Fezes podem revelar quais bois transformam pasto em carne com mais eficiência, mostra pesquisa

Estudo da Embrapa com 100 tourinhos Nelore encontrou 62 microrganismos associados a diferenças na eficiência alimentar e abre caminho para usar a microbiota fecal como uma nova fonte de informação na seleção de bovinos

Uma amostra de fezes pode guardar pistas sobre por que alguns bois Nelore aproveitam melhor o alimento do que outros. Pesquisa conduzida pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), acompanhou 100 tourinhos e identificou diferenças na microbiota fecal relacionadas à eficiência alimentar, ao ganho de peso e a características de carcaça. No total, a instituição relata 62 microrganismos associados a variações no Consumo Alimentar Residual (CAR), indicador usado para avaliar quanto um bovino consome em relação ao que seria esperado para seu peso e desempenho.

A descoberta não significa que a genética deixou de ser determinante nem que já seja possível escolher um reprodutor apenas enviando fezes para um laboratório. O que os resultados mostram é que a comunidade de microrganismos do trato gastrointestinal pode acrescentar uma nova camada de informação às avaliações tradicionais, ajudando a entender por que animais geneticamente selecionados e submetidos a condições semelhantes ainda apresentam diferenças de aproveitamento do alimento.

Como as fezes podem ajudar a identificar bois Nelore mais eficientes

O trabalho começou com animais recém-desmamados que participavam de uma prova de qualidade de carne em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Segundo a Embrapa, os tourinhos possuíam avaliação genética favorável: eram DECA 1 para peso ao sobreano e tinham classificação mínima DECA 4 para acabamento e área de olho de lombo. DECA 1 corresponde ao grupo dos 10% superiores da população avaliada para determinada característica ou índice.

Os bovinos permaneceram 12 meses em recria a pasto. A suplementação variou de acordo com a estação, com sal proteinado nas águas e silagem na seca, conforme o protocolo divulgado pela instituição.

As amostras de fezes foram obtidas em três momentos: após os primeiros seis meses de recria, no encerramento da seca; depois de outros seis meses no pasto, ao fim do período das águas; e novamente quando os animais concluíram a fase de confinamento. A partir dessas amostras, os pesquisadores analisaram o DNA microbiano e compararam a composição da microbiota com características medidas nos bovinos.

O resultado mais diretamente ligado à eficiência alimentar apareceu no CAR. Trinta microrganismos foram associados ao indicador somente na coleta feita no fim da seca e 62 foram relacionados às diferenças no CAR quando considerados os três períodos, segundo a Embrapa. Também foram encontradas associações com ganho de peso, espessura de gordura, área de olho de lombo, maciez da carne e reatividade dos bovinos.

Esses números indicam que a microbiota pode contribuir para explicar diferenças de desempenho, mas não significam que cada um desses microrganismos tenha efeito causal comprovado sobre o animal.

O que é Consumo Alimentar Residual e por que ele importa

O CAR compara o consumo real do bovino com o consumo esperado para seu tamanho corporal e desempenho. Em termos práticos, animais de CAR mais baixo ou negativo tendem a consumir menos alimento do que o previsto para entregar determinado nível de produção.

A lógica interessa diretamente ao pecuarista: dois animais podem apresentar ganho de peso semelhante, mas um deles exigir quantidade menor de matéria seca para chegar ao mesmo resultado.

Por isso, a eficiência alimentar já integra provas de desempenho e programas de melhoramento de bovinos. No Nelore, avaliações de consumo individual passaram a ser utilizadas ao lado de características como ganho médio diário, acabamento e área de olho de lombo. Experimentos com desempenho e eficiência alimentar do Nelore Pintado e avaliações de touros Nelore selecionados por eficiência alimentar ilustram como o indicador vem ganhando espaço no melhoramento da raça.

A novidade da pesquisa da Embrapa está em investigar se informações presentes na microbiota podem complementar essas medições.

Seca apresentou maior diversidade microbiana

Um dos achados mais curiosos apareceu justamente quando a qualidade da forragem tende a se tornar mais desafiadora. A Embrapa registrou diversidade bacteriana maior no período seco do que nas coletas feitas ao final das águas e do confinamento.

A explicação apresentada pela coordenadora do estudo, a pesquisadora Luciana Correia de Almeida Regitano, está relacionada à maior presença de fibra na dieta. Determinados grupos microbianos participam da degradação dessa fibra e da formação de ácidos graxos utilizados pelo ruminante como fonte de energia.

O resultado também evidencia por que a microbiota não deve ser analisada fora do contexto produtivo. Dieta, época do ano, manejo, ambiente e genética do hospedeiro podem alterar a composição da comunidade microbiana.

Um trabalho científico anterior com bovinos Bos indicus mostrou justamente que dieta, microbiomas ruminal e fecal e características produtivas estão interligados. Os pesquisadores observaram diferenças na composição microbiana conforme a alimentação e associações com eficiência alimentar e emissão de metano.

Genética continua tendo peso central

A possibilidade de usar microrganismos como indicadores não reduz a importância do melhoramento genético.

Uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em julho de 2026 avaliou a interação entre genética do hospedeiro e microbiota gastrointestinal em Nelore. Os resultados apontaram influência genética moderada a elevada sobre os fenótipos estudados, enquanto a chamada microbiabilidade — parcela da variação fenotípica associada à microbiota — apresentou magnitude menor, embora mais relevante para algumas características ligadas ao consumo, deposição de gordura, morfologia e temperamento.

Esse resultado é importante para evitar uma interpretação simplificada da nova pesquisa. O animal eficiente não é resultado apenas da genética nem apenas dos microrganismos que carrega. O desempenho surge da interação entre genoma, microbiota, nutrição, ambiente e manejo.

