Tecnologia brasileira usa câmeras e visão computacional para identificar situações de risco dentro das maternidades suínas; startup relata redução da mortalidade pré-desmame em operação acompanhada pelo sistema
Uma câmera instalada sobre a baia acompanha cada movimento da matriz e dos leitões. Mas não se trata apenas de gravação: as imagens são interpretadas por inteligência artificial durante 24 horas por dia, em busca de comportamentos e situações que possam colocar os recém-nascidos em risco. A tecnologia foi desenvolvida pela agtech brasileira Herdian para enfrentar um dos problemas mais difíceis das maternidades suínas: a mortalidade de leitões, especialmente por esmagamento.
O sistema combina inteligência artificial e visão computacional para monitorar matrizes e leitões em tempo real. Quando identifica uma situação considerada de risco, a tecnologia pode gerar informações para que a equipe da granja concentre a atenção justamente onde existe maior necessidade de intervenção. A proposta é transformar milhares de horas de imagens em dados úteis para o manejo.
Como a inteligência artificial acompanha os leitões
As câmeras são posicionadas sobre as baias da maternidade e acompanham continuamente os animais.
O sistema aprende a reconhecer comportamentos da matriz e dos leitões e consegue acompanhar situações como movimentação da fêmea, posição dos animais e proximidade dos filhotes em relação à mãe.
Isso é particularmente importante porque um funcionário não consegue observar simultaneamente todas as matrizes durante as 24 horas do dia.
A inteligência artificial funciona, portanto, como uma camada adicional de monitoramento. O objetivo não é substituir o manejo humano, mas permitir que o tratador identifique com maior rapidez as baias que precisam de atenção.
A solução já foi apresentada pela Herdian em ambientes de inovação do agronegócio. A startup foi, inclusive, vencedora da categoria pré-seed do Agrimatching 2026.
De 13% para cerca de 3% em uma operação monitorada
Um dos resultados divulgados pela empresa chama atenção.
Segundo informações apresentadas pela startup, uma operação com aproximadamente mil matrizes e produção anual próxima de 33 mil leitões registrou redução das perdas relacionadas à mortalidade pré-desmame de cerca de 13% para aproximadamente 3% após a utilização da tecnologia.
O dado é relevante, mas precisa ser interpretado corretamente: trata-se de resultado informado pela própria startup em uma operação acompanhada, e não de uma taxa que possa ser automaticamente projetada para todas as granjas.
Estrutura da maternidade, genética, manejo, sanidade, ambiência, qualificação da equipe e características das matrizes também interferem diretamente na sobrevivência dos leitões.
Ainda assim, o resultado ajuda a mostrar o tamanho do espaço existente para tecnologias capazes de melhorar a tomada de decisão dentro das granjas.
Por que o esmagamento é tão difícil de evitar?
Os primeiros dias de vida representam uma das etapas mais delicadas da produção de suínos.
Leitões recém-nascidos são pequenos, possuem pouca reserva energética e apresentam dificuldade para regular a própria temperatura corporal. Ao mesmo tempo, permanecem próximos da matriz para mamar e buscar conforto.
É justamente nessa interação que surge o risco.
Quando a porca se deita ou muda de posição, um leitão pode ficar preso sob seu corpo antes que consiga escapar.
O desafio para o produtor é que essas situações podem acontecer rapidamente e em qualquer horário.
Por isso, monitorar continuamente o comportamento dos animais pode ajudar a identificar padrões de risco que passariam despercebidos durante uma observação convencional.
IA começa a enxergar além do esmagamento
O potencial da tecnologia não termina na sobrevivência dos leitões.
A plataforma da Herdian também avança sobre o monitoramento sanitário dos lotes, utilizando os dados coletados dentro das instalações para ampliar a capacidade de acompanhamento dos animais.
A empresa expandiu ainda a solução para silos de ração, buscando automatizar o controle de insumos nas propriedades.
É um movimento que mostra como a inteligência artificial começa a chegar à pecuária por uma rota diferente daquela normalmente associada à tecnologia.
Em vez de apenas automatizar equipamentos, algoritmos começam a interpretar o comportamento dos próprios animais.
Milhares de horas que um funcionário jamais conseguiria assistir
Esse talvez seja o principal diferencial da visão computacional.
Uma granja produz uma quantidade enorme de informações todos os dias: movimentação dos animais, períodos de descanso, alimentação, aproximação dos leitões, alterações comportamentais e inúmeras outras interações.
Até pouco tempo atrás, grande parte desses acontecimentos desaparecia no momento em que ocorria.
Com câmeras e inteligência artificial, eles podem se transformar em dados.
A Herdian informou ter utilizado mais de 6 mil imagens e aproximadamente 30 mil horas de vídeo no desenvolvimento e treinamento de sua tecnologia. O sistema analisa padrões relacionados ao comportamento das matrizes e dos leitões para auxiliar no acompanhamento das maternidades.
Tecnologia brasileira mira um problema econômico das granjas
Cada leitão perdido antes do desmame representa um animal que consumiu recursos da propriedade sem chegar às etapas seguintes da produção.
Quando essa mortalidade é reduzida, o impacto não aparece apenas no bem-estar animal. Existe reflexo direto sobre a eficiência produtiva da granja.
É justamente por isso que a chamada suinocultura de precisão começa a ganhar espaço.
Sensores, câmeras e algoritmos permitem acompanhar milhares de eventos que anteriormente dependeriam exclusivamente da presença e da percepção dos funcionários.
A tecnologia, entretanto, não elimina a importância das pessoas.
Quanto melhor o sistema identifica uma situação de risco, mais importante se torna ter uma equipe preparada para interpretar a informação e agir quando necessário.
A inteligência artificial entra como ferramenta para mostrar onde e quando a atenção humana pode fazer maior diferença.
E dentro de uma maternidade suína, onde poucos segundos podem separar um comportamento normal de um leitão esmagado pela própria mãe, essa capacidade de enxergar continuamente o que acontece nas baias pode transformar tecnologia em animais efetivamente salvos.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.