Irrigação deixa de ser resposta à seca e entra no planejamento da pecuária

Tecnologia ganha espaço como ferramenta para dar previsibilidade à produção de forragem e reduzir a dependência das chuvas; estratégia exige análise de água, manejo, custos e retorno antes de chegar ao campo

Durante muito tempo associada principalmente ao enfrentamento da estiagem, a irrigação começa a ocupar uma posição diferente dentro da pecuária: a de ferramenta de planejamento da produção. Ao ampliar o controle sobre a disponibilidade de forragem, a tecnologia permite reduzir parte da dependência das chuvas e trazer maior previsibilidade para decisões relacionadas à alimentação, lotação e desempenho do rebanho.

Essa mudança de perspectiva esteve no centro da palestra “Irrigação na Pecuária: Quando a Chuva Não Decide”, apresentada por Carlos Augusto Ferreira, gerente de projetos da Valley Irrigation, durante o 1º Encontro de Produtores Rurais de Uberaba (MG), realizado no último sábado (12).

Promovido pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Uberaba, com apoio do Sistema FAEMG SENAR, o encontro colocou em discussão um desafio conhecido pelos pecuaristas: como planejar a produção quando uma das principais variáveis do sistema — a chuva — não pode ser controlada?

Em propriedades nas quais a alimentação do rebanho depende diretamente da disponibilidade e da qualidade das pastagens, a irregularidade das precipitações interfere não apenas na quantidade de forragem, mas também na capacidade de organizar a produção ao longo do ano.

É justamente nesse ponto que a irrigação passa a assumir uma função estratégica.

“A chuva é uma variável que o produtor não controla. A tecnologia existe justamente para ampliar aquilo que ele pode controlar. Quando levamos irrigação para a pecuária, estamos falando de previsibilidade, planejamento e da capacidade de produzir com mais segurança ao longo do ano”, afirma Ferreira.

Irrigar não significa apenas colocar água no pasto

A adoção da tecnologia, entretanto, não deve ser tratada simplesmente como resposta à falta de chuva.

Segundo Ferreira, a implantação de um sistema irrigado precisa fazer parte de uma decisão técnica e econômica mais ampla. Disponibilidade hídrica, características da propriedade, manejo das pastagens, objetivo produtivo e retorno esperado sobre o investimento estão entre os fatores que precisam entrar na conta.

A mudança está justamente em substituir uma estratégia baseada apenas na reação aos períodos secos por um modelo no qual a oferta de alimento possa ser planejada com maior antecedência.

“Não estamos falando simplesmente em colocar água no campo. Estamos falando em criar condições para que o produtor tome decisões melhores sobre quando produzir, quanto produzir e como integrar essa tecnologia ao restante do manejo da propriedade”, explica.

Na prática, a água passa a fazer parte do planejamento do sistema produtivo, e não apenas de uma estratégia emergencial para atravessar períodos de estiagem.

Isso pode trazer reflexos sobre decisões importantes da fazenda, especialmente em sistemas mais intensivos, nos quais produção de forragem, capacidade de suporte das pastagens e alimentação do rebanho estão diretamente relacionadas ao resultado econômico da atividade.

Tecnologia precisa estar conectada à realidade da propriedade

Outro ponto destacado durante o encontro foi que não existe uma solução única de irrigação capaz de atender igualmente todas as fazendas.

Cada projeto precisa considerar as condições disponíveis e, principalmente, os objetivos do produtor. Essa necessidade aumenta a importância da aproximação entre empresas de tecnologia, técnicos e pecuaristas.

Eventos regionais, nesse sentido, funcionam como espaços para discutir problemas encontrados dentro das propriedades e avaliar quais tecnologias podem efetivamente ser incorporadas aos diferentes sistemas produtivos.

“Estar próximo do produtor é fundamental porque tecnologia só gera valor quando responde a um problema real. Esses encontros permitem ouvir, trocar experiências e entender como cada solução pode efetivamente contribuir para o sistema produtivo”, destaca Ferreira.

A discussão também ajuda a afastar a ideia de que a irrigação, isoladamente, seja suficiente para elevar a produtividade. O resultado depende da integração entre equipamento, dimensionamento do projeto, manejo e conhecimento técnico.

Capacitação passa a fazer parte da estratégia

A discussão realizada no encontro ocorre poucas semanas depois da inauguração, também em Uberaba, do primeiro Centro de Treinamento em Irrigação do Brasil da Valley.

Instalada na Cidade do Agro, ecossistema de ensino voltado ao agronegócio da Universidade de Uberaba, a estrutura começou a operar em agosto e foi criada para ampliar a formação técnica de produtores, operadores, projetistas e outros profissionais ligados à irrigação.

A iniciativa reforça uma das mensagens apresentadas durante a palestra: o avanço da tecnologia precisa ser acompanhado pela capacitação de quem decide e opera o sistema.

“Equipamento sozinho não entrega resultado. O que transforma irrigação em produtividade é a qualidade da decisão: quando irrigar, quanto aplicar, como operar e como integrar isso ao manejo. Por isso, capacitação é parte da estratégia e não um complemento”, afirma Ferreira.

Para a pecuária, essa mudança de abordagem coloca a irrigação em um espaço mais amplo do que o simples enfrentamento da seca. Ela passa a integrar decisões sobre produção de alimento, utilização das pastagens e planejamento do sistema ao longo do ano.

Em um setor cada vez mais pressionado pela necessidade de produzir com eficiência e administrar riscos climáticos, a discussão deixa de ser apenas sobre o que fazer quando a chuva falta. Passa a ser, principalmente, quanto da produção pode ser planejado antes que ela falte.

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