FPA denuncia corte bilionário e “maquiagem” no Plano Safra 2026/27

Apesar de ser apresentado pelo governo como o maior Plano Safra da história, a Frente Parlamentar da Agropecuária afirma que os recursos efetivos encolheram, denuncia “engenharia financeira” para inflar os valores e critica a ausência do presidente Lula no lançamento destinado ao agronegócio empresarial

A apresentação do Plano Safra 2026/27 pelo governo federal, anunciada como um programa recorde para o financiamento da produção agropecuária, provocou uma forte reação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Em nota oficial divulgada nesta terça-feira, a bancada do agro afirma que os números divulgados pelo Executivo escondem uma redução efetiva de R$ 29,6 bilhões nos recursos destinados ao setor e acusa o governo de utilizar uma “engenharia financeira” para inflar artificialmente o volume anunciado.

Segundo a FPA, embora o governo tenha divulgado um montante recorde para o Plano Safra, a comparação com o ciclo anterior revela uma queda de 5,73% quando são retirados da conta fundos que, segundo a entidade, não pertencem ao escopo tradicional do crédito rural.

Para a bancada, o problema vai muito além da divulgação dos números. A maior preocupação está justamente na redução dos recursos destinados ao custeio da produção, considerado o principal instrumento utilizado pelos produtores para financiar o plantio, adquirir fertilizantes, defensivos, sementes e garantir o funcionamento da atividade no campo.

De acordo com a nota, o crédito destinado ao custeio e à comercialização caiu de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, uma redução de 7,2%.

Ao mesmo tempo, os recursos voltados aos investimentos apresentaram crescimento de 38%, passando de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. Entretanto, segundo a FPA, esse aumento ocorreu devido à inclusão de R$ 38,5 bilhões provenientes de fundos que tradicionalmente não fazem parte do crédito rural, o que classificou como uma forma de ampliar os números sem ampliar, na prática, o acesso ao financiamento.

A crítica também alcança programas considerados estratégicos para a modernização da agropecuária brasileira.

O Moderfrota, principal linha para aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas, sofreu uma redução de 54%, enquanto o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) teve corte de 28%, justamente em um momento em que o Brasil enfrenta um histórico déficit de capacidade de armazenagem de grãos.

Outro ponto destacado pela FPA é a diminuição dos chamados recursos equalizados — aqueles cuja taxa de juros recebe subsídio do governo federal para tornar o crédito mais acessível aos produtores.

Segundo a entidade, os recursos equalizados passaram de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões, representando uma queda de 14,7%, em um cenário de elevado endividamento rural e restrição de crédito.

Seguro rural entra na mira

A nota também faz duras críticas ao tratamento dado ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

Segundo a FPA, o orçamento destinado ao programa voltou a sofrer contingenciamento e deverá resultar na menor cobertura dos últimos dez anos.

A estimativa é de que apenas 2,69 milhões de hectares sejam contemplados pelo seguro rural em todo o país, justamente em um momento de aumento dos riscos climáticos e de confirmação da atuação do fenômeno El Niño, que eleva as incertezas sobre a próxima safra.

Na avaliação da entidade, reduzir a proteção ao produtor em um cenário climático cada vez mais imprevisível aumenta significativamente a vulnerabilidade do setor.

lula a frente de varios produtores rurais - agronegocio fotao
Imagem gerada por IA

Lula também vira alvo da bancada

Além das críticas técnicas ao Plano Safra, a FPA direcionou forte reprovação ao posicionamento político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a entidade, causou preocupação a decisão do chefe do Executivo de participar apenas do lançamento do Plano Safra destinado à agricultura familiar, deixando de comparecer ao anúncio voltado à agricultura empresarial.

Para a bancada ruralista, a atitude transmite uma mensagem de divisão entre os diferentes segmentos da produção agropecuária brasileira.

Na nota, a FPA afirma que pequenos, médios e grandes produtores, cooperativas e cadeias produtivas fazem parte de um mesmo sistema responsável pela produção de alimentos, geração de empregos, movimentação da economia e sustentação de milhares de municípios brasileiros.

A Frente Parlamentar da Agropecuária afirma que continuará pressionando o governo e atuando no Congresso Nacional para ampliar o acesso ao crédito rural e avançar na votação de projetos considerados prioritários pelo setor.

Entre eles estão o PL 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais, e o PL 2.951/2024, que propõe mudanças no sistema de Seguro Rural.

A divulgação da nota amplia o embate entre o setor produtivo e o governo federal justamente no momento em que o Plano Safra 2026/27 começa a ser implementado. Enquanto o Executivo sustenta que lançou o maior programa de crédito da história, a principal bancada do agronegócio no Congresso afirma que, na prática, o produtor rural terá menos recursos para custeio, menos crédito subsidiado, menos apoio para renovação de máquinas, menos investimentos em armazenagem e um seguro rural cada vez mais insuficiente diante dos desafios climáticos.

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