Reportagem do Irish Farmers Journal destaca os benefícios e riscos das variantes da miostatina; estudo de 2026 avança na edição genética, enquanto pesquisas brasileiras mostram a importância de planejar os acasalamentos
Produzir bovinos com mais musculatura e melhor aproveitamento de carcaça é uma possibilidade que desperta interesse na pecuária mundial. Nesse debate, um nome aparece com frequência: miostatina, proteína que limita o crescimento muscular e cuja produção é determinada pelo gene MSTN. Alterações nesse gene podem reduzir esse controle e favorecer animais mais musculosos.
O assunto ganhou destaque em reportagem publicada recentemente pelo Irish Farmers Journal, jornal especializado em agropecuária da Irlanda. A publicação chama a atenção para a importância de conhecer o perfil genético dos reprodutores antes de definir os acasalamentos, buscando equilíbrio entre desenvolvimento muscular, facilidade de parto e desempenho do rebanho.
A discussão também interessa à pecuária brasileira. Pesquisadores já estudaram a introdução de uma variante da miostatina do Belgian Blue em uma linhagem de Nelore, com resultados que mostram tanto o potencial produtivo quanto os cuidados necessários na reprodução.
Mais músculos, mas com diferenças importantes entre as variantes
A miostatina funciona como um freio biológico do desenvolvimento muscular. Algumas mutações no gene MSTN diminuem ou interrompem sua atuação, favorecendo a condição conhecida como musculatura dupla. A intensidade desse efeito, entretanto, depende da alteração genética presente no animal.
Entre as variantes discutidas na pecuária europeia está a F94L, associada ao aumento da musculatura sem grande impacto sobre a dificuldade de parto. Outras, como Q204X e nt821, podem melhorar a conformação e o rendimento de carcaça, mas também elevar o peso ao nascimento e exigir maior assistência durante os partos. Essas diferenças são destacadas pelo serviço de orientação agropecuária da Irlanda do Norte, o CAFRE.
Por isso, dizer apenas que um touro “tem o gene da miostatina” é insuficiente. Todos os bovinos possuem o gene; o que muda é a variante e o número de cópias que carregam. Um animal com uma cópia de determinada mutação pode transmiti-la a aproximadamente metade de seus descendentes, enquanto aquele com duas cópias transmite uma delas a todos os filhos.
Na prática, a escolha do reprodutor precisa considerar também a genética das matrizes. A reportagem do Farmers Journal reforça que o teste de DNA ajuda a identificar essas combinações antes do acasalamento. A aparência musculosa, isoladamente, não informa todo o risco reprodutivo envolvido.
Estudo de 2026 avança na transmissão da edição genética
Uma novidade científica foi publicada em agosto de 2026 na revista Animal Genetics. Pesquisadores sul-coreanos acompanharam bovinos Hanwoo com alterações no MSTN produzidas por edição genética e investigaram a transmissão dessas alterações aos descendentes.
O trabalho registrou o nascimento de quatro bezerros, todos com uma cópia da mutação herdada da mãe editada. Posteriormente, o uso de sêmen de um dos descendentes permitiu produzir embriões de uma geração seguinte que também carregavam a alteração. O resultado acrescenta evidências de que a modificação pode ser transmitida pela reprodução.
Os pesquisadores não observaram distocia nos partos relatados, mas um dos quatro bezerros morreu no segundo dia de vida por obstrução intestinal. Os sobreviventes acompanhados apresentaram desenvolvimento sem anormalidades clínicas relevantes descritas no estudo.
O avanço não permite concluir que toda edição da miostatina seja segura ou economicamente vantajosa. O experimento envolveu poucos animais, e os próprios autores reconhecem limitações nas comparações de proteínas musculares. Os resultados sugerem que o local da alteração no gene pode influenciar o equilíbrio entre musculatura e facilidade de parto, hipótese que exige avaliações maiores.
Brasil já introduziu variante do Belgian Blue em linhagem Nelore
No Brasil, uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) documentou uma linhagem de Nelore portadora de uma variante do gene da miostatina proveniente do Belgian Blue.
Nesse caso, a introdução ocorreu por congenia, com cruzamentos acompanhados por análises genéticas para transferir uma região específica do cromossomo. Portanto, esse trabalho utilizou reprodução e seleção, sem edição direta do DNA em laboratório.
A dissertação de Karoline Silva Paulussi, de 2018, comparou bezerros sem a mutação, com uma cópia e com duas cópias. Os pesos médios ao nascimento foram, respectivamente, 31,19 kg, 35,82 kg e 40,46 kg.
As diferenças reprodutivas foram expressivas. A incidência de partos difíceis foi de 5,4% nos animais sem a mutação e 5,7% naqueles com uma cópia. Entre os que carregavam duas cópias, chegou a 47,5%. A mortalidade neonatal nesse último grupo foi de 37,3%. Esses números pertencem à população e às condições avaliadas no estudo.
A pesquisa brasileira continua. Em setembro de 2025, a Universidade Federal de Goiás (UFG) registrou a dissertação de Isabela da Silveira Padilha sobre a avaliação genética de uma linhagem congênica de Nelore com a variante da miostatina. O repositório informa que o resumo está embargado, impedindo detalhar seus resultados a partir da página pública.
Também existem experimentos internacionais de edição direta do MSTN em Nelore, como o trabalho publicado na revista Transgenic Research, na edição de 2015, utilizando a ferramenta TALEN. Trata-se de uma abordagem diferente daquela estudada na linhagem brasileira obtida por cruzamentos.
Os resultados da Unesp deixam uma mensagem concreta para o campo: uma ou duas cópias da mesma variante podem produzir consequências muito diferentes. O potencial da miostatina precisa ser avaliado junto da viabilidade dos nascimentos e da sobrevivência dos bezerros, fatores decisivos para transformar genética em resultado na fazenda.

Nelore Myo já comercializa animais e material genético com a variante
A aplicação dessa genética no Brasil também chegou ao mercado. O Nelore Myo, desenvolvido pelo médico-veterinário e pesquisador Rodrigo Vitorio Alonso, trabalha com uma linhagem obtida pela introdução da variante da miostatina do Belgian Blue no Nelore, por sucessivos cruzamentos orientados por testes de DNA. O projeto contou com apoio da Fapesp e da Finep, por meio dos programas PIPE e PAPPE.

A empresa comercializa animais e material genético, com oferta de touros, sêmen e embriões, permitindo que produtores incorporem a variante aos seus rebanhos. A atuação comercial também está documentada no catálogo do leilão Nelore Myo & Parceiros Multiplicadores, que apresenta animais da linhagem.
A proposta é combinar as características de adaptação do Nelore com maior desenvolvimento muscular. Segundo a Fapesp, o projeto alcançou animais com mais de 99% do genoma proveniente do Nelore, mantendo a mutação de interesse introduzida a partir do Belgian Blue. Nesse processo, a multiplicação da característica ocorre pela reprodução dos animais portadores, sem edição direta do DNA em laboratório.
O Nelore Myo representa, assim, um exemplo brasileiro de transformação da pesquisa genética em oferta comercial para a pecuária. Seu uso exige conhecer a variante e o número de cópias presentes nos reprodutores e nas matrizes, considerando as diferenças de risco reprodutivo observadas nos estudos com essa genética.