Localizada na divisa entre Bahia, Goiás e Minas Gerais, a Fazenda Trijunção reúne pesquisas da Embrapa sobre pecuária sustentável, recuperação de pastagens e cultivo de uvas para vinhos finos em terras consideradas de difícil manejo.
Produzir carne bovina e desenvolver uvas destinadas à elaboração de vinhos finos em solos predominantemente arenosos, com baixa fertilidade natural e limitações na retenção de água, é um desafio que exige muito mais do que investimentos em tecnologia. No oeste da Bahia, uma propriedade rural instalada em uma região estratégica do Cerrado brasileiro está demonstrando como pesquisa científica, planejamento agronômico e manejo adequado podem ampliar as possibilidades produtivas dessas áreas, sem perder de vista a conservação ambiental.
Trata-se da Fazenda Trijunção, situada na região dos municípios de Cocos e Jaborandi (BA), próxima ao encontro das divisas com Goiás e Minas Gerais. A propriedade abriga um projeto de pesquisa desenvolvido em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que investiga alternativas para tornar a produção agropecuária mais eficiente em condições frequentemente associadas a elevados riscos produtivos.
O trabalho vai além da pecuária tradicional. Os experimentos abrangem forrageiras tolerantes à seca, integração pecuária-floresta, manejo de pastagens e adaptação de videiras ao Cerrado, incluindo a avaliação de uvas destinadas à produção de vinhos finos.
A iniciativa ganhou novo destaque com o anúncio de um dia de campo virtual, marcado para 28 de outubro de 2026, quando pesquisadores de três unidades da Embrapa apresentarão experiências e resultados técnicos relacionados ao uso sustentável desses solos.
O desafio de produzir em solos arenosos no Cerrado
Grande parte do potencial produtivo do Cerrado brasileiro foi construída a partir da incorporação de conhecimento científico ao manejo de solos naturalmente ácidos e de baixa fertilidade. Entretanto, quando o terreno apresenta elevada proporção de areia, as dificuldades agronômicas assumem características particulares.
Solos arenosos geralmente apresentam menor capacidade de armazenar água e nutrientes, o que aumenta a vulnerabilidade das lavouras e pastagens aos períodos de estiagem. Além disso, a baixa quantidade de matéria orgânica e a maior suscetibilidade à degradação exigem cuidados adicionais com a cobertura vegetal e o manejo da fertilidade.
Na prática, isso significa que a aplicação de fertilizantes, isoladamente, não resolve o problema. O produtor precisa considerar a estrutura do solo, a disponibilidade hídrica, a escolha das espécies cultivadas e a capacidade de suporte da área.
É justamente nesse contexto que a Fazenda Trijunção se tornou uma área de experimentação. O objetivo não é simplesmente demonstrar que existe produção possível em terrenos arenosos, mas identificar quais sistemas conseguem combinar produtividade, estabilidade econômica e conservação dos recursos naturais.
Pecuária de corte mostra como o manejo pode aumentar a produtividade
Um dos principais eixos do Projeto Trijunção está relacionado à pecuária bovina, especialmente ao aproveitamento mais eficiente das pastagens.
Em vez de depender exclusivamente da ampliação de áreas de pastejo, os estudos avaliam como a recuperação de pastagens, o uso de forrageiras adaptadas e o controle da lotação animal podem melhorar o aproveitamento das terras já destinadas à produção.
Entre as tecnologias estudadas está a utilização da braquiária BRS Piatã, associada a práticas de manejo que favorecem o desenvolvimento das plantas e a oferta de forragem ao longo do ciclo produtivo.
A escolha da espécie forrageira é especialmente importante em solos arenosos, nos quais a disponibilidade de água pode cair rapidamente durante períodos sem chuva.
O projeto também analisa a integração pecuária-floresta, modelo que combina árvores e atividade pecuária na mesma área. Quando corretamente planejado, esse sistema pode oferecer benefícios como conforto térmico aos animais, diversificação produtiva e melhoria das condições ambientais.
