Entrada da JBS na Mantiqueira colocou a maior produtora de ovos da América do Sul em uma das maiores plataformas de proteínas do mundo. Por trás de bilhões de ovos, cascas e membranas escondem matérias-primas de alto valor — embora esse potencial não tenha sido apontado como motivo da aquisição.
Quando a JBS anunciou sua entrada no mercado de ovos, o tamanho da operação naturalmente chamou atenção. A companhia adquiriu 48,5% do capital social total e 50% das ações com direito a voto da Mantiqueira Brasil, em uma transação baseada em um valor empresarial de aproximadamente R$ 1,9 bilhão para 100% do negócio. Aplicada de maneira proporcional, a participação adquirida representa algo próximo de R$ 920 milhões — embora esse número seja uma estimativa derivada do valuation, e não um desembolso oficialmente divulgado nesses termos.
A explicação oficial para a aquisição é clara. A JBS buscava ampliar sua plataforma global de proteínas e entrar em uma categoria que considera estratégica, acessível e com consumo crescente. A companhia, que já estava presente em bovinos, aves, suínos, aquicultura e proteínas alternativas, acrescentou os ovos ao portfólio.
Mas existe uma segunda história, muito menos evidente, escondida dentro dessa operação.
A Mantiqueira Brasil produz e comercializa cerca de 4 bilhões de ovos por ano. E, quando parte dessa produção é direcionada à industrialização, surge um subproduto aparentemente banal: a casca do ovo.
É justamente nela que a ciência e a indústria começam a enxergar algo muito mais valioso do que simples resíduo.
Quem quebra um ovo normalmente percebe uma película fina aderida à parte interna da casca. Trata-se da membrana da casca do ovo, conhecida internacionalmente como eggshell membrane.
Durante décadas, ela foi tratada principalmente como parte de um resíduo da indústria de processamento de ovos. O avanço da biotecnologia, porém, está mudando essa percepção.
Uma ampla revisão científica publicada em 2026 descreve a membrana como um biorrecurso com potencial de alto valor, especialmente por sua composição de proteínas estruturais, queratina e glicosaminoglicanos. A literatura também aponta propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas, além de aplicações potenciais em alimentos funcionais, nutracêuticos e materiais biodegradáveis.
A composição ajuda a explicar o interesse.
A membrana contém colágenos dos tipos I, V e X, além de compostos como ácido hialurônico, sulfato de condroitina, glucosamina, elastina e outros componentes proteicos. Revisões científicas já identificaram centenas de proteínas diferentes nesse material.
Em outras palavras, aquilo que permanece grudado na casca depois que o conteúdo do ovo segue para a indústria pode carregar matérias-primas que, depois de separadas, purificadas e processadas adequadamente, encontram aplicações de valor muito superior ao de um resíduo convencional.
De descarte a suplemento, cosmético e biomaterial
Essa transformação não é apenas uma possibilidade teórica.
A literatura científica registra tecnologias destinadas à separação da membrana e ao aproveitamento de seus componentes. Há aplicações e pesquisas envolvendo suplementos alimentares, saúde articular, cosméticos, alimentos funcionais, engenharia de tecidos e biomateriais.
Uma revisão sistemática publicada em 2024, por exemplo, analisou o uso da membrana da casca relacionado à saúde óssea. Os pesquisadores destacaram semelhanças entre alguns componentes orgânicos encontrados nela e aqueles presentes no tecido ósseo, incluindo colágeno tipo I, condroitina e ácido hialurônico.
Isso não significa que simplesmente consumir casca ou membrana produza esses benefícios. O valor industrial depende de processamento, padronização, segurança, tecnologia de extração e enquadramento regulatório.
E aí está um dos pontos centrais dessa história.
Não basta possuir bilhões de cascas. É necessário conseguir separar eficientemente a fração mineral da membrana, preservar compostos de interesse, garantir qualidade microbiológica e transformar tudo isso em ingredientes comercialmente viáveis.
A própria literatura científica aponta a eficiência da extração, a consistência do produto e as exigências regulatórias entre os principais desafios para ampliar o aproveitamento comercial da membrana.
E ainda sobra a própria casca
Mesmo depois da retirada da membrana, o restante não necessariamente precisa virar descarte.
A parte rígida da casca é formada predominantemente por minerais, com grande presença de carbonato de cálcio. Estudos e revisões descrevem possibilidades de utilização desse material como fonte de cálcio, ingrediente para alimentação animal, corretivos ou aplicações relacionadas ao solo e diferentes processos industriais.
É uma lógica cada vez mais importante para grandes cadeias agroindustriais: não olhar apenas para aquilo que a fábrica vende, mas para tudo aquilo que ela concentra durante o processo produtivo.
