Indústria do RS propõe Pacto para socorrer cadeia do leite com renegociação de dívidas

Proposta apresentada ao Palácio Piratini prevê carência mínima de dois anos, prazo de até dez anos para pagamento, defesa contra importações e medidas para manter produtores na atividade e socorrer cadeia do leite

A crise enfrentada pela cadeia leiteira do Rio Grande do Sul levou a indústria a apresentar ao governo estadual um pacote de medidas que vai da renegociação das dívidas rurais à proteção da produção nacional contra importações consideradas desleais. A proposta busca dar fôlego financeiro a produtores e laticínios e criar condições para recuperar a competitividade de um dos setores mais importantes do agronegócio gaúcho.

A iniciativa partiu da Associação das Pequenas e Médias Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil/RS), que entregou ao Palácio Piratini uma proposta para criação do chamado Pacto pelo Leite Gaúcho. O documento concentra ações em quatro frentes: renegociação de dívidas, defesa da produção brasileira, permanência das famílias no campo e modernização das indústrias.

A dimensão da cadeia representada pela entidade ajuda a mostrar o peso da discussão. Segundo as informações divulgadas, a Apil reúne 43 indústrias instaladas em 41 municípios, responsáveis pela geração de aproximadamente 2 mil empregos diretos. Juntas, essas empresas captam mais de 2 milhões de litros de leite por dia em mais de 190 municípios.

Dívidas poderiam ter até dez anos para pagamento

Entre as principais propostas está a criação de um programa de securitização e refinanciamento das dívidas, desenhado para produtores e empresas que enfrentam dificuldades para reorganizar seus passivos.

A proposta prevê carência mínima de dois anos e prazo de pagamento de até dez anos, levando em consideração a capacidade de recuperação de cada atividade.

Além disso, a entidade defende linhas específicas para reestruturação de passivos e capital de giro, utilizando mecanismos como fundo garantidor, juros subsidiados e bônus de adimplência.

Na prática, a intenção é impedir que problemas financeiros acumulados comprometam a continuidade da produção e dos investimentos justamente em um período marcado por margens apertadas e oscilações do mercado.

Importações entram no centro da discussão

Outro ponto relevante do Pacto pelo Leite Gaúcho envolve a concorrência com produtos importados.

A Apil propõe a revisão das condições de importação quando houver subsídios considerados distorcivos ou prática de dumping, além da adoção de salvaguardas e outros instrumentos de defesa comercial.

O documento também sugere que produtos importados estejam submetidos a critérios de reciprocidade sanitária, regulatória, tributária e ambiental.

O tema ganhou importância para a cadeia brasileira nos últimos anos diante da preocupação de produtores e indústrias com a entrada de lácteos estrangeiros e seus efeitos sobre os preços praticados internamente.

Permanência do produtor no campo

O pacote não se limita ao endividamento. Uma das preocupações é criar condições para que produtores, especialmente pequenos e médios, permaneçam na atividade.

Entre as medidas propostas estão o fortalecimento do Bônus Mais Leite, ampliação da assistência técnica gratuita e continuada, políticas de sucessão rural, crédito diferenciado para jovens e mecanismos de seguro de renda durante períodos de crise.

A associação também defende a criação de referências de preços que considerem os custos regionais de produção.

Esse ponto é particularmente importante em uma atividade na qual alimentação do rebanho, energia, mão de obra, medicamentos, genética e investimentos em estrutura podem representar parcela significativa do custo da propriedade.

Modernização dos laticínios também está no pacote

Do lado industrial, a proposta busca criar condições para que pequenas e médias empresas consigam continuar investindo mesmo diante de períodos de menor rentabilidade.

As medidas incluem linhas de financiamento destinadas à compra de equipamentos, automação, eficiência energética, tratamento de efluentes e adequação sanitária.

Também são defendidos bônus de modernização e apoio a programas de certificação de origem e qualidade, principalmente para queijos e outros produtos lácteos regionais.

Segundo o presidente da Apil, Fernando Zimmermann, a cadeia leiteira enfrenta dificuldades que exigem ações coordenadas. Entre os desafios apontados pela entidade estão o endividamento, a concorrência externa, a saída de produtores da atividade e a dificuldade das pequenas e médias indústrias para investir e crescer em momentos de margens reduzidas.

Um pacto para tentar reorganizar a cadeia leiteira

A proposta coloca sobre a mesa uma discussão que ultrapassa o preço recebido pelo litro de leite. O objetivo é atacar simultaneamente endividamento, competitividade, sucessão rural e capacidade de investimento.

Caso as medidas avancem, o Pacto pelo Leite Gaúcho poderá representar uma tentativa de reorganização de longo prazo da cadeia no Rio Grande do Sul, conectando a sobrevivência financeira das propriedades à capacidade de processamento e modernização das indústrias.

Agora, o avanço da proposta dependerá da articulação com os governos estadual e federal, já que parte das medidas defendidas pela associação exige políticas públicas, instrumentos financeiros e ações de defesa comercial.

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