Entretanto, o sucesso depende de fatores como espaçamento das árvores, competição por água e nutrientes, disponibilidade de luz para as forrageiras e custo de implantação.
Experimento registrou aumento de 125% na lotação animal
Resultados anteriores obtidos na Fazenda Santa Luzia, integrante da Fazenda Trijunção, ajudam a dimensionar o potencial da pesquisa.
Em estudo conduzido entre maio de 2019 e setembro de 2021, pesquisadores compararam sistemas convencionais de manejo com áreas conduzidas segundo as diretrizes para produção de Carne Baixo Carbono (CBC), desenvolvidas pela Embrapa.
O experimento envolveu uma área convencional de 115 hectares, com braquiária Marandu, e outra de 85 hectares, com pastagem recuperada de BRS Piatã.
Os resultados apontaram aumento de 125% no número de animais por hectare e de 163% na produção de carcaça por unidade de área, em comparação com o manejo convencional.
Os números foram divulgados em pesquisas da Embrapa e já haviam sido abordados pelo Compre Rural em reportagem sobre pecuária de baixa emissão de carbono.
É importante observar que esses ganhos representam as condições específicas do experimento, não uma produtividade que possa ser automaticamente reproduzida em qualquer fazenda.
Ainda assim, os resultados mostram que o aumento da eficiência produtiva pode reduzir a necessidade de abertura de novas áreas, especialmente quando acompanhado de recuperação de pastagens e ajuste da capacidade de suporte.
Do pasto ao vinhedo: como o Cerrado entrou na rota dos vinhos finos
Se a pecuária já apresenta resultados expressivos, a vitivinicultura representa uma das frentes mais surpreendentes da pesquisa.
O projeto investiga a possibilidade de cultivar variedades de uvas tradicionalmente associadas a regiões produtoras de vinhos de qualidade em um ambiente tropical, marcado por verões chuvosos, invernos secos e solos arenosos.
A iniciativa não começou agora. Um vinhedo experimental foi implantado na propriedade em 2018, a aproximadamente 1.100 metros de altitude, para avaliar a adaptação de diferentes variedades de videira às condições do Cerrado baiano.
Entre as oito variedades estudadas estão Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Syrah, Pinot Noir, Malbec e Mourvèdre, destinadas à elaboração de vinhos tintos, além de Chardonnay e Sauvignon Blanc, utilizadas na produção de vinhos brancos.
A investigação considera não apenas o desenvolvimento vegetativo e a produtividade das plantas, mas também características químicas das uvas e aspectos enológicos dos vinhos elaborados experimentalmente.
Os pesquisadores avaliam indicadores como acidez, concentração de açúcares e comportamento das variedades, fundamentais para identificar o potencial de produção de vinhos finos.
Um estudo da Embrapa publicado em 2023 analisou a colheita de 2022 e registrou, por exemplo, produtividade de 0,95 quilo por planta de Cabernet Franc, correspondente a aproximadamente 3,1 toneladas por hectare nas condições avaliadas.
Esses resultados representam uma etapa de validação agronômica, e não significam que o cultivo já tenha alcançado a rentabilidade ou a produtividade de vinhedos comerciais consolidados.
A técnica que permite produzir uvas no inverno
Uma das principais ferramentas para desenvolver vinhos finos no Cerrado é a chamada dupla poda, tecnologia estudada e difundida no Brasil por instituições como a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).
Tradicionalmente, a maturação das uvas em diversas regiões brasileiras coincide com períodos de chuva, condição que pode favorecer doenças e comprometer a qualidade da fruta.
Com a dupla poda, o calendário produtivo é reorganizado para que a maturação e a colheita ocorram no período mais seco do ano.
No Cerrado, essa mudança pode oferecer vantagens relevantes, como maior disponibilidade de radiação solar, menor ocorrência de chuvas durante a maturação e amplitude térmica favorável ao desenvolvimento de características desejadas nas uvas.
