Geada castiga milho recém-plantado e já força replantio de lavouras no Sul

Com 60% do milho já semeado no Rio Grande do Sul, frio intenso atingiu principalmente áreas precoces e locais mais sujeitos à geada; granizo também provocou perdas pontuais

A safra 2026/27 de milho avança rapidamente no Rio Grande do Sul, mas o clima já impôs o primeiro revés importante do novo ciclo. Geadas registradas no estado provocaram danos em diversas lavouras recém-estabelecidas e, em alguns casos, a perda foi suficiente para exigir o replantio, segundo acompanhamento da Emater/RS-Ascar.

A confirmação ocorre justamente quando a semeadura alcança 60% dos 896,4 mil hectares projetados para o milho no estado. Os danos se concentraram principalmente nas lavouras implantadas mais cedo e em áreas naturalmente mais suscetíveis à formação de geada. Apesar das perdas, não há, até o momento, indicação de comprometimento generalizado da safra gaúcha.

O episódio, porém, acende um alerta para o produtor: em lavouras recém-emergidas, poucos graus de diferença na temperatura e a posição da área no relevo podem separar plantas capazes de se recuperar daquelas que precisarão ser replantadas.

Milho avança sobre 60% da área

Mesmo com os problemas climáticos, o plantio continua em ritmo forte. A semeadura do milho verão chegou a 60% dos 896.401 hectares previstos para o Rio Grande do Sul, enquanto no Noroeste, uma das principais regiões produtoras, os trabalhos estão praticamente concluídos.

A Emater estima produtividade média de 7.711 kg por hectare, o que poderá resultar em uma produção próxima de 6,91 milhões de toneladas.

Por enquanto, os danos provocados pelo frio não foram considerados suficientes para alterar essas projeções.

A situação, entretanto, mudou rapidamente. Na semana anterior, quando o plantio estava em 54%, existia apenas a preocupação de que as geadas tivessem atingido lavouras emergidas. Com as novas avaliações de campo, o dano foi confirmado e algumas áreas já precisam ser replantadas.

Milho queimado pela geada está perdido?

Nem sempre.

Essa é uma distinção importante antes de decidir pelo replantio. Nos estágios iniciais, o ponto de crescimento do milho permanece abaixo ou muito próximo da superfície do solo, o que pode oferecer alguma proteção contra temperaturas muito baixas.

Assim, uma planta com folhas aparentemente “queimadas” pela geada pode continuar viva. Os tecidos expostos podem apresentar necrose enquanto o ponto responsável pela emissão de novas folhas permanece preservado.

Por isso, a aparência da lavoura imediatamente após o frio não deve ser o único critério para decidir pelo replantio.

É necessário avaliar a sobrevivência das plantas, a população final, a uniformidade do estande e a retomada do crescimento. Quando o ponto de crescimento também é comprometido ou a mortalidade reduz excessivamente a população, o replantio passa a ser considerado.

Por que algumas áreas sofreram mais?

Segundo a Emater, os danos apareceram principalmente em lavouras semeadas mais cedo e áreas favoráveis à ocorrência de geadas.

A própria topografia ajuda a explicar por que uma lavoura pode apresentar trechos muito afetados ao lado de áreas praticamente intactas.

Como o ar frio é mais denso, ele tende a se acumular nas partes mais baixas do terreno. Baixadas e pontos com menor circulação de ar podem, portanto, registrar temperaturas inferiores às áreas mais elevadas da propriedade.

Isso também significa que nem sempre será necessário replantar o talhão inteiro.

O produtor pode encontrar perdas concentradas em determinadas faixas, tornando fundamental avaliar cada área antes de tomar uma decisão.

Granizo também provocou prejuízos

A geada não foi o único problema climático.

Ocorrências de granizo também causaram perdas isoladas nas lavouras gaúchas, conforme o levantamento da Emater.

Em plantas jovens, o granizo pode rasgar folhas, danificar tecidos e, dependendo da intensidade, reduzir o número de plantas por hectare.

Até agora, entretanto, os relatos indicam danos localizados, sem evidência de comprometimento significativo dos quase 900 mil hectares projetados para o milho no estado.

Replantar tem custo — e atrasar o ciclo também

Para o produtor, decidir entre esperar a recuperação ou replantar pode ser uma das escolhas mais delicadas depois da geada.

