Integração de dados pode fortalecer exportações brasileiras de soja e carne

Estudo do WRI Brasil aponta que a conexão entre sistemas públicos e privados pode tornar as cadeias produtivas mais transparentes e competitivas no exterior

A integração de dados pode fortalecer exportações brasileiras de soja e carne ao permitir que compradores internacionais verifiquem, com mais segurança, a origem e a regularidade socioambiental dos produtos. A conclusão faz parte de um estudo do WRI Brasil, que defende a criação de critérios compatíveis entre as diferentes ferramentas de rastreabilidade utilizadas no país.

A proposta busca organizar informações que hoje estão distribuídas entre plataformas públicas, protocolos empresariais, certificações e acordos setoriais. Com uma estrutura coordenada, o Brasil poderia reduzir acomplexidade das auditorias e apresentar evidências mais consistentes sobre suas cadeias de fornecimento.

O tema ganhou importância diante do aumento das exigências ambientais no comércio global. Países importadores, instituições financeiras e grandes empresas passaram a observar não apenas a qualidade do produto, mas também as condições em que ele foi produzido.

Rastreabilidade passa a influenciar decisões comerciais

A comprovação de origem deixou de ser apenas uma ferramenta de fiscalização. Para exportadores, ela passou a influenciar contratos, acesso a crédito, relacionamento com clientes e permanência em mercados estratégicos.

De acordo com o estudo, Brasil e China têm condições de liderar a construção de um modelo internacional voltado à soja e à carne bovina. A articulação entre os dois países teria impacto relevante porque o Brasil lidera as vendas globais dessas commodities, enquanto o mercado chinês ocupa posição central entre os destinos da produção nacional.

Em 2024, soja e carne bovina representaram aproximadamente 60% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro, conforme os dados apresentados pelo WRI Brasil.

Sistemas atuais utilizam critérios diferentes

Os pesquisadores examinaram 21 mecanismos de monitoramento aplicados às duas cadeias produtivas. A análise incluiu plataformas governamentais, compromissos voluntários, protocolos privados e programas de certificação.

O levantamento identificou diferenças na forma de avaliar o desmatamento, acompanhar fornecedores e verificar propriedades rurais. Em alguns casos, os controles consideram somente a área produtiva. Em outros, a análise abrange todo o imóvel.

Também existem divergências nas datas utilizadas como referência e nos procedimentos adotados para confirmar a regularidade ambiental. Essas variações dificultam a leitura dos dados por empresas estrangeiras e podem obrigar o exportador a apresentar verificações distintas para cada comprador.

A recomendação do WRI Brasil é estabelecer um protocolo nacional capaz de conectar essas iniciativas. A medida aproveitaria as estruturas existentes, sem depender da criação de uma nova legislação ambiental.

Integração de dados pode fortalecer exportações brasileiras de soja e carne

A interoperabilidade entre as plataformas permitiria que informações de diferentes fontes fossem consultadas de forma coordenada. Isso reduziria lacunas de monitoramento e tornaria o processo de auditoria mais objetivo.

Entre os dados que poderiam ser cruzados estão registros do Cadastro Ambiental Rural, alertas de desmatamento, embargos, infrações ambientais e documentos de movimentação animal.

O estudo cita o SeloVerde como exemplo de plataforma pública capaz de reunir diferentes informações sobre propriedades rurais. Esse tipo de estrutura pode ajudar compradores e empresas a avaliar riscos antes de realizar uma operação comercial.

Cadeia da soja pode avançar até a origem da produção

Na soja, o estudo considera possível ampliar o acompanhamento até a fazenda por meio da colaboração entre tradings, cooperativas, produtores e governos estaduais.

Uma das propostas é utilizar sistemas automáticos para interromper compras de fornecedores que apresentem irregularidades. O bloqueio seria realizado a partir do cruzamento de informações cadastrais e ambientais.

Outro ponto discutido é a abrangência da análise. A verificação de toda a propriedade rural é considerada mais completa do que a avaliação restrita ao talhão onde a soja foi cultivada, pois permite identificar problemas ambientais em outras áreas do imóvel.

Com critérios compatíveis, o mesmo conjunto de informações poderia atender compradores que priorizam grandes volumes e mercados submetidos a regras ambientais mais detalhadas.

Fornecedores indiretos concentram desafio na pecuária

Na carne bovina, a principal fragilidade está nas etapas anteriores à entrega do animal ao frigorífico. Durante a cria, recria e engorda, o gado pode passar por diferentes propriedades, o que torna mais difícil reconstruir todo o percurso.

Quando apenas o último fornecedor é verificado, animais provenientes de áreas irregulares podem chegar à indústria por meio de uma fazenda que esteja em situação regular.

Para reduzir esse risco, o estudo recomenda ampliar o aproveitamento das Guias de Trânsito Animal e avançar na identificação individual dos bovinos. Juntas, essas ferramentas podem oferecer uma visão mais precisa sobre as movimentações do rebanho.

Algumas plataformas estaduais já conseguem relacionar dados ambientais com os registros de trânsito animal. Entretanto, a adesão das empresas a esses recursos ainda precisa crescer para alcançar uma parcela maior da cadeia.

Estados podem apoiar a criação de um modelo nacional

Iniciativas desenvolvidas no Pará, em Minas Gerais e no Maranhão são apontadas como referências para uma estrutura de alcance nacional.

Esses sistemas demonstram que o poder público já possui parte da tecnologia e das informações necessárias para ampliar o monitoramento. O desafio está em estabelecer padrões comuns, regras de acesso e procedimentos de validação.

A construção desse modelo também dependerá da participação de frigoríficos, tradings, cooperativas, produtores e instituições financeiras. Sem o envolvimento dos diferentes agentes, a integração pode permanecer limitada a projetos isolados.

Cooperação com a China pode acelerar o processo

O WRI Brasil sugere que o diálogo entre Brasil e China priorize três medidas: criação de um protocolo comum, conexão entre bancos de dados e ampliação do controle socioambiental.

Um acordo entre grandes fornecedores e compradores poderia servir de referência para outros países importadores. Também ajudaria a diminuir a multiplicidade de exigências enfrentadas pelas empresas brasileiras.

Na avaliação apresentada pelo estudo, um sistema confiável de rastreabilidade pode proteger relações comerciais já estabelecidas e facilitar negociações com mercados que adotam controles mais rigorosos.

A integração não substituiria a fiscalização ou o cumprimento da legislação. Sua função seria transformar dados dispersos em informações verificáveis, capazes de demonstrar a origem da produção e aumentar a confiança no agronegócio brasileiro.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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