Unidade leiteira no Kansas funciona 24 horas, produz cerca de 22 mil litros de leite por dia e reaproveita até o esterco, mas ainda depende da supervisão constante de trabalhadores
Não há apito, fila organizada nem um horário único para reunir todo o rebanho. Na StateLine Dairy, nos Estados Unidos, cada animal circula livremente pelo galpão e procura uma estação quando sente necessidade de ser ordenhado. Para tornar essa rotina possível, a fazenda treina 600 vacas para utilizarem dez robôs que permanecem disponíveis durante as 24 horas do dia.
Localizada nas proximidades de Morrowville, no estado do Kansas, a unidade pertence à Ohlde Family Farms, empresa familiar iniciada em 1955. Além da produção de leite, a família trabalha com criação de novilhas e cultivo de alimentos destinados aos próprios rebanhos. O que mais chama atenção na propriedade, porém, não é apenas a presença das máquinas. É a forma como animais, equipamentos e trabalhadores passaram a dividir uma atividade que, durante décadas, dependeu de horários rígidos e grande esforço manual.
Como a fazenda treina 600 vacas para procurar os robôs
As vacas não aprenderam a utilizar os equipamentos de um dia para o outro. Durante a implantação do sistema, cada animal passou por aproximadamente cinco dias de treinamento.
Nesse período, os trabalhadores conduziram as vacas até as estações e acompanharam de perto sua adaptação. Aos poucos, a entrada no equipamento deixou de ser uma experiência desconhecida e passou a fazer parte da rotina do rebanho.
Depois da fase inicial, a maioria começou a procurar os robôs espontaneamente. Cada vaca pode comer, beber, descansar e caminhar pelo galpão antes de decidir quando deve retornar à ordenha.
A média registrada na propriedade é de 2,9 visitas diárias por animal. O sistema, entretanto, não libera automaticamente todas as entradas. Caso a vaca ainda não tenha cumprido o intervalo definido para uma nova ordenha, ela é identificada e direcionada novamente para o galpão.
Dez robôs atendem até 90 vacas por hora
Ao entrar em uma das estações, a vaca é reconhecida individualmente. A partir dessa identificação, o equipamento conduz as etapas necessárias para a retirada do leite e registra informações sobre aquele animal.
Cada procedimento demora aproximadamente seis minutos e meio. Considerados em conjunto, os dez robôs conseguem atender cerca de 90 vacas por hora.
A capacidade não significa que dezenas de animais sejam reunidos ao mesmo tempo. O funcionamento contínuo permite que as visitas sejam distribuídas ao longo do dia e da madrugada, evitando a movimentação coletiva típica das salas convencionais.
Essa liberdade também faz com que cada vaca desenvolva sua própria rotina. Algumas procuram os equipamentos em intervalos mais frequentes, enquanto outras precisam ser observadas pela equipe para garantir que não permaneçam tempo demais sem ordenha.
Fazenda treina 600 vacas em antigo confinamento de corte
A história da unidade se torna ainda mais curiosa porque o imóvel não havia sido projetado para produzir leite.
Antes da chegada da família, o prédio era utilizado como confinamento de bovinos de corte. Não existia sala de ordenha nem uma estrutura preparada para conduzir centenas de vacas leiteiras em horários determinados.
Em vez de demolir o galpão ou construir uma instalação completamente nova, os proprietários decidiram adaptar o espaço. Os dez robôs foram instalados diretamente nas áreas frequentadas pelos animais.
Com isso, a propriedade transformou uma limitação estrutural em parte do próprio modelo de produção. As vacas não precisam deixar o galpão para chegar a uma sala central, pois encontram as estações dentro de seu ambiente cotidiano.
A conversão, no entanto, exigiu planejamento. Corredores, áreas de alimentação, ventilação, drenagem, pontos de descanso e circulação da equipe precisaram funcionar de maneira integrada.
