Valorização do herbicida no mercado chinês reflete aumento dos custos industriais e maior demanda internacional; movimento preocupa produtores brasileiros durante a safra 2026/27.
O mercado internacional de defensivos agrícolas voltou a emitir um sinal de alerta para o agronegócio brasileiro. O preço do glifosato na China acumulou uma alta de aproximadamente 14% em pouco mais de um mês, impulsionado pelo encarecimento de matérias-primas e pela demanda internacional. O movimento ocorre em um momento estratégico para o Brasil, que avança no plantio da safra 2026/27 e mantém elevada a necessidade de herbicidas nas lavouras.
A preocupação está relacionada principalmente à dependência brasileira do fornecimento chinês. Como a China concentra grande parte da fabricação mundial de glifosato, mudanças nos custos industriais do país podem influenciar as condições comerciais de importadores e fabricantes brasileiros. Isso não significa, entretanto, que o aumento de 14% será automaticamente repassado aos produtores, já que estoques, contratos antecipados, câmbio e custos logísticos também interferem na formação dos preços.
Dados da plataforma financeira chinesa Choice, divulgados pelo Shanghai Securities News, mostram que o preço do glifosato passou de 25.400 yuans por tonelada, em 11 de setembro, para 29 mil yuans em 16 de outubro, valorização de aproximadamente 14,2%.
Apesar da recuperação recente, os preços ainda permanecem abaixo do pico de aproximadamente 35 mil yuans registrado em abril de 2026.
A principal explicação está no aumento dos custos de fabricação. Entre julho e outubro, o fósforo amarelo, importante matéria-prima utilizada na cadeia produtiva, avançou de 26.700 para 28.750 yuans por tonelada. Já o metanol apresentou uma valorização próxima de 54% entre agosto e outubro, passando de 2.580 para 3.970 yuans por tonelada.
O encarecimento desses insumos pressiona as margens das indústrias chinesas e reduz o espaço para negociações com descontos, especialmente diante da recuperação das encomendas internacionais.
Dependência da China aumenta preocupação no Brasil
A China responde por aproximadamente 69% da capacidade mundial de fabricação de glifosato, considerando estimativas setoriais referentes a 2025. Sua capacidade instalada alcançava cerca de 810 mil toneladas anuais, dentro de um mercado global estimado em 1,18 milhão de toneladas.
Essa concentração torna países importadores, como o Brasil, particularmente sensíveis às oscilações da indústria química chinesa.
Dados apresentados em documento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil importou, em 2023, aproximadamente 50,6 mil toneladas de glifosato técnico e 96,8 mil toneladas do produto formulado. Naquele ano, a China respondeu por 98,5% das importações brasileiras de glifosato formulado, segundo informações apresentadas pela empresa Tecnomyl.
A importância econômica do herbicida também aparece nas estatísticas nacionais. Segundo o Ibama, o glifosato e seus sais lideraram a comercialização de ingredientes ativos de agrotóxicos no Brasil em 2024, com 231,9 mil toneladas.
Safra 2026/27 pode sentir reflexos nos custos
A valorização internacional ocorre justamente quando o Brasil amplia sua produção agrícola. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 367,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2026/27, com aproximadamente 49,3 milhões de hectares destinados à soja.
O glifosato desempenha papel importante na dessecação pré-plantio e no controle de plantas daninhas, conforme as recomendações e os registros de cada produto. Por isso, aumentos persistentes no custo do herbicida podem representar despesas adicionais para propriedades que utilizam grandes volumes.
O impacto, entretanto, dependerá do momento das compras.
Produtores e distribuidores que anteciparam negociações podem estar parcialmente protegidos das oscilações recentes. Já operações de reposição de estoques e aquisições futuras poderão enfrentar preços menos favoráveis caso a valorização internacional persista.
Para dimensionar essa possibilidade, uma propriedade de mil hectares que gaste R$ 70 por hectare com produtos à base de glifosato teria uma despesa de R$ 70 mil. Um reajuste hipotético de 10% no preço final elevaria esse custo em R$ 7 mil, mantidas as mesmas condições de aplicação.
O exemplo não representa uma previsão de aumento no mercado brasileiro, mas demonstra como pequenas variações podem afetar a rentabilidade das operações agrícolas.
Mercado pode continuar pressionado até 2027
Analistas da consultoria chinesa Zhuochuang Information trabalham com a possibilidade de o glifosato oscilar entre 28 mil e 33 mil yuans por tonelada entre o último trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027.
A tendência dependerá principalmente do comportamento das matérias-primas, da demanda internacional e da capacidade produtiva chinesa.
No Brasil, o câmbio também será determinante. Uma valorização do dólar frente ao real pode ampliar os custos de importação, mesmo que o preço do herbicida permaneça estável na China.
Diante desse cenário, especialistas recomendam atenção ao planejamento de compras e à eficiência do manejo, evitando decisões precipitadas. Comparar propostas comerciais, considerar as concentrações dos produtos e seguir recomendações agronômicas são medidas importantes para preservar os resultados da lavoura.
A alta do glifosato ainda não representa uma disparada generalizada dos defensivos no Brasil, mas acende um alerta para a formação dos custos agrícolas nos próximos meses. Em uma safra de produção recorde, acompanhar o mercado internacional e negociar estrategicamente os insumos pode fazer diferença na margem financeira do produtor.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.