Ferrugem asiática ameaça 90% da soja e RS aposta em inteligência artificial contra perdas

Com 100 pontos de monitoramento e novas tecnologias, o Rio Grande do Sul reforça a vigilância contra uma das doenças mais devastadoras da soja, buscando antecipar riscos, proteger a produtividade e reduzir prejuízos na safra 2026/2027.

A ferrugem asiática da soja, considerada uma das doenças mais severas da cultura, está no centro de uma nova estratégia de vigilância fitossanitária no Rio Grande do Sul. Para a safra 2026/2027, o Estado ampliou sua estrutura de monitoramento para 100 pontos de coleta, incorporando novos equipamentos, ferramentas de inteligência artificial e informações meteorológicas para antecipar condições favoráveis à disseminação do fungo. A iniciativa pretende oferecer aos produtores dados mais precisos para proteger a produtividade e melhorar a eficiência do manejo nas lavouras.

O avanço tecnológico ocorre diante de um risco conhecido no campo. Causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, a ferrugem asiática pode provocar perdas de produtividade de até 90% em situações severas e sem controle adequado, segundo a Embrapa. Embora esse percentual represente cenários extremos, ele demonstra o potencial destrutivo da doença e a importância de identificar riscos antes que a infecção comprometa o desenvolvimento das plantas.

Inteligência artificial reforça o monitoramento da ferrugem asiática

Coordenado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e pela Emater/RS-Ascar, o Programa Monitora Ferrugem RS inicia uma nova etapa tecnológica.

A rede, que começou na safra 2019/2020 com acompanhamento em 24 municípios, agora dispõe de 100 pontos de coleta distribuídos pelo território gaúcho, ampliando a capacidade de vigilância em importantes regiões produtoras de soja.

A principal inovação está na incorporação de inteligência artificial como ferramenta de apoio à identificação de esporos do fungo. A tecnologia busca auxiliar o trabalho de análise realizado pelos laboratórios parceiros, contribuindo para o acompanhamento da presença do patógeno nas regiões produtoras.

Outra novidade em desenvolvimento é o envio de informações diretamente aos celulares dos agricultores e profissionais da assistência técnica, permitindo que os resultados do monitoramento cheguem de maneira mais acessível ao campo.

O programa também contará com uma nova página para divulgação dos dados. As ferramentas de inteligência artificial e os alertas por mensagens ainda estão em desenvolvimento e não devem ser tratados como serviços integralmente disponíveis.

Como funciona o monitoramento nas lavouras

A estratégia combina a coleta de esporos presentes no ambiente com informações meteorológicas, permitindo avaliar a circulação do fungo e as condições favoráveis ao desenvolvimento da doença.

Os primeiros equipamentos foram instalados em 5 de outubro, quando também ocorreu a colocação das lâminas utilizadas na captura dos esporos.

O procedimento segue um cronograma semanal: as lâminas são substituídas às segundas-feiras e encaminhadas aos laboratórios parceiros para análise. A previsão é que as coletas continuem até 8 de março de 2027.

O trabalho envolve instituições de pesquisa, universidades e órgãos públicos, incluindo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a Emater e o Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Seapi.

Na região administrativa de Santa Rosa, importante polo agrícola do Estado, foram instalados 11 coletores. A área deverá cultivar mais de 784,5 mil hectares de soja na temporada 2026/2027.

Por que a ferrugem asiática preocupa tanto o produtor?

O maior perigo da ferrugem asiática está na capacidade de evolução da doença quando encontra condições ambientais favoráveis.

A infecção provoca lesões nas folhas, compromete a atividade fotossintética e pode acelerar a desfolha das plantas. Em casos mais graves, prejudica a formação e o enchimento dos grãos, reduzindo diretamente o rendimento por hectare.

Além das perdas físicas, o produtor enfrenta impactos econômicos associados ao controle da doença, como o custo de fungicidas, operações de pulverização e necessidade de acompanhamento técnico.

