Com soja e milho em Vichada, grupo brasileiro pretende ampliar a operação em dez anos; correção do solo, infraestrutura e segurança jurídica serão decisivas para o projeto
A experiência que ajudou a transformar solos de baixa fertilidade de Mato Grosso em lavouras produtivas orienta uma nova aposta da família Scheffer fora do Brasil. Com uma operação de aproximadamente 6 mil hectares de soja e milho em Vichada, no leste da Colômbia, o grupo pretende alcançar 100 mil hectares cultivados no país em dez anos.
A meta representa uma operação cerca de 16 vezes maior que a área atualmente informada. O projeto está inserido em uma discussão mais ampla sobre o desenvolvimento agrícola da Orinoquia, região de savanas que desperta interesse pela possibilidade de ampliar a produção colombiana de grãos. Para chegar à escala desejada, porém, será necessário combinar tecnologia agronômica com investimentos em logística, estrutura operacional e segurança sobre o uso da terra.
Experiência brasileira orienta a expansão
A Scheffer iniciou suas operações agrícolas na Colômbia em 2020, conforme o histórico institucional da companhia. A empresa está presente em Cumaribo–El Viento, no departamento de Vichada, próximo à fronteira com a Venezuela.
A intenção é aplicar conhecimentos acumulados ao longo de quatro décadas de atividade no Brasil, adaptando o manejo às condições colombianas.
“O que a Scheffer fez no Brasil, queremos fazer lá também”, afirmou Guilherme Scheffer, diretor financeiro e comercial do grupo, em entrevista ao AgFeed.
A trajetória começou em 1986, com 400 hectares de soja. Atualmente, a companhia informa mais de 230 mil hectares cultivados em duas safras, distribuídos entre Mato Grosso e Maranhão. Esse indicador considera os cultivos das duas temporadas e não corresponde, necessariamente, à extensão física das propriedades.
Como já mostrou o Compre Rural, a empresa também vem incorporando práticas de agricultura regenerativa à produção em larga escala, com atenção à saúde do solo e à diversificação do manejo.
Solo tem limitações conhecidas pelos brasileiros
A comparação com Mato Grosso tem uma base agronômica. Pesquisas da Agrosavia, instituição colombiana de pesquisa agropecuária, apontam que os solos da Altillanura apresentam limitações como acidez elevada, baixa disponibilidade de nutrientes e toxicidade por alumínio, que pode restringir o crescimento das raízes.
São desafios familiares aos produtores do Cerrado brasileiro. Entretanto, transformar esse potencial em produtividade exige diagnóstico e manejo adaptado: correção da acidez, adubação orientada por análises, escolha de cultivares e conservação das características físicas e biológicas do solo.
O conhecimento brasileiro oferece um ponto de partida, mas precisa ser ajustado ao ambiente colombiano. A própria pesquisa local já trabalha com materiais de milho adaptados aos solos ácidos da região.
Para o produtor, a questão econômica é central: além de obter boas colheitas, será preciso diluir os custos de implantação e construir fertilidade sem comprometer a capacidade produtiva das áreas ao longo dos anos.
Estradas e segurança da terra condicionam o crescimento
A expansão depende também da estrutura disponível fora das lavouras. Segundo o relato de Guilherme Scheffer, a operação enfrenta dificuldades relacionadas a estradas, assistência técnica e disponibilidade de mão de obra qualificada.
Isso significa que o crescimento precisa ser acompanhado pela organização de fornecedores, manutenção de máquinas, armazenagem e transporte. O custo para produzir e entregar os grãos ao comprador será tão relevante quanto o potencial de rendimento por hectare.
Outro ponto decisivo é a segurança jurídica da terra, citada nas discussões sobre investimentos na Orinoquia. A definição das condições de uso e dos direitos sobre as áreas influencia decisões que exigem capital e retorno de longo prazo.
Colômbia discute sua própria fronteira de grãos
O projeto ganhou visibilidade com o interesse do novo governo colombiano em estimular a produção agropecuária na região. Abelardo de la Espriella visitou a operação dos Scheffer no fim de julho, antes de assumir a Presidência.
Uma proposta apresentada à equipe do governo discute o desenvolvimento da produção de soja e milho na Orinoquia em um horizonte de 20 anos, buscando substituir parte das importações colombianas.
Essa proposta regional e a meta de 100 mil hectares da Scheffer são iniciativas distintas. O objetivo empresarial permanece como um plano de expansão, cuja execução dependerá das condições agronômicas, econômicas e institucionais.
Para o agronegócio brasileiro, a aposta evidencia o valor do conhecimento desenvolvido na agricultura tropical. Na Colômbia, o desafio da família Scheffer será transformar essa experiência em uma operação competitiva, capaz de crescer com produtividade, conservação do solo e estrutura para atender ao mercado.
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