Indústria de fertilizantes pede R$ 2,9 bilhões ao BNDES e acende alerta para o agro

Empresas receberam R$ 200 milhões até o início de outubro; demanda por crédito expõe desafios da cadeia de fertilizantes enquanto o produtor acompanha custos e abastecimento da safra.

A pressão sobre o mercado de fertilizantes brasileiro vai além do preço pago pelo produtor rural. Empresas da cadeia também buscam recursos para sustentar suas atividades e investimentos: 62 companhias solicitaram R$ 2,9 bilhões em financiamentos pelo Plano Brasil Soberano 3, operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), até 1º de outubro de 2026.

Desse montante, R$ 1,7 bilhão havia sido aprovado em 65 operações, enquanto R$ 200 milhões tinham sido efetivamente desembolsados. Os números dimensionam a necessidade de financiamento de um setor estratégico para o campo, em um momento no qual a segurança de abastecimento e o custo dos insumos pesam no planejamento agrícola.

Para o produtor, a situação merece acompanhamento porque a capacidade financeira dos fornecedores influencia a aquisição de matérias-primas, a manutenção de estoques e as condições de comercialização. Em um mercado exposto ao dólar, à energia e às oscilações internacionais, dificuldades na indústria podem acrescentar pressão aos custos da safra.

Apenas 6,9% do valor solicitado havia sido desembolsado

Os dados atribuídos ao BNDES mostram a diferença entre a procura por financiamento e os recursos efetivamente liberados às empresas:

Etapa do financiamentoValor até 1º de outubro
Recursos solicitadosR$ 2,9 bilhões
Operações aprovadasR$ 1,7 bilhão
Recursos desembolsadosR$ 200 milhões

Considerando os valores arredondados, os desembolsos correspondiam a aproximadamente 6,9% do total solicitado e 11,8% do montante aprovado.

O número de operações aprovadas supera o de empresas porque uma mesma companhia pode ter mais de um financiamento.

Pedidos, aprovações e desembolsos representam etapas diferentes. Uma operação aprovada pode depender de contratação, apresentação de garantias e cumprimento das condições de liberação. Por isso, a diferença entre os valores, isoladamente, não comprova atraso irregular nem falta de fertilizantes no mercado.

Como a situação pode chegar à propriedade rural

A indústria nacional integra a segurança de abastecimento das lavouras, mesmo com a forte participação dos produtos importados. Fabricar fertilizantes no Brasil também exige acesso competitivo a matérias-primas, energia, transporte e financiamento.

O Compre Rural já mostrou como a crise dos fertilizantes afeta a relação entre comercialização e entrega, incluindo a pressão dos custos sobre fábricas de fosfatados em Minas Gerais e Goiás.

Na propriedade, dificuldades ao longo dessa cadeia podem aparecer de diferentes formas:

  • Condições de pagamento mais restritas, com menor flexibilidade para negociar;
  • Maior necessidade de planejamento, especialmente para entregas próximas ao plantio;
  • Mudanças na disponibilidade de produtos, conforme estoques e fornecedores;
  • Pressão sobre a margem, caso o custo da adubação avance mais que a receita da lavoura.

Esses efeitos não ocorrem de maneira uniforme. Dependem do nutriente, da região, dos contratos e da situação de cada fornecedor.

Também é necessário distinguir pressão financeira de desabastecimento generalizado. Conforme registrado pelo Compre Rural, o Ministério da Agricultura afirmou recentemente que o risco de desabastecimento de fertilizantes estava afastado.

Profert tenta fortalecer a produção brasileira

A busca por financiamento ocorre após a criação do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), instituído pela Lei nº 15.496, de 3 de setembro de 2026.

A legislação estabelece instrumentos para apoiar a modernização, reativação e ampliação de unidades industriais, além de pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura. Entre os objetivos estão reduzir a dependência externa, diminuir custos da cadeia agropecuária e garantir maior estabilidade de suprimento.

O alcance do programa inclui fertilizantes e matérias-primas de origem sintética, mineral e orgânica, além de remineralizadores, bioinsumos e biofertilizantes.

Como detalhado pelo Compre Rural, o Profert prevê participação mínima de fertilizante nacional, começando em 2% a partir de julho de 2027, com previsão de alcançar 10% até janeiro de 2037.

A implementação exige regulamentação e investimentos. As linhas de financiamento previstas na lei também estão condicionadas à disponibilidade orçamentária e financeira.

Os pedidos apresentados ao Brasil Soberano e os instrumentos do Profert são mecanismos distintos. Portanto, os R$ 2,9 bilhões solicitados pelas empresas não representam dinheiro já liberado pelo novo programa industrial.

Incentivos não garantem redução imediata no preço do adubo

Durante a tramitação do Profert, foram divulgadas propostas de incentivos de até R$ 10 bilhões. Em agosto, o Ministério do Planejamento informou que o desenho fiscal aprovado pelo Congresso previa limite de R$ 5 bilhões entre 2027 e 2031, equivalente a R$ 1 bilhão por ano.

Esses valores precisam ser diferenciados dos financiamentos e dos desembolsos. Benefício tributário autorizado não equivale a recurso entregue à indústria nem a desconto assegurado ao agricultor.

Para produzir efeito na propriedade, o incentivo precisa se transformar em investimento executado, capacidade industrial, oferta competitiva e produto entregue dentro do prazo.

Mesmo com o fortalecimento da fabricação brasileira, o preço continuará sujeito ao custo das matérias-primas, ao câmbio, à energia, ao frete e à concorrência.

O que o produtor deve acompanhar

Para quem produz soja, milho, café, algodão ou mantém pastagens adubadas, o principal indicador continua sendo o custo do nutriente entregue na fazenda, associado à eficiência agronômica e à receita esperada.

Nesse cenário, o planejamento deve considerar:

  • Relação de troca: quantidade de sacas ou de produto necessária para comprar o fertilizante;
  • Prazo de entrega: compatibilidade entre o contrato e a janela de aplicação;
  • Condições comerciais: juros, vencimentos, frete e garantias;
  • Recomendação técnica: adubação baseada em análise de solo e expectativa realista de produtividade.

A demanda bilionária por crédito reforça a importância de acompanhar toda a cadeia de fornecimento. Para o agro, o resultado das políticas de incentivo será medido pela capacidade de assegurar adubo disponível, preços competitivos e previsibilidade para produzir.

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