Gigante de alimentos usa contratos a termo para reduzir exposição a possíveis altas de preços e problemas de oferta de grãos na safra 2026/27
A MBRF já começou a se proteger dos possíveis efeitos do El Niño sobre o mercado de soja e milho antes mesmo da próxima safra ganhar forma. A companhia, uma das maiores produtoras de aves e suínos do mundo e grande consumidora de grãos para fabricação de ração, está utilizando contratos a termo para antecipar parte de suas compras futuras e reduzir a exposição à volatilidade dos preços.
A estratégia ganha importância porque soja e milho representam insumos essenciais para a produção de proteínas animais. Qualquer alteração relevante no clima capaz de reduzir produtividade, atrasar plantio ou comprometer a oferta pode rapidamente pressionar os custos das indústrias de alimentos.
Em vez de esperar o impacto chegar ao mercado físico, a empresa busca travar previamente determinadas condições comerciais e aumentar a previsibilidade sobre parte das despesas futuras.
MBRF usa contratos a termo antes da safra
A estratégia foi detalhada pelo vice-presidente de Finanças e Relações com Investidores da MBRF, José Ignácio Scoseria Rey, durante a apresentação dos resultados da companhia.
Segundo o executivo, a empresa está realizando operações antecipadas por meio de contratos a termo para reduzir riscos nas compras de grãos.
Isso não significa necessariamente receber soja ou milho imediatamente.
Nesse tipo de operação, comprador e vendedor estabelecem antecipadamente condições para uma negociação futura, o que permite à empresa reduzir a exposição a mudanças bruscas de preço ao longo dos próximos meses.
Para uma companhia que compra grandes volumes de matérias-primas agrícolas, esse tipo de previsibilidade pode fazer diferença relevante na formação dos custos.
El Niño aumenta incerteza sobre soja e milho
A preocupação está ligada principalmente à safra brasileira de 2026/27.
O fortalecimento do El Niño tende a modificar os padrões de chuva em importantes regiões agrícolas da América do Sul.
Historicamente, episódios do fenômeno estão associados a maior umidade no Sul do Brasil e maior risco de irregularidade das precipitações em partes das regiões Central, Norte e Nordeste.
Para soja e milho, o momento de início das chuvas é particularmente importante.
Caso a umidade demore a se estabelecer em áreas produtoras do Centro-Oeste, o plantio da soja pode sofrer atrasos. Esse movimento, por consequência, reduz a janela disponível para o milho de segunda safra.
Esse encadeamento climático ajuda a explicar por que empresas consumidoras de grãos começam a agir meses antes de eventuais problemas aparecerem na produção.
Ração coloca MBRF no centro do mercado de grãos
A relação entre uma companhia de carnes e o preço das commodities agrícolas é direta.
Frangos e suínos dependem fortemente de rações formuladas principalmente com milho e derivados de soja.
Quando o preço desses componentes sobe, o custo de produção de proteína animal acompanha o movimento.
Em uma operação do tamanho da MBRF, pequenas oscilações por tonelada podem representar impactos significativos quando multiplicadas pelos grandes volumes utilizados ao longo do ano.
Por isso, administrar o risco relacionado aos grãos faz parte da estratégia financeira e operacional da companhia.
Empresa já utiliza hedge em commodities
A proteção contra volatilidade não começou com o El Niño.
Documentos financeiros da companhia mostram que a MBRF e suas controladas já utilizam diferentes instrumentos para proteger exposições relacionadas a commodities.
Entre as operações registradas aparecem contratos associados a compras de milho, farelo de soja e óleo de soja, utilizando referências como CBOT e B3.
Esses mecanismos funcionam como ferramentas para reduzir a influência de movimentos abruptos de mercado sobre compras realizadas ou planejadas.
O cenário climático atual, porém, adiciona um novo motivo para ampliar a atenção sobre essas posições.
Estratégia busca evitar pressão sobre o caixa
Um dos pontos importantes da estratégia está na diferença entre garantir condições comerciais e estocar fisicamente grandes volumes de grãos.
Comprar antecipadamente toda a matéria-prima necessária exigiria capital elevado, além de espaço de armazenamento e custos logísticos.
Os contratos a termo permitem reduzir parte da incerteza sem necessariamente imobilizar o mesmo volume de recursos imediatamente.
A estratégia ajuda a preservar capital de giro enquanto cria maior visibilidade sobre os custos futuros.
Para uma indústria intensiva em matéria-prima, esse equilíbrio entre segurança e disponibilidade de caixa é fundamental.
Safra atual ainda oferece algum conforto
A precaução da MBRF acontece enquanto a temporada anterior apresenta oferta relativamente confortável de grãos.
A safra brasileira de 2025/26 caminha para terminar em níveis elevados de produção, o que reduz pressões imediatas sobre disponibilidade.
O desafio está mais adiante.
Caso o El Niño altere de maneira significativa o regime de chuvas durante o desenvolvimento da safra 2026/27, a combinação entre menor produtividade, atraso de plantio e redução da janela do milho safrinha poderá alterar rapidamente o equilíbrio entre oferta e demanda.
É justamente essa possibilidade que a empresa tenta antecipar.
Mercado de milho ganha ainda mais importância
A preocupação também aumenta porque o milho brasileiro passou a ter uma demanda doméstica maior.
Além da produção de rações, o crescimento acelerado do etanol de milho criou um novo comprador estrutural dentro do país.
Com isso, indústrias de carnes, usinas de biocombustíveis, tradings e exportadores passam a competir por uma parcela maior da produção disponível.
Em um cenário de safra normal, essa disputa pode ser absorvida pela elevada produção brasileira.
Mas uma quebra ou atraso relevante causado pelo clima poderia elevar a pressão sobre preços.
El Niño transforma clima em risco financeiro
Para grandes empresas do agronegócio, fenômenos climáticos deixaram de ser apenas uma preocupação das propriedades rurais.
Uma seca em uma região produtora pode rapidamente atravessar toda a cadeia.
Menor produção afeta oferta, preços dos grãos, custos de alimentação animal, margens dos frigoríficos e até os preços finais das proteínas.
A estratégia adotada pela MBRF mostra justamente essa transformação: o risco meteorológico passa a ser tratado também como risco financeiro.
MBRF tenta ganhar previsibilidade antes do problema
Ao usar contratos a termo antes de eventuais efeitos mais fortes do El Niño, a MBRF tenta evitar que uma mudança climática inesperada se transforme integralmente em aumento de custo.
A empresa não consegue controlar chuva, temperatura ou produtividade das lavouras.
Mas consegue reduzir parte da exposição financeira às consequências desses fatores.
Esse movimento também mostra como o planejamento das grandes indústrias começa muito antes da colheita.
Enquanto produtores acompanham as previsões para decidir quando plantar, compradores de grande porte já fazem contas sobre como garantir o abastecimento e reduzir riscos nos meses seguintes.
Se o El Niño realmente provocar dificuldades para soja e milho, a eficiência dessas estratégias poderá ter impacto direto sobre as margens da companhia e sua capacidade de absorver aumentos no custo das matérias-primas.
Fontes: informações divulgadas pela MBRF em teleconferência de resultados, demonstrações financeiras da companhia e análises climáticas sobre os possíveis efeitos do El Niño na safra 2026/27.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.