Conhecida como Jallikattu, disputa realizada em Tamil Nadu durante o festival da colheita coloca homens diante de touros de raças nativas, movimenta multidões e premiações e sobreviveu a proibições, protestos e batalhas na Suprema Corte.
Um touro zebuíno é liberado por uma estreita passagem em direção à arena. Do outro lado, dezenas de homens aguardam sua chegada. Quando o animal avança, os competidores tentam se agarrar à sua corcova e permanecer junto dele enquanto o bovino busca escapar. Não há espada, e o objetivo da competição não é matar o touro.
A cena faz parte do Jallikattu, uma das tradições rurais mais impressionantes — e controversas — da Índia.
Praticado principalmente no estado de Tamil Nadu, no sul do país, o Jallikattu está intimamente relacionado às comemorações do Pongal, festival da colheita celebrado em janeiro. A tradição atravessou séculos, mobilizou multidões em sua defesa e chegou ao mais alto tribunal indiano depois de questionamentos relacionados ao bem-estar dos animais.
Por trás do espetáculo existe ainda uma história diretamente ligada à pecuária. Touros de raças bovinas nativas são protagonistas das disputas, e características como força, agilidade, rusticidade e temperamento podem transformar determinados exemplares em animais altamente prestigiados em suas comunidades.
Entre os bovinos associados à cultura pecuária de Tamil Nadu estão justamente raças zebuínas como Kangayam e Pulikulam.
O que é o Jallikattu?
Embora seja frequentemente apresentado fora da Índia como uma espécie de “tourada indiana”, a comparação não explica corretamente a modalidade.
No Jallikattu tradicional, o touro não é colocado na arena para ser morto.
A Suprema Corte da Índia descreveu a essência da disputa em uma importante decisão de 2023: um touro é solto na arena e os participantes humanos devem agarrar sua corcova para marcar pontos na competição.
Dependendo das regras adotadas, o competidor precisa permanecer agarrado ao animal durante determinado percurso ou cumprir condições estabelecidas pela organização.
A entrada do touro ocorre tradicionalmente através do vaadi vaasal, passagem que se transforma em um dos pontos mais tensos do evento.
Assim que o portão se abre, o animal dispara.
É então que começa o desafio.

O nome remete a moedas amarradas ao touro
A própria origem da palavra ajuda a compreender a tradição.
Uma das explicações mais difundidas relaciona Jallikattu — ou Sallikattu — às palavras tâmeis salli, associada a moedas, e kattu, relacionada a amarrar ou formar um pacote.
Historicamente, moedas eram colocadas junto aos chifres do touro e funcionavam como prêmio.
Outra denominação antiga associada à prática é Eru Thazhuvuthal, expressão geralmente traduzida como algo próximo de “abraçar o touro”.
Com o passar do tempo, entretanto, a competição ganhou novas regras, estruturas de segurança e premiações muito diferentes das antigas moedas.
Carros, tratores e dinheiro estão entre os prêmios
O tamanho alcançado pelos eventos modernos ajuda a mostrar que o Jallikattu permanece longe de ser apenas uma pequena celebração folclórica.
Entre os locais mais famosos estão Avaniyapuram, Palamedu e Alanganallur, na região de Madurai.
Nas grandes competições, centenas de touros podem ser inscritos.
Em 2026, por exemplo, as três grandes disputas de Madurai foram programadas para ocorrer entre 15 e 17 de janeiro, com estruturas específicas de segurança, ambulâncias e equipes médicas.

As premiações também chamam atenção.
Automóveis, tratores, bicicletas, moedas de ouro e dinheiro estão entre os prêmios oferecidos em diferentes competições. Em determinados eventos, há reconhecimento tanto para os competidores humanos quanto para os proprietários dos touros de melhor desempenho.
Essa valorização cria uma característica bastante particular: o touro também pode sair do evento como vencedor.
O touro não é apenas adversário
Esse é provavelmente um dos aspectos mais interessantes para quem acompanha pecuária.
Dentro da cultura ligada ao Jallikattu, determinados touros são motivo de orgulho para seus proprietários e comunidades.
Um animal capaz de atravessar a arena sem permitir que os competidores cumpram o desafio pode conquistar prestígio.
E isso tem reflexos na criação.
Touros reconhecidos pela força, resistência, agilidade e desempenho podem ganhar valor como reprodutores, contribuindo para a continuidade de linhagens bovinas locais.
É justamente nesse ponto que defensores do Jallikattu relacionam a tradição à preservação das raças nativas de Tamil Nadu.
A relação, entretanto, é complexa e não significa que a sobrevivência dessas populações dependa exclusivamente da competição. Programas de conservação genética, seleção pecuária e políticas públicas também desempenham papel fundamental na manutenção desses animais.
Kangayam e Pulikulam fazem parte dessa história
Tamil Nadu abriga algumas raças bovinas extremamente adaptadas às condições locais.
O Kangayam, conhecido no Brasil como Cangaian, é uma delas.
Trata-se de um zebu desenvolvido durante gerações em condições ambientais difíceis, conhecido por rusticidade, resistência e capacidade de trabalho.
Outra raça possui ligação ainda mais estreita com as competições: a Pulikulam.
Esses bovinos representam algo que vai além da produtividade convencional. Enquanto a pecuária comercial moderna normalmente mede desempenho em ganho de peso, fertilidade, produção de leite ou rendimento de carcaça, naquele contexto rural características como agilidade, resistência e comportamento também ganharam valor cultural.
Essa diferença ajuda inclusive a compreender por que determinadas raças permaneceram importantes em suas regiões de origem mesmo sem alcançar a especialização produtiva observada em outras populações bovinas.
A tradição chegou a ser barrada pela Suprema Corte
Toda essa importância cultural não eliminou uma enorme controvérsia.
Organizações de defesa dos animais passaram a questionar práticas relacionadas ao Jallikattu, alegando sofrimento e maus-tratos aos bovinos.
A disputa chegou à Suprema Corte da Índia.
Em 2014, uma decisão da Corte tornou-se um marco contra a realização da atividade diante das questões relacionadas à crueldade contra os animais.
A reação em Tamil Nadu foi gigantesca.
Manifestações em defesa do Jallikattu mobilizaram milhares de pessoas, especialmente em 2017. Para muitos habitantes do estado, impedir a competição significava atacar uma tradição profundamente ligada à identidade tamil e à vida rural.
Tamil Nadu promoveu então mudanças em sua legislação para permitir novamente a realização da modalidade sob regulamentação.
A questão acabou voltando à Suprema Corte.

