Após investir R$ 2,84 bilhões no terminal e na estrutura logística ligada ao Porto de Santos, a Cofco coloca 69 mil toneladas de sorgo brasileiro em um navio rumo à China e inaugura, em grande escala, uma nova rota comercial para o cereal nacional
A gigante chinesa Cofco começa a transformar em fluxo comercial uma posição logística construída ao longo dos últimos anos no coração das exportações agrícolas brasileiras. Nesta quinta-feira (20), a companhia confirmou seu primeiro embarque de sorgo brasileiro em grande escala para a China, uma operação de 69 mil toneladas que parte do Porto de Santos (SP) e coloca o cereal nacional diante de um mercado consumidor de enorme dimensão.
O carregamento ocorre justamente no Terminal Export Cofco (TEC), estrutura que integra um pacote bilionário de investimentos da companhia no Brasil. Foram R$ 1,64 bilhão aplicados diretamente no novo terminal e outros R$ 1,2 bilhão em logística, incluindo a aquisição de 979 vagões e 23 locomotivas. Somados, são aproximadamente R$ 2,84 bilhões destinados a ampliar a capacidade da empresa de levar grãos e açúcar das regiões produtoras até Santos.
É esse contexto que torna o embarque de sorgo mais relevante do que a saída de apenas mais um navio. A Cofco não está somente comprando uma nova commodity brasileira: ela já possui uma estrutura montada para originar, transportar, armazenar e exportar volumes expressivos pelo maior porto da América Latina.
69 mil toneladas de sorgo deixam Santos
A primeira grande carga reúne 69 mil toneladas do cereal, embarcadas no navio graneleiro Guoyuan 26, no TEC, localizado no STS-11 do Porto de Santos.
O destino é o Porto de Nansha, em Guangzhou. Depois de chegar à China, o produto será distribuído pela Cofco Trading.
A operação confirma em escala comercial uma rota que até pouco tempo existia praticamente apenas no papel.
Em janeiro de 2026, o Brasil havia realizado sua primeira exportação de sorgo para a China desde 2014. Mas o volume era tão pequeno que caberia dentro de um único contêiner, em uma movimentação interpretada como teste.
Agora são 69 mil toneladas em um navio graneleiro.
A diferença entre as duas operações ajuda a dimensionar o que está acontecendo: o sorgo brasileiro passa de uma experiência comercial para uma movimentação típica do mercado internacional de commodities.
E há sinais de continuidade. Segundo informações da programação de navios citadas pela Reuters, outros carregamentos de sorgo brasileiro para a China estão previstos.

Cofco colocou R$ 2,84 bilhões na estrutura de Santos
A posição ocupada pela companhia chinesa nessa nova rota merece atenção.
A Cofco investiu R$ 1,64 bilhão diretamente em seu novo terminal de Santos e complementou o projeto com mais R$ 1,2 bilhão em infraestrutura logística.
Essa segunda parcela inclui 979 vagões e 23 locomotivas, adquiridos para transportar grãos e açúcar até o terminal. Segundo a Rumo, os equipamentos têm capacidade para movimentar até 4 milhões de toneladas por ano, conectando principalmente o Centro-Oeste e o interior paulista ao Porto de Santos.
Quando totalmente desenvolvido, o terminal foi projetado para atingir capacidade de movimentação de 14 milhões de toneladas por ano, concentrando principalmente soja, milho e açúcar.
Agora, o sorgo entra nessa equação.
Isso ajuda a explicar por que a chegada da China ao mercado brasileiro do cereal pode ganhar escala relativamente rápido: uma das maiores tradings agrícolas do mundo já possui presença na origem e infraestrutura própria para escoar grandes volumes até o porto.
Da lavoura brasileira diretamente para a demanda chinesa
O interesse chinês pelo sorgo tem razões bastante concretas.
O país utiliza o cereal principalmente na produção de ração animal, segmento que demanda grandes quantidades de grãos, além de empregá-lo na fabricação do baijiu, tradicional bebida chinesa.
Ao mesmo tempo, Pequim vem buscando diversificar suas origens de abastecimento agrícola.
O movimento ganhou ainda mais relevância depois das tensões comerciais entre China e Estados Unidos. As vendas norte-americanas de sorgo aos chineses sofreram forte redução durante a guerra comercial em 2025, enquanto o Brasil avançava no processo de habilitação para acessar esse mercado.
