Complexo de Serra do Salitre transforma rocha brasileira em fosfatados, mas crise do enxofre mostra que reduzir a dependência externa exige garantir toda a cadeia de matérias-primas
A comparação entre as imagens registradas em 2013 e 2025 revela uma das maiores transformações industriais recentes do interior de Minas Gerais. Em Serra do Salitre, no Alto Paranaíba, uma extensa área de características predominantemente rurais deu lugar a um complexo integrado de mineração, beneficiamento e produção de fertilizantes.
Do alto, a escala impressiona. Cavas de mineração, plantas químicas, reservatórios, estruturas de processamento, vias internas e áreas de armazenamento passaram a ocupar uma paisagem que, pouco mais de uma década antes, era marcada principalmente pela atividade rural.
Inaugurado oficialmente em março de 2024, o Complexo Mineroindustrial de Serra do Salitre recebeu investimentos próximos de US$ 1 bilhão. A unidade foi projetada para produzir aproximadamente 1 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados por ano, volume estratégico para um país que está entre os maiores consumidores mundiais de adubos e ainda importa mais de 80% do que utiliza.
A dimensão do empreendimento, entretanto, não elimina todos os riscos externos. Uma crise global no fornecimento de enxofre passou a ameaçar o ritmo da operação em 2026 e expôs um ponto fundamental: não basta possuir a jazida e extrair a rocha fosfática. Para produzir fertilizantes acabados no Brasil, também é necessário garantir o abastecimento dos insumos químicos utilizados na transformação industrial.
Da mina ao fertilizante dentro da mesma operação
O principal diferencial de Serra do Salitre está na verticalização da cadeia. O processo começa na extração da rocha fosfática em uma mina a céu aberto, passa pelo beneficiamento do minério e avança até a produção dos ácidos e dos fertilizantes acabados.
Segundo a EuroChem, responsável pelo empreendimento, o complexo possui capacidade para produzir anualmente cerca de 1,2 milhão de toneladas de concentrado fosfático, 1 milhão de toneladas de ácido sulfúrico, 250 mil toneladas de ácido fosfórico e aproximadamente 1 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados.
Entre os produtos fabricados estão o superfosfato simples, conhecido como SSP; o superfosfato triplo, o TSP; e o fosfato monoamônico, o MAP. Esses fertilizantes abastecem principalmente culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão.
O fósforo é um dos três macronutrientes primários da agricultura, ao lado do nitrogênio e do potássio. Ele participa da formação das raízes, da transferência de energia, do florescimento e do enchimento dos grãos.
Sua utilização é especialmente importante nos solos tropicais brasileiros. Neles, uma parcela do fósforo aplicado pode ficar retida em componentes minerais do solo, tornando-se menos disponível às plantas. Por isso, a correção da fertilidade e a adubação fosfatada estão entre as bases técnicas da produtividade agrícola no Cerrado.
Por que a verticalização é tão importante?
Em uma operação não integrada, a rocha fosfática pode ser extraída em uma região, beneficiada em outra e enviada para unidades químicas localizadas a centenas de quilômetros. Em Serra do Salitre, várias dessas etapas estão concentradas dentro do mesmo empreendimento.
Essa configuração reduz movimentações intermediárias, permite maior controle sobre a qualidade da matéria-prima e aproxima a fabricação do produto final das grandes áreas agrícolas do Centro-Sul e do Centro-Oeste.
A localização no Alto Paranaíba favorece o atendimento a Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Esses Estados concentram uma parcela relevante da produção brasileira de soja, milho, cana, café e algodão.
O ganho logístico é importante porque o fertilizante possui grande peso e, muitas vezes, baixo valor relativo por tonelada quando comparado a produtos industriais mais elaborados. Isso faz com que o custo do frete tenha participação expressiva no preço entregue ao produtor.
No modelo de importação, o produto desembarca principalmente em portos como Paranaguá, Santos, Rio Grande e Itaqui. Depois disso, precisa percorrer longas distâncias até chegar às propriedades rurais do interior.
Produzir em Minas Gerais não elimina o transporte rodoviário nem substitui totalmente os portos, mas cria uma rota doméstica adicional e aproxima parte da oferta de alguns dos principais polos consumidores.
Tecnologia reaproveita água e energia
O projeto também incorporou tecnologias voltadas ao uso de água e energia. De acordo com a EuroChem, o complexo trabalha com circuito fechado de água, permitindo a reutilização do recurso dentro da operação industrial.
Na planta de ácido sulfúrico, o calor gerado durante o processo é aproveitado na produção de vapor. Essa energia recuperada pode atender até 40% das necessidades energéticas do complexo, segundo a companhia.
