Fim da Moratória da Soja pode colocar em risco US$ 8,2 bilhões em serviços ambientais

Estimativa da WWF-Brasil aponta que a expansão do desmatamento na Amazônia pode comprometer chuvas, energia e recursos biológicos essenciais à economia

O fim da Moratória da Soja pode provocar perdas de pelo menos US$ 8,2 bilhões em serviços ambientais na próxima década, segundo projeção da WWF-Brasil. O valor representa possíveis danos econômicos provocados pelo avanço do desmatamento sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica e a biodiversidade amazônica.

A estimativa considera um cenário de supressão de aproximadamente 1,4 milhão de hectares de floresta, apresentado por pesquisadores em estudo publicado na revista científica Science. A partir dessa projeção territorial, a organização calculou quanto a sociedade deixaria de receber em benefícios proporcionados pela vegetação preservada. Esses benefícios incluem a formação de chuvas, a manutenção da vazão dos rios, o equilíbrio climático, a polinização de culturas e o potencial da biodiversidade para o desenvolvimento de medicamentos e novas tecnologias.

Redução das chuvas pode atingir diretamente as lavouras

A agricultura responderia por cerca de US$ 831,6 milhões das perdas previstas. O prejuízo está associado à redução da umidade produzida e transportada pela Floresta Amazônica para diferentes regiões do país.

Para chegar ao valor, a WWF-Brasil utilizou como referência uma pesquisa publicada na revista Nature Communications Earth & Environment. O estudo estima que cada hectare de floresta amazônica contribua para a formação de 3 milhões de litros de chuva por ano.

Esse volume de água representa um serviço natural de irrigação avaliado em aproximadamente US$ 59,40 por hectare anualmente. Sem essa contribuição, propriedades rurais podem enfrentar maior necessidade de irrigação artificial, aumento dos custos produtivos e maior exposição a períodos de estiagem.

Tiago Reis, especialista em Conservação da WWF-Brasil, destaca que uma parcela importante dessa conta tende a recair sobre o produtor rural, especialmente em regiões dependentes da regularidade das chuvas para manter a produtividade.

Fim da Moratória da Soja também pressiona o setor elétrico

A diminuição da cobertura florestal também poderia gerar perdas entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões na geração de energia.

A floresta participa da formação dos chamados rios voadores, fluxos atmosféricos responsáveis pelo transporte de umidade da Amazônia para outras áreas do Brasil. Quando esse sistema é enfraquecido, há risco de redução das chuvas que abastecem importantes bacias hidrográficas.

A projeção utilizou uma metodologia do Climate Policy Initiative, desenvolvida em 2025 para medir a relação entre a conservação da Amazônia e a disponibilidade de água para usinas hidrelétricas.

A análise considera empreendimentos como Itaipu, Belo Monte e Jirau. Uma menor vazão nos rios pode reduzir a capacidade de geração dessas usinas e aumentar a dependência de fontes energéticas mais caras.

Biodiversidade concentra a maior parcela das perdas

Dos US$ 8,2 bilhões estimados, aproximadamente US$ 7 bilhões estão relacionados à destruição da biodiversidade.

A floresta reúne plantas, animais, fungos e microrganismos que podem contribuir para pesquisas farmacêuticas, produção de novos medicamentos, desenvolvimento de biotecnologias, melhoramento genético e adaptação às mudanças climáticas.

O cálculo também considera atividades naturais fundamentais para a economia, como polinização, controle biológico de pragas, estabilidade dos ecossistemas e regulação dos ciclos de água e carbono.

A metodologia foi baseada em um estudo publicado na Science em 2025. Segundo a WWF-Brasil, a estimativa utiliza principalmente recursos da biodiversidade que já possuem alguma aplicação comercial conhecida.

Por isso, o valor é considerado conservador. Espécies, substâncias e soluções que ainda não foram descobertas pela ciência não entraram na conta.

Estimativa não inclui exportações nem créditos de carbono

O prejuízo real pode ser superior ao projetado porque algumas consequências econômicas ficaram fora do levantamento.

A análise não calculou quanto o Brasil poderia deixar de exportar caso compradores internacionais adotassem restrições à soja produzida em áreas associadas ao desmatamento.

Também não foram contabilizadas possíveis receitas com créditos de carbono gerados pela conservação da floresta. De acordo com Tiago Reis, esse mercado foi excluído devido às diferenças de preço, certificação e metodologia existentes entre os projetos.

Dessa forma, os US$ 8,2 bilhões representam apenas os serviços ambientais que puderam ser avaliados com base em estudos econômicos já publicados.

Moratória gerou US$ 10,27 bilhões em benefícios

Os pesquisadores também avaliaram os resultados econômicos alcançados durante os primeiros anos do acordo.

Entre 2006 e 2016, a Moratória da Soja teria proporcionado US$ 10,27 bilhões em benefícios diretos e mensuráveis, principalmente pela manutenção de áreas florestais e dos serviços ambientais ligados a elas.

Criado em 2006, o compromisso restringiu a compra de soja cultivada em áreas da Amazônia desmatadas após a data estabelecida pelo acordo. A iniciativa passou a funcionar como um mecanismo privado de controle socioambiental na cadeia produtiva.

Fim da Moratória da Soja pode ampliar riscos econômicos

A projeção considera que cada hectare desmatado provocaria uma parcela proporcional de perdas. No entanto, não inclui a possibilidade de a Amazônia ultrapassar um ponto de não retorno.

Esse cenário ocorre quando as alterações na vegetação, na temperatura e no regime de chuvas se tornam intensas a ponto de impedir que a floresta mantenha sua estrutura e suas funções ecológicas atuais.

Caso esse limite seja alcançado, os impactos podem deixar de ocorrer de maneira gradual. Entre os riscos estão quebras mais severas de produtividade, escassez hídrica, redução da geração elétrica e desequilíbrios ambientais com efeitos em cadeia.

O levantamento indica, portanto, que o debate sobre o fim da Moratória da Soja não se limita ao uso da terra. A preservação da floresta está diretamente relacionada à competitividade do agronegócio, à segurança energética e à estabilidade econômica do país.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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