Quanto maior a escala, maior tende a ser a quantidade de subprodutos reunida em poucos pontos industriais — e é justamente essa concentração que pode tornar economicamente viáveis tecnologias que seriam impraticáveis quando o resíduo está disperso.
A escala da Mantiqueira muda a dimensão da oportunidade
É aqui que o tamanho da Mantiqueira Brasil torna a discussão especialmente interessante.
A companhia informa atualmente uma produção e comercialização de aproximadamente 4 bilhões de ovos por ano, além de presença industrial e produtiva em diferentes regiões brasileiras.
Nem todos esses ovos são quebrados industrialmente e, portanto, não seria correto transformar os 4 bilhões de unidades em uma estimativa direta de cascas disponíveis para processamento.
Ainda assim, o número mostra a dimensão potencial da cadeia.
E a estratégia recente da empresa indica que o negócio já está avançando para além da tradicional venda do ovo in natura.
Em 2026, a Mantiqueira ampliou sua atuação com a N.OVO e lançou bebidas proteicas feitas a partir de clara de ovo hidrolisada, entrando em um mercado de produtos funcionais de maior valor agregado.
Isso reforça uma tendência importante: o ovo deixa gradualmente de ser encarado apenas como uma unidade vendida em uma bandeja e passa a funcionar também como plataforma industrial de ingredientes e proteínas.
É justamente nesse ambiente que o aproveitamento de cascas e membranas ganha relevância econômica.
Então a JBS comprou a Mantiqueira por causa das cascas?
Não há evidência pública que permita fazer essa afirmação.
Essa distinção é fundamental.
Ao anunciar a operação, a JBS afirmou que o investimento estava alinhado à estratégia de longo prazo de diversificação do portfólio, entrada em novos segmentos de proteína e crescimento em negócios de marcas e valor agregado. O CEO global Gilberto Tomazoni também destacou o crescimento do consumo mundial de ovos e a versatilidade do produto tanto como alimento final quanto como ingrediente.
A empresa não anunciou a extração de colágeno, ácido hialurônico ou outros compostos da membrana como justificativa para a aquisição.
Portanto, dizer que a JBS desembolsou centenas de milhões de reais para ficar com as cascas seria transformar uma hipótese interessante em fato — e não é isso que as informações disponíveis demonstram.
O que existe é algo diferente e talvez até mais relevante: uma oportunidade tecnológica real dentro de uma operação que ganhou escala, capital e acesso a uma das maiores estruturas globais da indústria de alimentos.
O conceito por trás disso já tem nome: upcycling
A transformação de resíduos ou subprodutos em materiais de maior valor é frequentemente chamada de upcycling.
No agronegócio, essa lógica já aparece em diferentes cadeias. Sebo bovino pode ganhar aplicações energéticas e industriais; resíduos de frigoríficos alimentam cadeias de ingredientes; bagaço de cana tornou-se combustível para cogeração de energia e matéria-prima para novas tecnologias.
Na avicultura de postura, a casca do ovo pode seguir trajetória semelhante.
Uma revisão publicada na Food Chemistry chama atenção justamente para o potencial de transformar a membrana, ainda subutilizada pela indústria, em biomateriais de maior valor para mercados como nutracêuticos e cosméticos.
O princípio econômico é poderoso: reduzir simultaneamente custo de destinação de resíduos e dependência de matérias-primas externas, enquanto se cria uma nova linha potencial de produtos.
Mas a conta só fecha quando tecnologia, escala, mercado e regulação caminham juntos.
O verdadeiro “tesouro” pode ser transformar um ovo em vários negócios
A aquisição da Mantiqueira pela JBS não deve ser interpretada como uma aposta secreta em colágeno escondido nas cascas.
A história comprovada é suficientemente grande por si só: uma das maiores companhias de alimentos do planeta entrou no setor de ovos por meio da maior produtora da América do Sul, incorporando uma operação de aproximadamente 4 bilhões de unidades anuais à sua estratégia multiproteína.
Mas a ciência mostra que existe uma segunda camada de valor nessa cadeia.
Clara pode virar ingrediente proteico. A membrana pode fornecer compostos de interesse para produtos de maior valor agregado. A fração mineral da casca pode ganhar novas aplicações. E aquilo que antes terminava como custo ambiental pode, com tecnologia suficiente, transformar-se em matéria-prima.
É justamente por isso que o caso merece atenção.
O futuro da indústria de ovos talvez não esteja apenas em produzir mais unidades, mas em extrair mais valor de cada ovo produzido.
E, nesse cenário, até aquilo que sobra depois que o ovo é quebrado pode acabar se tornando negócio.
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