Flávio Bolsonaro tem 62% em cidade do agro que desafia domínio do PT na Bahia

Luís Eduardo Magalhães nasceu ao redor de um posto de combustível, tornou-se potência econômica e ajuda a entender a força da direita no oeste baiano

Uma cidade que cresceu ao redor de um posto de combustível se tornou um dos exemplos mais expressivos do contraste político dentro da Bahia. Em Luís Eduardo Magalhães, polo do agronegócio no oeste do estado, Flávio Bolsonaro recebeu 62,03% dos votos válidos no primeiro turno de 2026, contra 32,51% de Luiz Inácio Lula da Silva. Foram 38.496 votos para o candidato do PL e 20.173 para o petista.

O resultado chama atenção pelo tamanho da vantagem e pelo ambiente em que foi construído. Enquanto o PT mantém forte presença eleitoral na Bahia, Luís Eduardo Magalhães apresenta uma realidade política associada a uma economia que gira em torno da produção, dos investimentos e dos negócios ligados ao campo.

A conexão entre expansão agrícola e comportamento eleitoral aparece em uma declaração de Luiz Felipe d’Avila na Jovem Pan, no programa Brasil sem Filtro: “Onde o agro entra, espanta o voto do PT.” No trecho transcrito, ele cita Luís Eduardo Magalhães e Barreiras ao comentar a transformação do oeste baiano e o avanço da fronteira agrícola.

A frase resume uma interpretação política. A história da cidade permite examinar os mecanismos econômicos e sociais que podem ajudar a sustentá-la.

Antes das urnas, vieram a estrada e a produção

O ponto de partida está longe dos grandes centros políticos. Segundo o histórico registrado pelo IBGE, o povoado de Mimoso do Oeste surgiu em 1982, com a construção do Posto Mimoso, no entroncamento das rodovias BR-242 e BR-020. Ao redor dele, o loteamento e as primeiras casas começaram a formar o núcleo urbano.

A emancipação de Barreiras ocorreu em 2000. Pouco mais de duas décadas depois, o município já figurava entre as maiores economias baianas. Seu PIB alcançou R$ 11,56 bilhões em 2023, ocupando a sexta posição estadual, segundo dados do IBGE e da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia citados pelo Poder360.

Entre esses dois momentos existe uma transformação que vai muito além da paisagem das lavouras.

A agricultura atraiu produtores, trabalhadores, fornecedores e profissionais de diferentes regiões. Famílias vindas de fora se encontraram com baianos que também buscavam oportunidades. A construção dessa economia dependeu tanto de quem investiu na produção quanto de quem operou máquinas, transportou mercadorias, ergueu casas e abriu estabelecimentos.

O crescimento ganhou escala quando a produção rural passou a sustentar uma economia urbana.

Uma lavoura demanda transporte, manutenção, peças, crédito, contabilidade e assistência técnica. Quem trabalha nessas atividades também consome alimentação, moradia, educação e serviços. Assim, o movimento iniciado no campo alcança negócios que não vendem uma única saca de soja.

A oficina, o restaurante, a loja e o escritório passam a participar da mesma engrenagem.

O agro que aparece no comércio e no emprego

Os indicadores ajudam a dimensionar essa rede. Uma página da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia registra 20.609 empresas ativas em 2025 e 36.670 empregos formais em 2023, com base, respectivamente, em informações da Receita Federal e da RAIS.

Em julho de 2026, a revista VEJA destacou Luís Eduardo Magalhães como a melhor cidade média do Nordeste em seu levantamento. A reportagem também apontou a presença expressiva de pequenos negócios: entre os cerca de 20 mil CNPJs mencionados, 42% eram microempresas e 41%, microempreendedores individuais.

Isso amplia a discussão sobre o significado de uma “cidade do agro”. A influência econômica do setor alcança pessoas que vivem e trabalham dentro do perímetro urbano.

É nesse ambiente que propostas sobre impostos, liberdade econômica, infraestrutura, segurança jurídica e condições para investir podem encontrar forte identificação. Para quem depende do movimento das empresas, as decisões sobre a produção rural têm consequências próximas: aparecem no faturamento, nas contratações e nas perspectivas de expansão.

Essa é uma hipótese relevante para interpretar o voto local. Demonstrar quanto cada fator pesou, porém, exigiria pesquisas específicas com o eleitorado.

Junior Marabá transforma resultados em discurso político

O prefeito Junior Marabá participou da mobilização em favor de Flávio Bolsonaro e defendeu o voto no candidato ainda no primeiro turno. Em declaração pública reproduzida pelo Poder360, sintetizou sua posição: “Eu acho que o melhor caminho é a direita.” Ao justificar a escolha, associou o município ao agro, ao emprego e à qualidade de vida.

O argumento procura aproximar a preferência eleitoral da experiência cotidiana dos moradores. A mensagem é que o ambiente favorável à produção deve orientar também a escolha política.

A liderança municipal constitui outro elemento da análise. A afinidade de parte do eleitorado com pautas econômicas se combina com a atuação de grupos locais, a avaliação da gestão e a capacidade de mobilização de seus representantes.

A força eleitoral desse campo político também antecede 2026. No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 54,02% dos votos válidos na cidade. Agora, Flávio alcançou 62,03%. A comparação registra uma ampliação da votação do candidato do PL, embora envolva disputas e candidatos diferentes.

Cidade também foi cenário de vídeo de Nikolas que teve áudio silenciado

Luís Eduardo Magalhães também foi o cenário do vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira. A gravação reúne moradores relatando dificuldades financeiras e problemas no acesso a serviços públicos. A assessoria do parlamentar confirmou ao Poder360 que as entrevistas foram realizadas no município.

O conteúdo ganhou enorme repercussão e teve o áudio removido pelo Instagram. Segundo a Meta, a medida atendeu a uma solicitação de direitos autorais relacionada à música utilizada na publicação. O vídeo, na data de hoje (22), já alcançou 161 milhões de visualizações.

A escolha da cidade acrescenta uma camada ao debate: o mesmo município apresentado como símbolo da prosperidade do agro também abriga moradores que ainda enfrentam dificuldades. As duas realidades podem coexistir. O dinamismo econômico gera oportunidades, mas sua transformação em renda, infraestrutura e serviços para toda a população continua sendo um desafio.

Politicamente, a gravação colocou esse polo agrícola baiano no centro da disputa nacional, somando à votação expressiva de Flávio Bolsonaro uma exposição que ultrapassou as fronteiras do oeste da Bahia.

A votação expressiva de Flávio em Luís Eduardo Magalhães merece ser observada dentro desse conjunto. A cidade reúne uma base produtiva ligada ao campo, uma rede de pequenos negócios e lideranças que associam esses resultados às bandeiras da direita.

O antigo ponto de parada na rodovia tornou-se um lugar onde milhares de pessoas passaram a enxergar possibilidades de trabalhar, investir e permanecer. Compreender como essas expectativas chegam às urnas ajuda a explicar por que o mapa político da Bahia apresenta diferenças tão marcantes dentro de suas próprias fronteiras.

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