Japão expõe “forte preocupação” de pecuaristas enquanto Brasil tenta abrir mercado para carne bovina

Após China e Europa, Brasil mira gigante asiático para a carne bovina, mas pecuaristas locais reagem e Japão reconhece preocupação de seus produtores durante negociação comercial com o Mercosul; abertura do mercado japonês à carne brasileira continua em análise justamente quando setor busca reduzir dependência de grandes compradores

A tentativa brasileira de abrir um dos mercados de carne bovina mais cobiçados do mundo ganhou um novo componente nesta quarta-feira (16). O Japão reconheceu publicamente que está levando em consideração as preocupações de seus próprios produtores rurais nas negociações para um acordo econômico com o Mercosul, enquanto o Brasil mantém como prioridade a abertura do mercado japonês para a carne bovina nacional.

A manifestação acontece em um momento especialmente delicado para a pecuária brasileira. A China, maior compradora da carne nacional, atingiu sua cota de importação com tarifa reduzida e provocou uma forte desaceleração dos embarques. Ao mesmo tempo, desde 3 de setembro, a União Europeia suspendeu importações brasileiras de produtos de origem animal, incluindo carne bovina.

Nesse cenário, abrir o Japão deixou de representar apenas mais um destino comercial. O país asiático pode se tornar parte importante da estratégia brasileira para diversificar mercados e reduzir a exposição da cadeia a decisões tomadas por poucos grandes compradores.

Japão admite preocupação de seus pecuaristas

A sinalização veio do ministro das Relações Exteriores japonês, Toshimitsu Motegi.

Em entrevista publicada nesta quarta-feira, o chanceler afirmou que o Japão leva seriamente as preocupações apresentadas pelos setores agrícola e pecuário do país durante as negociações do Acordo de Parceria Econômica entre Japão e Mercosul.

O acordo começou a ser formalmente negociado em junho de 2026.

Segundo informações oficiais da Secex/MDIC, o objetivo é ampliar o acesso aos mercados de produtos agrícolas e industriais, fortalecer investimentos e aumentar a integração das cadeias produtivas entre as duas economias.

A carne bovina brasileira aparece nesse tabuleiro como um produto particularmente sensível.

O Japão possui uma produção pecuária doméstica altamente valorizada e mantém exigências sanitárias rigorosas para importações.

Por isso, qualquer avanço brasileiro envolve dois obstáculos distintos: obter a aprovação sanitária para vender carne ao país e, depois, conseguir condições comerciais competitivas para disputar aquele mercado.

Brasil tenta abrir o Japão há anos

A negociação sanitária é anterior ao atual acordo comercial.

Em junho de 2025, o Brasil recebeu uma missão oficial de auditores do Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca do Japão. Os técnicos japoneses avaliaram o Serviço Veterinário Oficial brasileiro em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.

A visita integrou formalmente a análise de risco para uma eventual autorização da carne bovina brasileira.

Os japoneses avaliaram estruturas sanitárias, laboratórios, postos de fronteira e sistemas oficiais de defesa animal.

O processo, porém, não significa que o mercado esteja aberto.

A carne bovina brasileira in natura ainda aguarda autorização sanitária japonesa.

Essa distinção é fundamental: existe negociação avançando, mas não existe habilitação geral concluída.

Por que o Japão ficou ainda mais importante

Em condições normais, conquistar um mercado premium já teria peso estratégico. O cenário de setembro tornou essa possibilidade ainda mais relevante.

A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina que podem entrar sem a tarifa adicional de 55%. Em agosto, o governo chinês informou que 90% desse volume já havia sido utilizado.

O resultado apareceu rapidamente nos portos.

Nos primeiros oito dias úteis de setembro, o Brasil exportou 79,7 mil toneladas de carne bovina in natura. A média diária ficou aproximadamente 30,3% abaixo de setembro de 2025.

O Compre Rural já mostrou essa desaceleração e, por isso, o dado entra aqui apenas como contexto.

Na Europa, surgiu outro problema.

Desde 3 de setembro, a União Europeia suspendeu a entrada de carne bovina brasileira enquanto cobra garantias adicionais relacionadas às regras europeias sobre antimicrobianos.

O governo brasileiro trabalha para reverter a medida e aguarda nova etapa de auditoria.

Em outras palavras, dois mercados centrais para a estratégia exportadora brasileira estão simultaneamente sob restrições.

É justamente nesse ambiente que o Japão ganha importância.

Mercado japonês não substituiria a China

Apesar do potencial, é preciso colocar o tamanho dessa oportunidade em perspectiva.

Nenhum eventual avanço com o Japão significaria substituir imediatamente a China.

A China absorveu volumes extraordinários de carne brasileira nos últimos anos e construiu uma cadeia comercial já estabelecida com dezenas de frigoríficos habilitados.

Uma abertura japonesa começaria de outro ponto.

Primeiro seria necessário concluir o processo sanitário. Depois viriam habilitações, protocolos, logística e construção das relações comerciais entre importadores e frigoríficos brasileiros.

Por isso, o maior valor estratégico do Japão está na diversificação e no acesso a um mercado exigente e de alto valor, e não na substituição imediata de centenas de milhares de toneladas destinadas à China.

A negociação vai além da carne

O acordo em discussão entre Mercosul e Japão possui alcance muito maior.

Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Japão chegou a US$ 11,5 bilhões, segundo a Secex. O Brasil exportou US$ 5,5 bilhões e importou aproximadamente US$ 6,1 bilhões.

Entre os produtos brasileiros já vendidos aos japoneses aparecem carne de frango, carne suína, café, soja, minério de ferro, alumínio e celulose.

A carne bovina permanece como uma ausência relevante nessa pauta.

O Brasil possui escala de produção, indústria exportadora consolidada e reconhecimento internacional como grande fornecedor. O desafio é atravessar as barreiras sanitárias e comerciais de um país conhecido pela exigência sobre alimentos importados.

Reação dos pecuaristas japoneses merece atenção

A declaração desta quarta-feira adiciona uma variável política à negociação.

Se produtores japoneses pressionarem por proteção à pecuária doméstica, concessões envolvendo carne bovina podem se tornar mais difíceis durante a discussão do acordo.

Isso não significa que o Japão tenha rejeitado a carne brasileira.

Também não significa que a negociação sanitária tenha sido interrompida.

O fato novo é que o próprio governo japonês reconheceu publicamente a preocupação de seu setor agropecuário enquanto negocia maior abertura comercial com o Mercosul.

Para o Brasil, será necessário avançar em duas frentes: comprovar os requisitos sanitários exigidos pelos japoneses e negociar condições comerciais capazes de tornar a carne brasileira competitiva.

Diversificar deixou de ser apenas estratégia de longo prazo

A sucessão de acontecimentos de 2026 tornou evidente o risco de concentração das exportações.

Quando um comprador altera tarifa, cota ou regra sanitária, a consequência pode chegar rapidamente às indústrias frigoríficas e, dependendo da duração e da intensidade, ao próprio mercado do boi gordo.

Abrir Japão, Indonésia e outros mercados não elimina essa exposição de imediato. Mas aumenta o número de alternativas disponíveis para redirecionar produtos e construir novas relações comerciais.

É por isso que a negociação japonesa merece ser acompanhada pelo pecuarista brasileiro.

Em um momento no qual China limita volumes e Europa fecha temporariamente suas portas, conquistar um novo mercado premium tornou-se uma das peças mais importantes da estratégia internacional da carne bovina brasileira.

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