O replantio significa novamente sementes, combustível, máquinas, mão de obra e operações de campo. Além disso, a nova lavoura entra mais tarde no calendário e poderá encontrar condições diferentes de chuva, temperatura e pressão de pragas.

Por outro lado, manter um talhão com população muito baixa ou distribuição irregular de plantas também pode limitar o potencial produtivo.

A análise precisa, portanto, ser realizada talhão por talhão, confrontando o custo do replantio com a produtividade que o estande remanescente ainda seria capaz de entregar.

Cigarrinha recua nas lavouras

Em meio às dificuldades provocadas pelo clima, houve uma notícia positiva no campo fitossanitário.

A população da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) diminuiu durante a semana, inclusive na região de Santa Rosa.

A redução, porém, não elimina a necessidade de monitoramento. O inseto é vetor dos patógenos relacionados aos enfezamentos do milho, e as plantas jovens estão entre as que exigem maior atenção.

Safra ainda pode chegar a 6,91 milhões de toneladas

Apesar dos danos localizados, a perspectiva para a produção gaúcha continua relevante.

Com 896.401 hectares cultivados e produtividade média estimada em 7.711 kg/ha, a safra poderá alcançar aproximadamente 6,91 milhões de toneladas de milho.

O desempenho da cultura é estratégico não apenas para os produtores de grãos. O milho abastece diretamente cadeias importantes do agronegócio gaúcho, especialmente suinocultura, avicultura e pecuária leiteira.

Uma eventual redução relevante da produtividade, portanto, poderia repercutir também na disponibilidade regional do cereal e nos custos da alimentação animal.

Preço do milho tem leve reação

Enquanto o plantio avançava, o preço médio acompanhado pela Emater registrou pequena valorização.

A saca de 60 quilos passou de R$ 61,60 para R$ 61,98, alta semanal de aproximadamente 0,62%. Na Bolsa de Cereais de Cruz Alta, o milho disponível permaneceu cotado a R$ 75 por saca.

A variação é pequena para caracterizar uma mudança de tendência, mas o episódio climático acrescenta um componente importante à conta do produtor: nas áreas onde houver replantio, o custo de implantação aumenta antes mesmo de a safra entrar plenamente em desenvolvimento.

Trigo também foi atingido

As mesmas condições meteorológicas afetaram lavouras de trigo no Rio Grande do Sul.

Geada e granizo provocaram danos de intensidade variável, e algumas áreas ainda passam por avaliação para determinar possíveis perdas produtivas.

O momento exige atenção porque boa parte das lavouras já se encontra em fases decisivas: 44% das áreas mais precoces estão em enchimento de grãos, 5% em maturação, 39% em espigamento e floração e 12% em desenvolvimento vegetativo.

Além do clima, o monitoramento permanece voltado para doenças como oídio, manchas foliares, ferrugens e giberela.

Depois da geada, atenção se volta para a chuva

O cenário meteorológico também começa a mudar.

Depois do frio intenso, a tendência é de aumento da instabilidade sobre áreas do Rio Grande do Sul, trazendo um desafio adicional justamente para quem precisa recuperar ou replantar lavouras.

Excesso de umidade pode dificultar a entrada de máquinas e reduzir a janela disponível para uma nova semeadura.

Nas propriedades atingidas, portanto, a condição do solo e a oportunidade para entrar novamente no campo serão determinantes para o replantio.

O que observar antes de replantar

Antes de tomar a decisão, o produtor deve avaliar se existe retomada do crescimento, conferir o ponto de crescimento das plantas, estimar a população sobrevivente e verificar a uniformidade do estande.

Também é importante mapear onde ocorreram os maiores danos. Como a geada pode acompanhar o relevo e se concentrar em baixadas, uma mesma propriedade pode apresentar situações completamente diferentes.

O episódio representa a primeira prova climática relevante da safra 2026/27 de milho no Rio Grande do Sul.

Ainda é cedo para estimar qualquer impacto sobre as 6,91 milhões de toneladas projetadas, mas o cenário mudou em poucos dias: o que inicialmente era apenas risco de dano provocado pelo frio tornou-se perda confirmada e necessidade de replantio em algumas lavouras.

Agora, o avanço da semeadura e as próximas condições meteorológicas mostrarão se as perdas permanecerão localizadas ou se o clima ainda poderá impor novos desafios ao milho gaúcho.

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