global Legal Action Network (GLAN) informou que integrantes da Coalizão Jurídica Transnacional (TLC) apresentaram 14 queixas em quatro países, envolvendo a companhia e parceiros financeiros e de serviços.
As alegações se apoiam em levantamento da AidEnvironment sobre propriedades vinculadas à cadeia de fornecimento de bovinos. São acusações apresentadas por organizações, sem comprovação judicial de responsabilidade da JBS no material consultado. A empresa questiona a ausência dos dados e da metodologia necessários para avaliar o estudo.
O que as organizações pedem às autoridades europeias
Segundo o Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), as iniciativas alcançam Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Países Baixos. Uma notícia-crime contra a controladora JBS N.V. foi encaminhada ao Ministério Público neerlandês. No Reino Unido, a subsidiária JBS Global foi objeto de comunicação à National Crime Agency e ao regulador financeiro.
O ECCHR informa que outras queixas se dirigem a instituições que mantêm relações com o grupo, incluindo Barclays, Standard Chartered, Rabobank, ING e a filial londrina do Banco do Brasil. Operações da BlackRock e prestadores de serviços jurídicos, contábeis e de auditoria também são citados.
A tese defendida pela coalizão é que receitas da comercialização de gado criado em áreas desmatadas criminosamente podem constituir recursos de origem ilícita. Sua circulação internacional, sustenta o grupo, deve ser examinada à luz das normas de prevenção à lavagem de dinheiro. O enquadramento e eventuais responsabilidades dependem da análise das autoridades competentes.
Como interpretar os 6,5 milhões de hectares
A GLAN atribui ao estudo da AidEnvironment a associação de fornecedores diretos a aproximadamente 3,4 milhões de hectares desmatados e de indiretos a outros 3,2 milhões. Esses últimos participam de etapas anteriores da criação, antes da venda dos animais ao fornecedor que negocia com o frigorífico.
Segundo o Brasil de Fato, a pesquisa analisou 12.576 fornecedores em Mato Grosso, Pará e Tocantins, cruzando registros de transporte de gado, cadastros rurais e informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A área associada às propriedades não equivale, por si só, a desmatamento provocado pela JBS ou integralmente ilegal. Também não representa uma medição de devastação ocorrida apenas em 2026. A GLAN descreve uma série de 1988 a julho de 2025; o comunicado do ECCHR menciona 1988 a 2026, divergência que exige cautela com o período final do levantamento.
O que diz a JBS
Na resposta reproduzida pelo Brasil de Fato, a companhia afirmou que a ausência dos dados e da metodologia impede a avaliação das alegações. A manifestação não foi obtida diretamente pela reportagem do Compre Rural.
A JBS declarou que monitora fornecedores de gado na Amazônia desde 2010, com imagens de satélite e georreferenciamento. Segundo a empresa, os controles seguem critérios de protocolo estabelecido pelo Ministério Público Federal e bloqueiam fazendas com desmatamento ilegal, embargos, sobreposição a territórios protegidos ou trabalho análogo ao escravo.
Rastreabilidade envolve os elos anteriores ao frigorífico
Para a pecuária, o caso chama atenção para o acompanhamento da origem dos animais entre diferentes fazendas. O Grupo de Trabalho dos Fornecedores Indiretos (GTFI) destaca a necessidade de ferramentas que complementem o monitoramento dos vendedores diretos e permitam alcançar os elos anteriores da cadeia.
Na gestão da propriedade, manter registros de compra, venda e movimentação dos bovinos ajuda a documentar esse percurso. A discussão envolve a capacidade de demonstrar a origem do rebanho e a conformidade socioambiental dos fornecedores, enquanto as queixas europeias aguardam avaliação pelas autoridades.
Leia também: A importância do registro de fornecedores e corretores no processo de compra de gado.
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