Ferraduras pregadas ou coladas: o que realmente muda nos cascos dos cavalos?

Pesquisa publicada em outubro de 2026 revela diferenças na movimentação dos talões e reacende o debate sobre proteção, conforto e saúde dos cascos; especialistas apontam que a escolha depende da técnica, do terreno e das necessidades de cada animal

Uma mudança aparentemente simples na maneira de fixar a ferradura pode alterar o funcionamento dos cascos dos cavalos. Embora a ferragem tradicional com pregos continue sendo amplamente utilizada na equinocultura, os sistemas de fixação por adesivos vêm ampliando as possibilidades de manejo, especialmente em animais com paredes do casco fragilizadas, necessidades ortopédicas ou exigências específicas de desempenho.

A questão, entretanto, vai muito além de substituir pregos por cola. A forma como a ferradura é fixada interfere na movimentação natural do casco, principalmente na região dos talões, estruturas que participam da distribuição das forças durante o apoio do membro no solo.

Um estudo publicado em 11 de outubro de 2026, na revista científica Equine Veterinary Journal, trouxe novos elementos para essa discussão. A pesquisa, conduzida por uma equipe vinculada à Virginia Tech, nos Estados Unidos, comparou ferraduras tradicionais pregadas, modelos colados e cascos sem ferraduras. Os resultados demonstraram que, em determinadas condições, as ferraduras coladas permitiram maior movimentação dos talões do que as pregadas.

Isso não significa, porém, que a ferradura colada seja necessariamente melhor para todos os animais. O tipo de adesivo, o desenho da ferradura, as condições do casco e a finalidade do ferrageamento podem modificar completamente o resultado.

Para o criador brasileiro, que trabalha com cavalos de esporte, reprodução, lazer ou lida diária nas fazendas, compreender essas diferenças ajuda a tomar decisões mais seguras e a evitar problemas que podem comprometer a saúde locomotora e o desempenho dos animais.

O que acontece dentro do casco quando o cavalo pisa no chão?

O casco equino não é uma estrutura completamente rígida. Ele possui capacidade de deformação e adaptação às forças que recebe durante o deslocamento.

Quando o animal apoia o membro no solo, ocorrem pequenas mudanças na conformação do casco, incluindo movimentos na região dos talões. Essa dinâmica participa do funcionamento mecânico do pé, contribuindo para a dissipação de forças e para a função vascular das estruturas internas.

É justamente nesse mecanismo que o ferrageamento pode exercer influência.

Ao fixar uma ferradura na parede do casco, cria-se uma conexão mecânica entre o estojo córneo e um elemento de proteção. Dependendo de como essa ligação é feita, parte da movimentação natural pode ser restringida.

Isso não torna o ferrageamento prejudicial por definição. Afinal, as ferraduras desempenham funções importantes, como proteger contra o desgaste excessivo, melhorar a interação com determinados terrenos e oferecer suporte em situações terapêuticas.

O desafio é encontrar o equilíbrio entre a proteção necessária e a preservação das funções naturais do casco.

Esse tema já havia sido abordado pelo Compre Rural na reportagem sobre ferraduras e protetores alternativos para cavalos, que discutiu as diferenças entre a ferragem tradicional, as botas de casco e a manutenção de animais descalços.

Pesquisa compara ferraduras pregadas, coladas e cavalos sem ferraduras

O trabalho publicado em outubro de 2026, intitulado Heel movement and foot biomechanics in aluminium nail-on and indirect glue-on fabric cuff shoes in horses, avaliou 15 cavalos saudáveis, de diferentes raças e modalidades.

Os pesquisadores compararam três situações: cascos sem ferraduras, ferraduras de alumínio fixadas com pregos e ferraduras de alumínio coladas por um sistema indireto, com uma estrutura de tecido aderida à parede do casco.

A movimentação dos talões foi medida por sensores durante o passo e o trote, em superfícies de asfalto e piso macio de arena.

Os números obtidos no asfalto chamaram atenção.

Durante o trote, a movimentação média dos talões foi de:

  • 3,29 milímetros nos cavalos sem ferraduras;
  • 2,56 milímetros com ferraduras coladas;
  • 2,12 milímetros com ferraduras pregadas.