Brasil e China assinaram em novembro de 2024 o protocolo fitossanitário que estabeleceu as condições para a comercialização, e a liberação comercial das exportações passou a valer em 2025.
Agora aparece o resultado prático dessa abertura.
O sorgo brasileiro ganha uma nova saída
Para o produtor, provavelmente este seja o aspecto mais importante da notícia.
Historicamente, o sorgo brasileiro esteve fortemente ligado ao mercado doméstico, especialmente à alimentação animal, com sua formação de preços muito relacionada à disponibilidade e às cotações do milho.
A China acrescenta uma nova variável.
Isso não significa que um embarque de 69 mil toneladas será suficiente para provocar sozinho uma mudança estrutural nos preços pagos ao produtor. Para isso, será preciso acompanhar frequência dos navios, volumes contratados, regiões de origem, custos logísticos e competitividade do sorgo brasileiro frente aos fornecedores internacionais.
Mas a criação de uma nova demanda exportadora amplia as possibilidades de comercialização.
Quanto mais compradores estiverem disputando o cereal, maior poderá ser a capacidade de o sorgo desenvolver uma dinâmica comercial própria, especialmente nas regiões onde a produção já cresce como alternativa de segunda safra.
É exatamente essa possibilidade que a própria Cofco destaca. Segundo Luiz Noto, CEO da divisão de Grãos e Oleaginosas da companhia no Brasil, a abertura chinesa amplia as alternativas comerciais dos produtores e conecta a produção nacional a um mercado consumidor relevante.
Por que o sorgo interessa cada vez mais ao Brasil?
A expansão comercial acontece ao mesmo tempo em que o cereal conquista espaço dentro das fazendas brasileiras.
O sorgo apresenta características particularmente interessantes para determinadas regiões e janelas de cultivo. Sua maior tolerância ao déficit hídrico em relação ao milho ajuda a explicar a utilização crescente como alternativa em áreas nas quais o risco climático aumenta à medida que o plantio da segunda safra avança no calendário.
Além da alimentação animal, o cereal também começa a ser observado por outras cadeias industriais, aumentando o interesse econômico sobre a cultura.
A possibilidade de exportação regular adiciona uma terceira frente relevante: o mercado internacional.
E existe uma diferença fundamental entre ter autorização para vender e efetivamente conseguir colocar dezenas de milhares de toneladas dentro de um navio.
É justamente essa barreira que o embarque de 69 mil toneladas começa a romper.
China encontra no Brasil mais uma fonte de abastecimento
O sorgo também precisa ser analisado dentro de uma relação comercial muito maior.
A China já é destino fundamental para produtos brasileiros como soja e carne bovina. Ao habilitar novos produtos agrícolas, Pequim aumenta o número de alternativas disponíveis para seu abastecimento enquanto o Brasil diversifica sua pauta exportadora.
Para a Cofco, há ainda uma vantagem adicional: a companhia chinesa está posicionada dos dois lados dessa operação.
No Brasil, possui estrutura de originação e uma logística cada vez mais robusta para levar commodities ao Porto de Santos. Na China, a Cofco Trading fará a distribuição do sorgo que desembarcar em Guangzhou.
É uma conexão praticamente direta entre uma das maiores regiões produtoras de alimentos do mundo e um dos maiores mercados consumidores do planeta.
Primeiro navio pode ser apenas o começo
Ainda é cedo para dimensionar quanto sorgo brasileiro a China poderá comprar anualmente.
Os próximos embarques serão fundamentais para mostrar se o movimento se consolidará como fluxo recorrente ou permanecerá concentrado em oportunidades específicas de mercado.
Mas algumas peças importantes já estão colocadas: o mercado foi aberto, o protocolo sanitário existe, a primeira operação de teste ocorreu, o primeiro grande navio está sendo carregado e novos embarques aparecem na programação.
Além disso, uma gigante chinesa investiu bilhões justamente na infraestrutura necessária para conectar a produção agrícola brasileira ao mercado internacional.
Por isso, o Guoyuan 26, carregado com 69 mil toneladas de sorgo em Santos, representa mais do que um navio seguindo para Guangzhou.
Ele pode marcar o início de uma nova etapa para um cereal que durante décadas ficou atrás do milho na atenção do mercado brasileiro, mas que agora começa a encontrar uma rota própria até a China.
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