A unidade possui uma mina de fosfato com mais de 350 milhões de toneladas de reservas minerais e vida útil estimada em cerca de 25 anos. Quando anunciado, o projeto previa aproximadamente 1.500 trabalhadores diretos e indiretos em suas diferentes etapas.
Em 2026, a planta mineira contava com cerca de 1.100 empregados, segundo informações publicadas pelo Diário do Comércio. A diferença está relacionada, entre outros fatores, à conclusão das obras e à atual etapa de escalonamento da produção, conhecida no setor industrial como ramp-up.
Nessa fase, equipamentos, processos e equipes são ajustados gradualmente até que a planta consiga operar com estabilidade e se aproximar de sua capacidade instalada.
Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que consome
O Complexo de Serra do Salitre ganhou relevância porque o Brasil construiu uma das maiores agriculturas do mundo sem desenvolver, na mesma proporção, uma indústria doméstica de fertilizantes.
O país responde por aproximadamente 8% do consumo mundial desses insumos. Mais de 80% da demanda brasileira é atendida por importações, conforme dados do Plano Nacional de Fertilizantes citados pelo Banco Central.
Em 2025, as compras externas de fertilizantes movimentaram US$ 15,5 bilhões, equivalentes a aproximadamente 5% de tudo o que o Brasil importou no ano.
Essa dependência varia conforme o nutriente. Ela é especialmente elevada nos fertilizantes potássicos e nitrogenados. Nos fosfatados, o Brasil possui uma base industrial e mineral mais desenvolvida, mas ainda necessita importar volumes expressivos.
Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que a produção brasileira de concentrado de fosfato alcançou pouco mais de 7 milhões de toneladas em 2024. No mesmo ano, as importações relacionadas ao fosfato chegaram a aproximadamente 15 milhões de toneladas e movimentaram US$ 5,9 bilhões.
Quem mais vende fertilizantes ao Brasil?
Considerando os valores importados em 2025, a Rússia permaneceu como a principal fornecedora de fertilizantes ao Brasil, respondendo por 25,9% das compras externas. A China apareceu em seguida, com 18,8%.
Depois dos dois países, o Oriente Médio respondeu por 14,5% do valor importado. Canadá e Marrocos também figuraram entre os fornecedores mais relevantes.
A importância de cada origem, porém, muda conforme o nutriente:
- A Rússia fornece fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfatados;
- A China possui forte presença em produtos nitrogenados e formulações diversas;
- O Canadá é um dos principais fornecedores mundiais de cloreto de potássio;
- Marrocos ocupa posição estratégica nos fosfatados;
- Países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Catar, Omã e Irã, possuem peso relevante nos nitrogenados e em alguns fosfatados;
- Egito, Israel e Estados Unidos também aparecem em segmentos específicos do mercado.
Quando o recorte considera somente os produtos relacionados ao fosfato, a concentração também é elevada. Em 2024, as principais origens das importações brasileiras foram Rússia, com US$ 1,6 bilhão; Marrocos, com US$ 1,2 bilhão; e China, com US$ 980,4 milhões.
O MAP comprado pelo Brasil vem principalmente da Rússia, de Marrocos e da Arábia Saudita. O TSP possui forte participação marroquina e chinesa, enquanto o Egito se destaca no fornecimento de SSP.
Crise do enxofre ameaça produção em Minas Gerais
Mesmo tendo acesso ao fosfato brasileiro, o Complexo de Serra do Salitre ainda depende do abastecimento de outras matérias-primas. O caso mais recente envolve o enxofre, elemento utilizado na fabricação do ácido sulfúrico.
O ácido sulfúrico reage com a rocha fosfática no processo industrial. Sem ele, a indústria não consegue transformar adequadamente o mineral em fertilizantes fosfatados solúveis e disponíveis para as plantas.
Em julho de 2026, o Diário do Comércio revelou que a EuroChem avaliava reduzir parte das atividades em Serra do Salitre a partir de setembro devido à escassez e à forte elevação do preço do enxofre no mercado internacional.
Segundo fontes ouvidas pelo jornal, a companhia teria apresentado ao Sindicato Metabase, em Patrocínio, a possibilidade de recorrer ao regime de layoff, com suspensão temporária dos contratos de aproximadamente 600 trabalhadores por três meses.
A reportagem também informou que os estoques de enxofre seriam suficientes para manter a operação normal somente até setembro. Diante do quadro, a companhia teria buscado o governo federal para discutir apoio à aquisição do insumo.
A EuroChem afirmou ao jornal que nenhuma decisão havia sido tomada. A empresa confirmou, entretanto, que a escassez global e a alta dos preços do enxofre afetavam toda a cadeia brasileira de fertilizantes e informou que buscava alternativas com entidades do setor, fornecedores e o governo.
