Aquisição de duas unidades da Bunge pela Cofco recebe aval do Cade e deve elevar em quase 38% a capacidade de moagem de cana da companhia no país.
A chinesa Cofco International deu mais um passo para ampliar sua presença industrial no agronegócio brasileiro. A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a aquisição de duas usinas de cana-de-açúcar da Bunge no interior de São Paulo, em decisão publicada no Diário Oficial da União em 28 de setembro.
Com a incorporação dos ativos, a capacidade de moagem da Cofco no Brasil deverá passar de 18,5 milhões para 25,5 milhões de toneladas de cana por safra, crescimento de aproximadamente 38%. A operação amplia de quatro para seis o número de usinas da companhia no país e reforça sua participação na produção brasileira de açúcar e etanol.
O movimento evidencia uma dimensão importante da presença chinesa no campo brasileiro: além da compra de commodities, empresas do país asiático ampliam o controle de estruturas industriais que processam a matéria-prima e agregam valor à produção.
Duas usinas acrescentam 7 milhões de toneladas de capacidade
O negócio envolve a usina Rio Vermelho, em Junqueirópolis (SP), e a Nova Unialco, em Guararapes (SP). Juntas, as unidades têm capacidade para processar aproximadamente 7 milhões de toneladas de cana por safra.
As plantas pertenciam à Viterra e passaram ao portfólio da Bunge após a conclusão da combinação de negócios entre as empresas, em julho de 2025. O acordo de venda à Cofco foi anunciado em 1º de setembro de 2026, sem divulgação do valor da transação.
A estrutura que a Cofco já mantinha no setor inclui unidades em Catanduva, Potirendaba, Meridiano e Sebastianópolis do Sul, todas em São Paulo, além de um terminal de transbordo em Votuporanga. A aquisição amplia essa rede em um dos principais estados produtores de cana do Brasil.
O salto anunciado corresponde à capacidade instalada de moagem, e não ao volume necessariamente processado em uma safra. A utilização das plantas depende da disponibilidade de cana, das condições climáticas, do desempenho agrícola e da programação industrial.
Cade não identificou risco de concentração excessiva
Na análise da operação, o Cade considerou que as participações das empresas nos mercados brasileiros de açúcar e etanol ficam abaixo de 20%. Nas relações entre diferentes etapas da cadeia produtiva, os percentuais examinados também não alcançam 30%.
Com base nesses indicadores, a Superintendência-Geral afastou preocupações concorrenciais que justificassem restrições à aquisição.
“Conclui-se que a operação não possui o condão de acarretar prejuízos ao ambiente concorrencial”, avaliou o órgão no despacho.
A aprovação representa um avanço regulatório para o negócio. No anúncio do acordo, a Bunge informou que sua conclusão dependeria das condições habituais de fechamento, incluindo as autorizações necessárias. O aval concorrencial deve ser distinguido da confirmação de conclusão da transferência dos ativos.
Compra reforça presença chinesa na indústria brasileira
A relevância da aquisição vai além do número de usinas. Ao ampliar sua capacidade industrial, a Cofco aumenta o potencial de transformar cana brasileira em produtos comercializados nos mercados doméstico e internacional.
Sob a perspectiva operacional, a integração de mais unidades pode abrir espaço para ganhos em compras, manutenção, logística e planejamento da produção. Esses benefícios, entretanto, dependem da execução da integração e das características de cada planta.
Para fornecedores de cana nas regiões atendidas, a mudança de controle torna especialmente importantes as condições dos contratos, os critérios de remuneração e o planejamento de entrega da matéria-prima. A aquisição, por si só, não permite afirmar que haverá aumento de preços ao produtor ou expansão imediata das compras.
Também é preciso considerar que se trata da transferência de instalações existentes. Os 7 milhões de toneladas adicionais ampliam a capacidade sob controle da Cofco, mas não representam, automaticamente, a construção de nova capacidade industrial no Brasil.
Bunge encaminha saída definitiva do setor
Para a Bunge, a venda das duas unidades encaminha o encerramento de sua participação no setor sucroenergético brasileiro. A companhia já havia vendido, em 2024, sua fatia na joint venture que mantinha com a BP.
As usinas recebidas na combinação com a Viterra recolocaram esses ativos no portfólio da empresa. Agora, o desinvestimento segue a estratégia de concentrar recursos em suas prioridades de negócio.
A operação reúne, assim, dois movimentos empresariais: a saída da Bunge da produção de açúcar e etanol no país e a ampliação da presença chinesa nessa indústria. Para a Cofco, o resultado projetado é uma plataforma de seis usinas e capacidade de moagem de 25,5 milhões de toneladas de cana por safra.
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