Outro desafio é a redução da sensibilidade do fungo a determinados grupos de fungicidas, fenômeno que exige estratégias de manejo criteriosas, incluindo a combinação de mecanismos de ação e o respeito às recomendações técnicas.

O impacto econômico não depende apenas da intensidade da doença, mas também do momento em que ela aparece na lavoura e da eficiência das medidas adotadas.

Uma infecção que se estabelece precocemente e encontra condições favoráveis pode comprometer uma parcela expressiva da produção, especialmente quando não existe um programa eficiente de manejo preventivo.

Dados meteorológicos podem ajudar a antecipar riscos

Uma das características mais relevantes do programa gaúcho é a integração com o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS).

A plataforma disponibiliza informações meteorológicas diárias que são utilizadas na elaboração de prognósticos sobre condições favoráveis à ocorrência da ferrugem asiática.

Essa integração é importante porque a evolução da doença está relacionada a fatores como umidade, temperatura, presença de inóculo e estágio de desenvolvimento da cultura.

Na prática, a combinação de dados pode auxiliar o produtor e o responsável técnico a identificar períodos de maior atenção e organizar o monitoramento da lavoura.

Entretanto, a detecção de esporos não significa, necessariamente, que uma determinada lavoura esteja infectada. Da mesma forma, a ausência de detecção em um coletor não garante ausência de risco nas propriedades próximas.

Por isso, os resultados precisam ser interpretados em conjunto com as condições locais, o histórico da área e as recomendações agronômicas.

O que muda no manejo da soja com o avanço da tecnologia?

A ampliação do monitoramento representa uma oportunidade de tornar as decisões fitossanitárias mais fundamentadas em dados.

Para o produtor, o principal benefício potencial é contar com informações regionais que ajudem a orientar a vigilância e o planejamento das aplicações, evitando decisões baseadas exclusivamente em calendários fixos ou na ocorrência de sintomas em propriedades vizinhas.

O uso dessas informações deve complementar práticas já consolidadas, como:

  • Respeitar o vazio sanitário e o calendário oficial de semeadura.
  • Acompanhar regularmente as condições sanitárias da lavoura.
  • Utilizar fungicidas registrados, conforme orientação técnica e estratégias de manejo da resistência.
  • Considerar o histórico regional da doença e as condições meteorológicas.
  • Consultar os dados dos sistemas oficiais de monitoramento.

O Ministério da Agricultura mantém o Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja, que estabelece medidas fitossanitárias para reduzir a sobrevivência do fungo entre safras e contribuir para a eficiência do controle.

Tecnologia ganha importância para a competitividade da soja brasileira

O investimento do Rio Grande do Sul reflete uma tendência mais ampla da agricultura brasileira: transformar dados coletados no campo em informações capazes de apoiar decisões econômicas e operacionais.

Em uma atividade de margens pressionadas por custos de produção, oscilações de preços e riscos climáticos, a eficiência do manejo fitossanitário tem influência direta sobre a rentabilidade.

A possibilidade de identificar antecipadamente condições de risco, integrar análises laboratoriais e disponibilizar informações por meios digitais pode contribuir para uma gestão mais precisa da lavoura.

Entretanto, os resultados dependerão da qualidade dos dados, da velocidade de processamento das análises e da capacidade de transformar os alertas em recomendações tecnicamente consistentes.

A nova estrutura não elimina a necessidade de acompanhamento presencial das áreas cultivadas nem substitui o conhecimento agronômico. O diferencial está em oferecer mais informação ao produtor antes que a doença provoque prejuízos irreversíveis.

Com a rede de 100 pontos de coleta em funcionamento e novas ferramentas em desenvolvimento, o Rio Grande do Sul busca fortalecer a prevenção em uma das atividades mais importantes de sua economia agrícola.

Para a safra 2026/2027, o desafio será demonstrar como essa estrutura poderá melhorar a tomada de decisões e contribuir para a proteção da produtividade nas lavouras gaúchas.

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