No passo, também sobre o asfalto, as médias foram de 3,03 mm nos animais descalços, 2,23 mm com ferraduras coladas e 1,96 mm com ferraduras pregadas.

A diferença entre as duas modalidades de ferrageamento foi estatisticamente significativa durante o trote no asfalto, mas não durante o passo.

Em pisos macios, os resultados não permitiram estabelecer uma diferença estatisticamente significativa entre os sistemas, principalmente pelas limitações na coleta das medições.

O resultado mais importante é que ambos os tipos de ferradura restringiram a movimentação dos talões em comparação aos cascos descalços, mas a intensidade dessa restrição variou conforme o método de fixação e as condições avaliadas.

Há uma ressalva fundamental: o estudo mediu o deslocamento entre os talões, mas não conseguiu distinguir completamente os movimentos de expansão e contração durante cada passada. Tampouco demonstrou diretamente diferenças na circulação sanguínea, na incidência de lesões ou na longevidade esportiva.

Portanto, os resultados representam uma evidência biomecânica relevante, e não uma comprovação de superioridade clínica de um sistema sobre o outro.

Ferraduras pregadas prejudicam os cascos dos cavalos?

Uma das dúvidas mais frequentes entre proprietários é se os pregos utilizados no ferrageamento provocam dor ou comprometem a saúde do casco.

Quando a ferragem é executada corretamente, os pregos atravessam a porção insensível da parede do casco, sem atingir as estruturas vivas e sensíveis. Portanto, o procedimento não deve causar dor ao animal.

O problema surge quando a colocação é inadequada, os pregos ficam próximos demais dos tecidos sensíveis ou o casco apresenta condições que dificultam uma fixação segura.

Nessas situações, podem ocorrer desconforto, claudicação, inflamação e até lesões associadas à penetração de estruturas sensíveis.

Outro aspecto envolve a distribuição dos pontos de fixação.

Um estudo publicado em 2023, na revista científica Animals, por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Davis, investigou como diferentes posições dos pregos interferem na deformação do casco.

Utilizando membros equinos em condições experimentais de laboratório, a equipe observou que pregos posicionados mais próximos da região posterior do casco restringiram a expansão dos talões e modificaram padrões de deformação da parede córnea.

Esses resultados reforçam uma questão essencial: não basta escolher uma ferradura adequada. A técnica utilizada para prendê-la também influencia o comportamento mecânico do casco.

Por outro lado, a ferradura pregada continua apresentando vantagens operacionais importantes, como a possibilidade de ajustes específicos, a familiaridade dos profissionais com o sistema e a ampla utilização em diferentes modalidades.

Ferraduras coladas eliminam os riscos dos pregos, mas exigem outros cuidados

As ferraduras coladas dispensam os pregos como mecanismo principal de fixação, utilizando adesivos específicos para unir o dispositivo ao casco.

Existem sistemas de colagem direta, nos quais a ferradura é aderida à superfície inferior do casco, e de colagem indireta, nos quais abas ou estruturas auxiliares são fixadas à sua parede externa.

Também existem diferentes materiais e composições, incluindo dispositivos metálicos, polímeros e materiais compostos.

Uma das principais vantagens é evitar novas perfurações na parede do casco, condição especialmente interessante quando há dificuldade para realizar uma ferragem tradicional.

Isso não significa que qualquer casco danificado esteja apto a receber adesivos. A colagem precisa encontrar uma superfície com resistência suficiente para manter a fixação sem provocar novos problemas.

Além disso, a própria aplicação exige cuidados técnicos.

O casco precisa ser preparado corretamente, com remoção de sujeira e resíduos, controle da umidade e ajuste adequado do dispositivo.

A utilização incorreta do adesivo, a escolha inadequada do produto ou a remoção agressiva da ferradura podem comprometer a integridade da parede córnea.

Colar uma ferradura não significa simplesmente aplicar cola sobre o casco. Trata-se de um procedimento técnico que exige conhecimento de anatomia, materiais e ferrageamento.

Recentemente, o Compre Rural mostrou um sistema de ferradura com supercola que dispensa pregos, utilizando um adesivo à base de cianoacrilato desenvolvido para uma aplicação específica.