Produção chega a aproximadamente 22 mil litros por dia
A StateLine Dairy produz cerca de 5.800 galões de leite diariamente, volume equivalente a aproximadamente 22 mil litros.
Dividido pelo número de animais da unidade, o resultado representa uma média geral próxima de 36 litros por vaca ao dia. O desempenho não pode ser atribuído apenas aos robôs.
A tecnologia organiza a rotina e possibilita que cada animal seja atendido de acordo com seu próprio ritmo. Ainda assim, alimentação, genética, estágio de lactação, sanidade e conforto continuam determinando quanto leite chega ao tanque.
Por isso, a ordenha automática não funciona como uma solução isolada. Ela depende de um sistema de manejo capaz de manter as vacas saudáveis, bem alimentadas e protegidas contra fatores como o estresse térmico.
Robô percorre o cocho durante todo o dia
Enquanto alguns equipamentos cuidam da ordenha, outra máquina trabalha nos corredores de alimentação.
Um robô empurrador percorre o cocho várias vezes ao dia, aproximando novamente a dieta das vacas. A tarefa parece simples, mas resolve um problema comum: durante o consumo, os próprios animais empurram parte da comida para áreas que ficam fora de alcance.
Sem essa aproximação, o alimento pode continuar dentro do cocho, mas deixar de estar disponível para o rebanho.
O equipamento reduz a necessidade de repetir o serviço manualmente ou utilizar um trator em diferentes momentos do dia. Ao manter a dieta acessível, também ajuda a preservar uma rotina regular de consumo, fundamental para a produção leiteira.
Esterco processado volta ao galpão como cama
Os resíduos gerados diariamente também fazem parte do sistema adotado pela propriedade.
O esterco e a água utilizados na limpeza são removidos e enviados para uma prensa, responsável por separar a fração líquida do material sólido.
Depois do processamento, os sólidos retornam ao galpão e são utilizados como cama nos locais onde as vacas descansam. Dessa forma, um resíduo da própria atividade ganha uma nova função dentro da fazenda.
O reaproveitamento pode reduzir a necessidade de comprar outros materiais, mas exige acompanhamento constante. Umidade, limpeza e condições sanitárias precisam ser controladas para que a cama não se transforme em fonte de contaminação.
Fazenda treina 600 vacas, mas não funciona sozinha
A imagem de animais entrando espontaneamente nos robôs pode transmitir a impressão de uma fazenda quase independente de trabalhadores. Na prática, isso está longe de acontecer.
As máquinas assumem algumas das atividades mais repetitivas, mas a equipe continua responsável por acompanhar o rebanho e interpretar o que acontece dentro do galpão.
Os trabalhadores observam o comportamento das vacas, procuram animais que deixaram de visitar as estações, verificam alertas, cuidam da alimentação e acompanham a manutenção dos equipamentos.
Quando ocorre uma falha, o sistema pode enviar uma notificação para o responsável. A resposta precisa ser rápida, especialmente porque uma paralisação prolongada pode afetar a rotina de centenas de animais.
Menos esforço repetitivo, mais atenção aos dados
A automação modifica o trabalho dentro da fazenda, mas não elimina sua complexidade.
Em vez de passar grande parte do dia conectando manualmente conjuntos de ordenha, os funcionários precisam acompanhar relatórios, identificar alterações no comportamento das vacas e agir diante de falhas mecânicas ou eletrônicas.
A dependência de energia, conectividade e assistência especializada também cria novos riscos. Quanto mais integrada estiver a produção aos equipamentos, maior será a necessidade de planos para situações de emergência.
A experiência da StateLine Dairy mostra que os robôs podem ajudar a reduzir tarefas pesadas, aproveitar construções existentes e oferecer informações individuais sobre o rebanho.
Mesmo assim, a tecnologia não substitui o olhar de quem conhece os animais. Na propriedade do Kansas, as máquinas executam o trabalho repetitivo, enquanto as decisões continuam nas mãos das pessoas.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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