Na prática, portanto, informações microbiológicas tendem a ser complementares às ferramentas já utilizadas em programas de seleção.

Essa lógica também aparece em trabalhos voltados à seleção de Nelore com foco em eficiência alimentar, nos quais consumo, ganho de peso, características de carcaça e avaliação genética são analisados em conjunto.

Coletar fezes é mais simples do que acessar o rúmen

Um dos principais atrativos científicos da microbiota fecal é operacional.

A obtenção de material diretamente do rúmen exige procedimentos mais complexos. Já a coleta fecal pode ser feita de maneira menos invasiva e tende a ser mais compatível com avaliações de grandes populações.

Essa vantagem também apareceu em um estudo publicado em 2025 no Journal of Animal Science. Pesquisadores ligados à UFSCar, Embrapa Pecuária Sudeste e outras instituições analisaram amostras fecais de centenas de touros Nelore participantes de provas nacionais de desempenho. Foram coletadas 488 amostras entre 2019 e 2022, com 475 animais permanecendo nas análises após o processamento dos dados.

O trabalho encontrou associações entre variantes microbianas e características como área de olho de lombo e peso metabólico. Os autores destacaram que a coleta fecal oferece potencial para avaliações em maior escala justamente por ser menos complexa do que a amostragem ruminal. Ao mesmo tempo, ressaltaram que são necessárias novas pesquisas para esclarecer os mecanismos biológicos dessas associações.

É nesse ponto que a descoberta ganha relevância prática. Caso biomarcadores fecais sejam futuramente validados em diferentes rebanhos, dietas e ambientes, eles poderão fornecer informações adicionais sem exigir que todos os animais passem por métodos mais trabalhosos de amostragem.

Fezes podem revelar quais bois transformam pasto em carne com mais eficiência, mostra pesquisa
Photo: Produzido com IA Imagem mostra resumo do estudo

Pesquisa ainda não criou um “teste de fezes” para escolher o melhor boi

Apesar do potencial, o estudo não deve ser interpretado como o lançamento de uma ferramenta comercial pronta.

A identificação de uma associação estatística entre determinado microrganismo e CAR não significa automaticamente que aumentar ou reduzir aquele organismo produzirá um bovino mais eficiente.

Primeiro, é necessário verificar se os mesmos padrões aparecem em populações maiores, em diferentes regiões e sob dietas distintas. Depois, é preciso entender quais microrganismos têm participação funcional no fenômeno e quais apenas acompanham outras mudanças provocadas pelo ambiente, pela alimentação ou pelo próprio animal.

Esse cuidado é especialmente relevante porque trabalhos recentes mostram que a microbiota fecal varia e responde a diferentes condições. Portanto, um possível biomarcador precisaria manter capacidade preditiva mesmo fora do ambiente experimental em que foi descoberto.

O desafio agora é levar a avaliação para o pasto

A pesquisa ganha importância adicional porque grande parte da pecuária brasileira ocorre em sistemas de pastejo.

Segundo a própria Embrapa, cerca de 90% da produção brasileira de carne bovina ocorre em sistemas a pasto, e um dos próximos desafios científicos é medir com maior precisão a eficiência alimentar nessas condições.

No confinamento, equipamentos de consumo individual permitem registrar quanto cada animal ingeriu. No pasto, saber com precisão o consumo individual é muito mais difícil.

Se, no futuro, padrões identificados nas fezes puderem contribuir para estimar eficiência nessas condições, a tecnologia poderá complementar ferramentas que hoje dependem de estruturas específicas de mensuração.

Ainda será necessário demonstrar que o sinal microbiano permanece confiável diante das grandes variações de pastagem, suplementação, clima e manejo encontradas nas fazendas brasileiras.

Microrganismos podem abrir outra frente: nutrição de precisão

A utilidade da pesquisa não se limita à escolha de animais.

A Embrapa aponta que o conhecimento acumulado sobre esses microrganismos poderá ajudar, futuramente, no desenvolvimento de prebióticos, probióticos ou outros aditivos destinados a modular a microbiota e melhorar o aproveitamento dos alimentos.

Essa aplicação é mais complexa do que simplesmente identificar um organismo associado à eficiência. Para que uma intervenção nutricional funcione, é necessário demonstrar que a alteração da comunidade microbiana produz efeito consistente no desempenho do animal, sem comprometer saúde, qualidade da carne ou outros aspectos produtivos.

Pesquisas anteriores com Nelore já encontraram relações entre microbioma, eficiência alimentar e emissão de metano, reforçando que o tema pode ter reflexos econômicos e ambientais. Isso não permite afirmar que um determinado perfil fecal necessariamente reduzirá emissões, mas mostra que aproveitamento de alimento e metabolismo microbiano estão conectados.

O que muda para o pecuarista neste momento

No curto prazo, a descoberta não altera os critérios básicos de seleção do rebanho. Avaliações genéticas, provas de desempenho, consumo alimentar, ganho de peso, fertilidade, adaptação, características de carcaça e manejo continuam sendo os principais instrumentos disponíveis.

A contribuição do estudo está em mostrar que existe outra fonte de informação que pode ser incorporada no futuro.

A coleta de fezes reúne duas características importantes: é relativamente simples e contém sinais de uma comunidade microbiana diretamente envolvida na digestão e no metabolismo do animal.

Transformar esses sinais em uma ferramenta confiável de seleção ainda dependerá de validação científica. Mas, se os resultados forem reproduzidos em larga escala, aquilo que hoje é visto apenas como resíduo poderá se tornar mais um conjunto de dados para identificar animais capazes de produzir carne utilizando os recursos alimentares de maneira mais eficiente.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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