Em uma propriedade de cerca de 2,8 mil hectares, apenas uma pequena parcela foi ocupada pelas estruturas do parque eólico; royalties já representam aproximadamente metade da renda anual do produtor.
Uma fazenda onde gado e gigantescas turbinas eólicas dividem praticamente o mesmo pasto mostra como uma mesma área rural pode produzir muito mais do que carne. No Kansas, nos Estados Unidos, o pecuarista Pete Ferrell encontrou no vento uma segunda atividade capaz de gerar receita sem abandonar a criação de bovinos.
São 50 turbinas instaladas dentro de uma propriedade de 7 mil acres — aproximadamente 2,8 mil hectares. Enquanto os equipamentos produzem eletricidade, os animais continuam utilizando grande parte da área normalmente. O resultado financeiro chama ainda mais atenção: os royalties provenientes da geração eólica representam hoje cerca de metade da renda anual do fazendeiro.
A história ganha relevância justamente por mostrar uma possibilidade cada vez mais estratégica para propriedades rurais: obter uma segunda renda utilizando o mesmo patrimônio, sem necessariamente substituir a produção agropecuária.
Ele chegou a rejeitar as turbinas
O mais curioso é que Ferrell não recebeu a proposta com entusiasmo.
Na década de 1990, quando desenvolvedores demonstraram interesse em instalar turbinas comerciais na propriedade, o pecuarista ficou preocupado com os possíveis impactos sobre a pradaria e, principalmente, com a possibilidade de as estruturas interferirem na criação de gado.
A percepção mudou depois de uma viagem à Califórnia. Em Altamont Pass, ele observou outra propriedade na qual a atividade pecuária continuava sendo realizada ao redor das turbinas.
Era a demonstração prática que faltava.
Depois disso, Ferrell passou a considerar o projeto e recebeu propostas de seis empresas. O contrato acabou sendo fechado com a Greenlight Energy Resources.
50 turbinas e o gado continua no pasto
As máquinas fazem parte do parque eólico Elk River, que entrou em operação comercial em 2005. O empreendimento possui 100 turbinas, sendo que 50 estão instaladas nas terras de Ferrell. As imagens da propriedade mostram bovinos pastando entre as estruturas eólicas.
O parque possui capacidade total de 150 megawatts, com 100 equipamentos de 1,5 MW cada.
Apesar das dimensões das turbinas, a área efetivamente retirada da produção é relativamente pequena.
Segundo as informações apresentadas no caso, cerca de 50 acres — aproximadamente 20 hectares — ficaram indisponíveis para o pastejo devido às bases das turbinas, estradas e demais estruturas.
Isso equivale a menos de 1% dos aproximadamente 2,8 mil hectares da propriedade.
Na prática, Ferrell conseguiu combinar duas atividades econômicas sobre praticamente a mesma base territorial: continua criando bovinos e, paralelamente, recebe pela utilização de parte de suas terras para geração de energia.
O vento passou a representar metade da renda
É nesse ponto que a história se torna ainda mais interessante.
Os pagamentos recebidos pela instalação das turbinas ganharam importância principalmente durante períodos desfavoráveis para a pecuária.
A propriedade está na região de Flint Hills, uma extensa área de pradarias dos Estados Unidos. Em anos de seca, a redução da disponibilidade de pastagem pode afetar diretamente a capacidade de produção e, consequentemente, a renda do pecuarista.
As turbinas, porém, não dependem da chuva para continuar gerando energia.
Conforme relatado no material, os royalties das turbinas representam aproximadamente metade da renda anual de Ferrell.
Por isso, ele passou a enxergar a geração eólica como uma espécie de proteção financeira para os períodos mais difíceis da atividade pecuária.
“Combustível é de graça. Ele simplesmente aparece”, resumiu o produtor ao falar sobre o vento.
A mesma terra passou a gerar duas receitas
A experiência mostra uma característica importante desse modelo: a implantação das turbinas não significa necessariamente retirar toda a propriedade da produção agropecuária.
As estruturas ocupam pontos específicos e exigem acessos, bases e instalações auxiliares. Fora dessas áreas, o restante da fazenda pode continuar sendo utilizado.
No caso de Ferrell, isso significa manter bovinos no campo enquanto a infraestrutura instalada sobre a propriedade gera outra receita.
O parque também produz eletricidade para o sistema regional — não diretamente para as residências da família. O produtor é remunerado pelo arrendamento e pelos contratos ligados ao uso de sua terra.
É uma forma diferente de monetizar um ativo que o produtor já possui: a própria área da fazenda.
Uma oportunidade que também exige análise
O caso norte-americano não significa que qualquer propriedade possa simplesmente receber dezenas de turbinas.
Projetos eólicos dependem de fatores como potencial dos ventos, infraestrutura de transmissão, acesso à rede elétrica, viabilidade econômica, licenciamento ambiental e interesse das empresas geradoras.
Também existem discussões envolvendo impacto visual, ruído, abertura de estradas, linhas de transmissão e possíveis efeitos ambientais.
Ainda assim, a experiência de Ferrell chama atenção pela simplicidade da equação final: uma parcela relativamente pequena da propriedade foi destinada às estruturas, enquanto a pecuária permaneceu ativa e o vento passou a responder por uma fatia relevante da renda familiar.
No fim das contas, as turbinas não substituíram o gado.
Elas transformaram aquilo que antes simplesmente atravessava a fazenda — o vento — em mais uma atividade econômica dentro da porteira.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.