Gaúcha se impressiona com carcaças de Indubrasil abatidos no Rio Grande do Sul

Criados por uma família no interior gaúcho, animais de uma raça rara nos frigoríficos do Sul chamaram atenção pela adaptação ao frio, acabamento de carcaça e potencial de marmoreio; entenda porque a raça InduBrasil é pouco difundida no Sul

O abate de dois bovinos da raça Indubrasil chamou a atenção dentro de um frigorífico no Rio Grande do Sul, estado onde a pecuária de corte é fortemente marcada por animais de origem europeia. Com 54% de rendimento de carcaça e acabamento de gordura grau 4, os exemplares despertaram a curiosidade até mesmo de profissionais acostumados a avaliar bovinos diariamente.

O resultado foi divulgado pela administradora de empresas Brenda Hencker, de 26 anos, gerente do Agropampa Frigorífico e consultora na área de qualidade de abate de bovinos. A unidade fica em Taquara, município localizado no Vale do Paranhana, a cerca de 75 quilômetros de Porto Alegre.

A presença dos dois animais nos currais da indústria já era uma novidade. Afinal, enquanto o rebanho bovino de grande parte do Brasil apresenta forte predominância de raças zebuínas, especialmente do Nelore, a realidade encontrada no extremo Sul do país é diferente.

Gaucha Brenda Hencker Agropampa Frigorifico
Foto: Arquivo pessoal

O clima ajuda a explicar essa diferença. As raças taurinas, como Angus, Hereford e Charolês, desenvolveram-se originalmente em regiões de clima temperado e encontraram no Sul brasileiro condições ambientais mais próximas às de sua origem.

As temperaturas mais baixas, a menor intensidade do calor durante boa parte do ano e os sistemas tradicionais de produção favoreceram a expansão dessas raças. Além disso, programas de carne de qualidade, cruzamentos dirigidos e a valorização de atributos como precocidade, acabamento e marmoreio ampliaram a participação das genéticas europeias na pecuária gaúcha.

Nas regiões tropicais do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e parte do Sudeste, por outro lado, o calor, a umidade, a maior pressão de parasitas e as longas distâncias percorridas pelos animais favoreceram a expansão dos zebuínos. A rusticidade e a adaptação ao ambiente tropical fizeram do Zebu a base da pecuária brasileira.

É justamente esse contraste que tornou o abate dos dois Indubrasil tão curioso.

“Geralmente, o Rio Grande do Sul acaba abatendo mais raças taurinas, de origem europeia. Animais mais puxados para o Zebu não aparecem tanto por aqui, então esse já foi um abate diferente”, explicou Brenda.

Animais pesavam quase 600 quilos

Um dos bovinos era um novilho, enquanto o outro já era um macho mais velho. Antes do abate, eles apresentaram pesos muito próximos: um deles chegou a 585 quilos e o outro, a 583 quilos.

Após o processamento, ambos alcançaram aproximadamente 54% de rendimento, resultando em carcaças com mais de 300 quilos. O acabamento foi classificado como grau 4, indicando uma cobertura de gordura expressiva.

Segundo Brenda, os animais pertenciam a uma família simples do interior de Santo Antônio da Patrulha. Eles recebiam um cuidado diferenciado, tinham acesso ao campo, alimentação no cocho e até dormiam em galpão. “Eles eram tratados como se fossem da família, como filhos dos produtores. Tinham todo o campo para comer, recebiam alimento no cocho e contavam com um cuidado muito especial”, relatou.

Nos últimos 70 dias antes do abate, o manejo alimentar foi intensificado para melhorar o ganho de peso e o acabamento. O resultado apareceu na linha de abate.

Frio gaúcho não impediu o acabamento

Um dos aspectos que mais surpreenderam Brenda foi a capacidade dos animais de apresentar elevada deposição de gordura mesmo enfrentando uma condição climática bastante diferente daquela normalmente associada aos zebuínos. “São animais com uma genética e uma rusticidade absurdas. Mesmo enfrentando dias de zero grau ou temperaturas negativas no Rio Grande do Sul, entregaram toda essa cobertura de gordura”, afirmou.

A gerente acompanhou pessoalmente a passagem das carcaças pela indústria para verificar se aquilo que os animais demonstravam visualmente nos currais seria confirmado após o abate.

“Quando eles foram abatidos, eu quis acompanhar dentro da indústria para ver se essa genética realmente entregaria qualidade. Tudo aquilo que estava prometendo visualmente no curral apareceu na carcaça”, destacou.

A reserva de gordura observada na região do cupim também chamou sua atenção. Embora Brenda não tenha realizado o corte das peças para medir tecnicamente o marmoreio — já que as carcaças pertenciam a um cliente do frigorífico —, a avaliação visual indicou um potencial elevado de gordura intramuscular. “Tenho certeza de que o grau de marmoreio entregue por essa carne surpreendeu quem comprou. Realmente foi um animal fora de série”, declarou.

Primeiros Indubrasil em seis anos

Apesar de trabalhar no setor desde os 19 anos e já ter acompanhado o abate de animais Nelore, Brahman, Gir e de outras raças, Brenda afirmou que essa foi a primeira vez que encontrou bovinos Indubrasil dentro da unidade frigorífica. “Em seis anos de experiência, foi a primeira vez que acompanhei o abate dessa raça. Já abatemos Nelore, Brahman, Gir e outros zebuínos, mas Indubrasil foi a primeira vez”, contou.

A raridade da raça na região, somada aos resultados apresentados, fez com que ela decidisse registrar e compartilhar o caso nas redes sociais. “São animais que entregaram 54% de rendimento de carcaça, grau de gordura 4 e, principalmente, um alto índice de marmoreio. Um diferencial importante quando falamos em qualidade de carcaça é genética, rusticidade e qualidade andando juntas”, escreveu Brenda na publicação.

“Esses dois bovinos são um exemplo disso, criados a campo e com suplementação, mostrando que é possível unir rusticidade genética e qualidade de carcaça”, completou.

Uma raça genuinamente brasileira

O Indubrasil tem uma história particular: foi o primeiro neozebuíno desenvolvido no Brasil. A raça surgiu no Triângulo Mineiro a partir da combinação de diferentes linhagens zebuínas, principalmente Gir e Guzerá, com participação do Nelore.

Segundo a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), a seleção buscou reunir porte, desenvolvimento, rusticidade e capacidade produtiva. O Indubrasil chegou a ocupar posição de destaque na formação da pecuária zebuína nacional, mas perdeu espaço ao longo das décadas para outras raças, especialmente o Nelore. ABCZ

Para Brenda, a experiência no frigorífico mostrou que a raça ainda possui atributos que merecem ser observados pela pecuária.

“É uma raça que deveria receber mais investimentos para que o trabalho tenha continuidade. A gente vê que, de certa forma, ela está um pouco esquecida”, avaliou.

Em uma região onde as carcaças taurinas fazem parte da rotina, os dois animais zebuínos conseguiram se destacar. Mais do que uma curiosidade na linha de abate, o episódio mostrou que a combinação entre genética, adaptação, alimentação e cuidado pode produzir resultados surpreendentes — até mesmo em um ambiente bastante distante daquele normalmente associado ao Indubrasil.

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