Essas soluções ajudam a demonstrar a evolução tecnológica do setor, mas não devem ser confundidas com a utilização indiscriminada de colas domésticas ou produtos sem indicação para uso em equinos.

Nem toda ferradura colada produz o mesmo efeito: estudos mostram diferenças

Um ponto relevante da literatura científica é que as vantagens biomecânicas dependem do desenho do dispositivo.

Em 2010, um estudo publicado no Equine Veterinary Journal, realizado com sete cavalos Puro-Sangue Inglês, verificou que um sistema de ferraduras de alumínio coladas restringiu a movimentação dos talões em comparação às ferraduras pregadas em várias condições de deslocamento.

Já uma pesquisa de 2022, publicada no Journal of Equine Veterinary Science, analisou outros modelos colados, incluindo ferraduras flexíveis de poliuretano.

Nesse caso, os pesquisadores não encontraram diferenças significativas na movimentação total dos talões entre as ferraduras flexíveis coladas e as convencionais pregadas nas condições avaliadas.

A comparação entre esses trabalhos e o estudo de 2026 aponta para uma conclusão importante.

Não é a presença ou ausência de pregos, isoladamente, que determina o comportamento biomecânico do casco. O material, a geometria da ferradura e os pontos de ligação com a parede córnea também importam.

Uma ferradura colada que envolva rigidamente determinadas regiões do casco pode apresentar comportamento diferente de outra com estrutura mais flexível e áreas de fixação distintas.

Por isso, generalizações sobre maior conforto, melhor circulação ou menor impacto precisam ser interpretadas com cautela.

Em quais situações a ferradura colada pode ser vantajosa?

Na prática veterinária, as ferraduras coladas podem representar uma alternativa útil quando a fixação tradicional encontra limitações.

Entre as situações que podem justificar sua avaliação estão cascos com perda importante de parede córnea, determinadas rachaduras, separações da parede e necessidades específicas de ferrageamento terapêutico.

Em alguns casos de laminite, alterações estruturais e outras afecções podais, dispositivos colados também podem integrar estratégias de tratamento.

Entretanto, essas condições exigem avaliação individualizada. Uma ferradura capaz de limitar determinados movimentos pode ser desejável em um tratamento que necessite de estabilização mecânica, mas inadequada para outra finalidade.

Maior flexibilidade nem sempre significa melhor resultado terapêutico. Em determinadas lesões, controlar a deformação do casco pode fazer parte do tratamento.

A escolha precisa considerar o diagnóstico, a distribuição das cargas, a qualidade da parede córnea e a possibilidade de acompanhamento durante a recuperação.

Nessas situações, a integração entre médico-veterinário e ferrador qualificado torna-se particularmente importante.

Chuva, lama e calor: o desafio das ferraduras coladas no Brasil

As condições ambientais brasileiras acrescentam uma variável decisiva à discussão.

Em regiões com períodos prolongados de chuva, pastagens encharcadas e instalações com presença frequente de lama, a preparação da superfície de colagem pode se tornar mais trabalhosa.

A umidade interfere na aderência de diversos sistemas adesivos. Por isso, a limpeza, a secagem e o respeito às recomendações de cada fabricante são etapas fundamentais para uma aplicação confiável.

Temperaturas elevadas também podem alterar o tempo de trabalho e de cura de determinados produtos.

Isso significa que um sistema que apresente bons resultados em condições controladas pode exigir cuidados adicionais quando utilizado em propriedades rurais com elevada umidade ou variações intensas de temperatura.

O mesmo raciocínio vale para cavalos que trabalham diariamente em pastagens, terrenos pedregosos, estradas rurais ou ambientes com grande presença de areia e cascalho.

A resistência da fixação precisa ser compatível com o tipo de terreno, o peso suportado e a intensidade de utilização do animal.

Outro fator é a disponibilidade de mão de obra especializada.

Enquanto a ferragem tradicional é amplamente conhecida, determinados modelos colados podem exigir treinamento específico, materiais próprios e procedimentos de manutenção diferentes.

Assim, antes de escolher a tecnologia, o proprietário deve considerar não apenas o custo inicial, mas também a facilidade de acompanhamento, a necessidade de reaplicação e a disponibilidade de assistência profissional na região.

Qual ferradura oferece melhor aderência e segurança durante o trabalho?