Entretanto, o cultivo depende de irrigação controlada, correção da fertilidade do solo e acompanhamento técnico.
O estudo da Embrapa sobre a Fazenda Trijunção concluiu que as condições climáticas da região apresentam semelhanças com áreas produtoras de vinhos de inverno em Minas Gerais e São Paulo, indicando potencial para expansão das pesquisas.
O que os experimentos significam para o agronegócio brasileiro?
O principal aprendizado do Projeto Trijunção não está apenas na possibilidade de produzir gado e uvas em uma mesma propriedade.
A experiência demonstra que regiões com restrições naturais podem oferecer oportunidades econômicas quando suas características são compreendidas e respeitadas.
Na pecuária, a prioridade passa pela escolha de forrageiras adaptadas, recuperação de pastagens e controle da lotação. Na vitivinicultura, o desafio envolve identificar variedades capazes de produzir uvas com qualidade enológica, sem tornar os custos de irrigação e manejo economicamente proibitivos.
Também existe uma dimensão ambiental importante.
Solos arenosos são especialmente sensíveis à perda de cobertura vegetal e ao manejo inadequado, tornando a conservação da matéria orgânica e o uso racional da água aspectos fundamentais para a sustentabilidade do sistema.
Isso significa que o sucesso observado em parcelas experimentais deve ser analisado juntamente com custos de implantação, manutenção, produtividade e disponibilidade de recursos hídricos.
O vinhedo, por exemplo, não representa necessariamente uma alternativa economicamente superior à pecuária. São atividades com características muito diferentes de investimento, risco e mercado consumidor.
A contribuição mais relevante da pesquisa é permitir que produtores tomem decisões baseadas em dados técnicos, e não apenas em expectativas de produtividade.
Embrapa apresentará novos detalhes do projeto em 28 de outubro
Os avanços e desafios identificados na Fazenda Trijunção serão discutidos nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, durante um dia de campo virtual promovido pela Embrapa em parceria com o projeto.
O encontro será realizado das 18h30 às 20h20, com participação de pesquisadores das unidades Embrapa Milho e Sorgo, Embrapa Gado de Corte e Embrapa Uva e Vinho.
Entre os temas programados estão a adaptação de forrageiras à seca, a integração pecuária-floresta em solos arenosos e as características agronômicas e enológicas da Cabernet Franc cultivada no Cerrado.
A programação inclui a participação de Flávia Cristina dos Santos, Rosângela Maria Simeão, Márcia Cristina Teixeira da Silveira e Giuliano Elias Pereira, além do gerente da Fazenda Trijunção, Allan Bruno Almeida de Figueiredo.
A expectativa é ampliar a disseminação de conhecimentos que possam orientar propriedades com condições semelhantes, especialmente nas regiões do Cerrado onde a combinação de baixa fertilidade natural e períodos prolongados de estiagem exige estratégias específicas de produção.
Ciência abre novas possibilidades para áreas consideradas difíceis de produzir
A Fazenda Trijunção representa uma mudança na maneira de avaliar o potencial agropecuário de determinadas regiões brasileiras.
Áreas historicamente associadas a limitações produtivas podem apresentar oportunidades para diferentes atividades, desde que as decisões estejam sustentadas em pesquisa, planejamento e uso responsável dos recursos naturais.
A combinação entre pecuária de corte, manejo sustentável de pastagens e pesquisa com vinhos finos revela o potencial de diversificação do Cerrado, mas também reforça que não existem soluções universais para os desafios encontrados no campo.
Para o produtor rural, a principal mensagem é que conhecer profundamente o solo, o clima e os limites da propriedade pode ser tão importante quanto investir em novas tecnologias.
Mais do que transformar areia em produtividade, a experiência mostra como a ciência pode transformar limitações naturais em conhecimento, eficiência e novas oportunidades para o agronegócio brasileiro.
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