“Cada definição será comunicada primeiro aos empregados”, informou a companhia, ao reiterar que o investimento em Serra do Salitre estava mantido e que os cenários analisados partiam da preservação da operação, do atendimento ao mercado e dos empregos.
Até o início de setembro, não havia sido localizada uma atualização pública conclusiva sobre a adoção efetiva do layoff. Portanto, a eventual suspensão dos contratos e a redução da produção devem ser tratadas como possibilidades avaliadas pela empresa, e não como medidas confirmadas.
Enxofre revela uma dependência escondida
O episódio ajuda a explicar por que a independência na produção de fertilizantes não depende apenas da abertura de minas.
O Brasil pode possuir a rocha fosfática, a planta de beneficiamento e a unidade de granulação, mas a cadeia continuará vulnerável se os reagentes químicos necessários ao processo vierem majoritariamente do exterior.
Grande parte do enxofre comercializado mundialmente é obtida como subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás natural. Por isso, sua oferta pode ser afetada por interrupções em refinarias, conflitos em regiões produtoras, mudanças nas rotas marítimas e oscilações no mercado energético.
Na prática, Serra do Salitre produz fertilizante com minério brasileiro, mas ainda precisa assegurar o fornecimento de insumos complementares para manter a planta química em funcionamento.
Essa é uma diferença importante entre produzir a matéria-prima mineral e dominar toda a cadeia industrial. A segurança do abastecimento depende da disponibilidade do fosfato, do enxofre, da amônia, do gás natural, da energia, da logística e da estrutura de armazenamento.
Produção nacional não significa autossuficiência imediata
A capacidade de produzir 1 milhão de toneladas de fosfatados por ano representa um avanço expressivo, mas não torna o Brasil autossuficiente.
A demanda nacional é muito superior à produção de uma única unidade. Além disso, o agronegócio utiliza diferentes fontes de nutrientes, com características agronômicas e industriais específicas.
O país ainda enfrenta obstáculos como tributação, custo de capital, infraestrutura, licenciamento, preço do gás natural e concorrência com grandes produtores internacionais que possuem jazidas de maior teor ou vantagens energéticas.
Os empreendimentos de mineração também exigem longos períodos de maturação. Segundo o Ministério da Agricultura, projetos de fosfato podem levar entre seis e dez anos até o início da produção, considerando pesquisa geológica, licenciamento ambiental, implantação da mina e construção das unidades industriais.
Por isso, o objetivo mais realista não é interromper as importações, mas construir uma matriz de abastecimento mais equilibrada. A produção nacional deve funcionar como complemento estratégico ao comércio exterior, reduzindo riscos e oferecendo alternativas em momentos de crise.
Investimento estratégico precisa de uma cadeia completa
Serra do Salitre mostra simultaneamente o potencial e os desafios da indústria brasileira de fertilizantes.
De um lado, o complexo comprova que o Brasil possui reservas, mercado consumidor, capacidade técnica e escala agrícola para sustentar projetos de grande porte. A operação integrada agrega valor ao minério brasileiro, gera empregos, movimenta a economia regional e aproxima o fertilizante das lavouras.
De outro, a crise do enxofre demonstra que investimentos bilionários continuam expostos quando elos essenciais da cadeia dependem de fornecedores externos.
Essa constatação não diminui a importância do empreendimento. Ao contrário, reforça a necessidade de uma política industrial capaz de olhar para o sistema completo, da mineração aos reagentes químicos, passando por energia, transporte e armazenagem.
A expansão da oferta doméstica também precisa ser acompanhada por investimentos em eficiência agronômica, recuperação de nutrientes, bioinsumos, remineralizadores e tecnologias que aumentem o aproveitamento do fósforo pelas plantas.

Uma transformação visível do espaço
As imagens de Serra do Salitre entre 2013 e 2025 sintetizam a dimensão física da transformação. Onde havia uma extensa área rural, surgiu uma cadeia industrial capaz de retirar fosfato do subsolo, beneficiar o minério e transformá-lo em fertilizante para algumas das principais culturas brasileiras.
A mudança territorial é gigantesca, mas o maior impacto está na função estratégica do complexo. Em um país dependente de importações, cada tonelada produzida internamente reduz parte da exposição ao dólar, ao frete marítimo, às tensões diplomáticas e às interrupções no comércio internacional.
O episódio do enxofre acrescenta uma advertência. Segurança de abastecimento não se resume a possuir uma mina. É preciso assegurar todas as matérias-primas necessárias para que o minério chegue ao produtor na forma de fertilizante.
Serra do Salitre representa um dos passos mais relevantes dados pelo Brasil nessa direção. Mas também mostra que a verdadeira redução da dependência externa somente ocorrerá quando o país conseguir fortalecer toda a cadeia de insumos — da rocha fosfática ao produto final entregue na lavoura.
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