Suprema Corte manteve a legislação em 2023
Em 18 de maio de 2023, cinco ministros da Suprema Corte indiana analisaram a legislação que permitia a continuidade do Jallikattu em Tamil Nadu.
A decisão foi favorável à validade da mudança legislativa.
Segundo a Corte, quando aplicadas as alterações legais, regras e notificações correspondentes, as medidas buscavam minimizar a crueldade relacionada à atividade.
O tribunal também registrou algo importante para dimensionar a antiguidade da tradição: há evidências de que o Jallikattu é praticado em Tamil Nadu há pelo menos alguns séculos.
A Corte, entretanto, evitou determinar juridicamente que a atividade seria necessariamente uma parte integral da cultura tamil, entendendo que essa questão demandaria uma análise cultural e social mais ampla.
Assim, o Jallikattu continuou sendo realizado.
Segurança virou parte fundamental dos eventos
O risco, porém, permanece.
Touros com centenas de quilos avançando em velocidade contra grupos de participantes tornam os acidentes uma preocupação constante.
Competidores, proprietários e até espectadores podem ser atingidos.
Por isso, grandes competições atualmente contam com barreiras, ambulâncias, equipes médicas, veterinários, controle de participantes e estruturas específicas para o público.
Em janeiro de 2026, por exemplo, a preparação para as grandes competições de Madurai incluiu ambulâncias, acampamentos médicos e reforço das equipes hospitalares.
Ainda assim, acidentes graves continuam ocorrendo.
Em fevereiro de 2026, um competidor de 24 anos morreu após ser atingido durante um Jallikattu realizado no distrito de Dindigul. Outras nove pessoas ficaram feridas naquele evento, que reuniu aproximadamente 800 touros e 400 competidores, segundo informações divulgadas pela imprensa indiana.
O episódio evidencia por que a modalidade continua sendo objeto de debate mesmo depois das mudanças regulatórias.

Tradição para uns, problema de bem-estar para outros
Poucas manifestações rurais indianas provocam posições tão distintas.
Para seus defensores, o Jallikattu representa patrimônio cultural, identidade tamil, tradição das comunidades rurais e valorização dos bovinos nativos.
Para organizações de proteção animal, o fato de a atividade ser tradicional não elimina os questionamentos relacionados ao estresse e ao tratamento dispensado aos animais.
Também existe a questão humana.
Ferimentos graves e mortes registrados ao longo dos anos demonstram que o risco não se limita aos bovinos.
É justamente essa combinação de cultura, pecuária, religião, identidade regional, esporte e bem-estar animal que transformou o Jallikattu em uma discussão nacional na Índia.
Uma tradição rural que atravessou séculos
Para quem observa de fora, as imagens podem parecer apenas uma disputa entre homens e touros.
Dentro de Tamil Nadu, o significado é muito maior.
O Jallikattu nasceu em uma sociedade na qual o bovino ocupava posição central na agricultura, no transporte, na reprodução dos rebanhos e na própria organização da vida rural. Mesmo depois da mecanização e da transformação da pecuária, parte dessa relação permaneceu viva.
Os tratores substituíram muitos bois de trabalho. A genética moderna transformou os critérios de seleção. A Índia também passou por profundas mudanças econômicas.
Ainda assim, quando chega o período do Pongal, centenas de touros continuam sendo preparados para atravessar o vaadi vaasal diante de multidões.
Depois de proibições, protestos, mudanças legislativas e batalhas na Suprema Corte, o Jallikattu permanece vivo.
Para seus defensores, representa a preservação de uma tradição ancestral e das raças bovinas locais. Para seus críticos, continua levantando questões difíceis sobre os limites entre cultura e bem-estar animal.
E talvez seja justamente essa tensão que explique por que, séculos depois de seus primeiros registros, homens e touros ainda entram na arena em Tamil Nadu — diante dos olhos de uma Índia dividida entre preservar a tradição e discutir até onde ela pode chegar.
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