A aderência ao terreno é outro aspecto importante, principalmente para animais submetidos a acelerações, frenagens, curvas e deslocamentos prolongados.

Entretanto, não é possível afirmar que ferraduras coladas sempre oferecem maior segurança do que as pregadas.

A interação com o solo depende principalmente das características da superfície de contato, do material e do desenho do dispositivo.

Um estudo de 2025, publicado na revista Sensors, avaliou a resistência ao movimento rotacional em diferentes combinações de proteção dos cascos e superfícies.

Naquelas condições experimentais, dois modelos colados apresentaram maior resistência rotacional média do que a condição sem ferraduras.

Embora os resultados contribuam para a compreensão da tração, eles não demonstram, por si só, redução de quedas ou lesões durante atividades reais.

Há ainda uma distinção importante: mais aderência nem sempre representa menor risco biomecânico, porque o movimento de rotação do casco durante determinadas manobras também precisa ser considerado.

Para modalidades como tambor, laço, rédeas, enduro, vaquejada e trabalho em fazendas, a escolha exige atenção às particularidades de cada atividade e aos pisos utilizados.

A manutenção correta pode ser mais importante do que a ferradura escolhida

Independentemente do sistema de fixação, a saúde dos cascos depende de uma rotina consistente de cuidados.

O crescimento contínuo da parede córnea modifica gradualmente a relação entre casco, ferradura e apoio no solo.

Com o passar das semanas, uma ferradura inicialmente bem ajustada pode perder parte da adequação mecânica, especialmente quando o casqueamento e o acompanhamento são negligenciados.

A Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, orienta que o casqueamento ou ferrageamento seja realizado regularmente, frequentemente em intervalos de aproximadamente seis a oito semanas, com adaptações conforme a estação do ano, o crescimento do casco e as necessidades individuais.

Esse intervalo é uma referência geral, e não uma regra aplicável a todos os animais ou dispositivos.

No caso das ferraduras coladas, o profissional também precisa acompanhar as condições da interface adesiva, verificando possíveis descolamentos e alterações na parede do casco.

Nas ferraduras pregadas, devem ser observados o ajuste da ferradura, a integridade dos pontos de fixação e eventuais sinais de desconforto.

Entre os sinais que exigem atenção estão mudanças na maneira de caminhar, sensibilidade após a ferragem, calor anormal no casco, aumento do pulso digital e alterações visíveis na parede córnea.

Claudicação após o ferrageamento não deve ser considerada normal ou simplesmente atribuída a uma fase de adaptação. O animal precisa ser avaliado para identificar a causa do desconforto.

O Compre Rural também já abordou situações relacionadas à conformação dos cascos, como os cascos encastelados em equinos e os cuidados no ferrageamento.

Afinal, ferraduras pregadas ou coladas: qual é a melhor escolha?

As pesquisas mais recentes mostram que a discussão não pode ser reduzida à ideia de que pregos são prejudiciais e adesivos representam, obrigatoriamente, uma evolução superior.

As ferraduras pregadas permanecem uma ferramenta importante para proteção, desempenho e manejo de equinos, desde que corretamente dimensionadas e aplicadas.

Os sistemas colados, por sua vez, ampliam as possibilidades de intervenção, principalmente quando a parede do casco apresenta limitações para receber pregos ou quando determinadas características biomecânicas e terapêuticas justificam sua utilização.

O estudo publicado em outubro de 2026 acrescenta uma informação relevante: um modelo específico de ferradura colada permitiu maior movimentação dos talões durante o trote no asfalto do que a ferradura de alumínio pregada, embora ambos tenham restringido esse movimento em relação ao casco descalço.

Mas preservar maior movimentação em uma condição experimental não significa, automaticamente, que o animal terá menos lesões, maior conforto ou melhor desempenho ao longo da vida.

Para os criadores brasileiros, a principal conclusão é que a melhor ferradura não é necessariamente a mais moderna, a mais rígida ou a mais flexível, mas aquela que atende às necessidades do casco sem comprometer sua função e o bem-estar do animal.

Mais do que trocar os pregos pela cola, o avanço está em compreender o comportamento dos cascos, respeitar as particularidades de cada cavalo e utilizar o conhecimento científico para orientar decisões dentro e fora das propriedades rurais.

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