Sistema desenvolvido na Fazenda Belluzzi combina informações genéticas do rebanho com dados de reprodutores para apoiar decisões de acasalamento e buscar vacas mais produtivas e longevas
A escolha do touro que será utilizado em cada vaca pode envolver muito mais do que observar produção ou consultar uma lista de reprodutores. Em uma propriedade de Cachoeira de Minas, no Sul de Minas Gerais, dados genéticos começaram a ser processados com auxílio de inteligência artificial para orientar os acasalamentos do rebanho leiteiro.
A iniciativa é desenvolvida na Fazenda Belluzzi, comandada por Arnon Belluzzi e Maria Paula Belluzzi. O sistema compara informações das matrizes da propriedade com características de diferentes reprodutores, buscando combinações alinhadas aos objetivos definidos para cada animal. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
As informações sobre a trajetória do casal, o funcionamento da propriedade e o desenvolvimento da ferramenta foram divulgadas originalmente pelo O TEMPO, e os aspectos técnicos relacionados ao uso da genômica foram confrontados com materiais da Embrapa e outras fontes do setor.
Software cruza informações para orientar os acasalamentos
O ponto de partida está na quantidade de características que podem ser consideradas durante uma decisão de melhoramento genético.
Segundo os responsáveis pela fazenda, cada animal pode reunir dezenas de indicadores que precisam ser analisados antes da escolha do sêmen. Fazer manualmente todas as combinações possíveis entre as matrizes e diferentes touros disponíveis tornaria o processo cada vez mais complexo conforme aumentasse o número de informações.
É justamente nesse ponto que o software entra.
Em vez de apresentar apenas uma lista geral de reprodutores, a ferramenta procura relacionar as características da vaca com os atributos disponíveis nos bancos de dados dos touros. Dessa forma, o objetivo é identificar combinações capazes de contribuir para o planejamento genético definido para o rebanho.
A ideia está alinhada a práticas já utilizadas no melhoramento bovino. A Embrapa explica que a seleção de touros e vacas pode considerar pedigree, desempenho, informações dos descendentes e dados de DNA, buscando características relacionadas à produção e qualidade do leite, saúde, adaptação e longevidade.
A utilização da genômica no melhoramento de bovinos permite acrescentar informações obtidas diretamente do DNA às avaliações tradicionais, ampliando a quantidade de dados disponíveis para seleção.
Inteligência artificial não substitui o melhoramento genético
Apesar da comparação com aplicativos de relacionamento ter ajudado a popularizar o projeto, o processo é essencialmente uma ferramenta de análise de dados.
A inteligência artificial não cria uma genética nova nem garante que determinado cruzamento produzirá automaticamente um animal superior. Sua função é auxiliar na comparação de um volume elevado de informações que posteriormente pode ser utilizado na tomada de decisão.
Essa diferença é importante porque o desempenho de uma vaca não depende exclusivamente da genética. Nutrição, sanidade, conforto, ambiente, reprodução e manejo também interferem na expressão do potencial produtivo.
Programas de melhoramento existentes no país trabalham justamente com avaliações de diferentes características para auxiliar o pecuarista na seleção.
Em junho de 2026, por exemplo, foram divulgados novos sumários genéticos de touros e vacas Girolando, reunindo informações destinadas a apoiar decisões de seleção dentro dos rebanhos.
No caso do Gir Leiteiro, o Programa Nacional de Melhoramento contabilizou em sua avaliação de 2026 182.319 animais avaliados, incluindo 60.154 animais genotipados, segundo publicação da Embrapa Gado de Leite.

Próxima etapa deve incluir avaliação física das vacas
O desenvolvimento da ferramenta ainda não terminou.
Além das informações genéticas, os criadores pretendem incluir uma etapa de avaliação morfológica baseada em imagens. A proposta é permitir que características da estrutura corporal das vacas também façam parte da análise antes da definição do acasalamento.
Aspectos como conformação, estrutura e características do úbere podem ser relevantes principalmente quando o objetivo não é buscar somente aumento de produção, mas também funcionalidade e permanência dos animais no rebanho.
A tecnologia, portanto, deverá reunir duas fontes diferentes de informação: aquilo que está registrado geneticamente e aquilo que pode ser observado fisicamente nos animais.
Segundo os responsáveis pela propriedade, o sistema já participou do processo utilizado para escolher os primeiros animais do rebanho.
Em visitas realizadas a propriedades com centenas de bovinos disponíveis, o casal afirma ter aplicado critérios bastante restritivos para selecionar apenas os exemplares considerados mais adequados ao projeto produtivo da fazenda.
Meta da propriedade vai além de produzir mais leite
Um dos objetivos declarados pelos proprietários é trabalhar simultaneamente produção e longevidade.
A Fazenda Belluzzi estabeleceu como meta buscar vacas capazes de alcançar produção média próxima de 50 litros de leite por dia e permanecer produtivas por seis ou sete lactações.
Esses valores, porém, precisam ser tratados como metas da propriedade, e não como resultados consolidados do rebanho.
Animais que começaram recentemente a produzir teriam alcançado níveis próximos ao objetivo estabelecido, segundo os responsáveis. A longevidade pretendida, por sua própria natureza, somente poderá ser comprovada depois de vários ciclos produtivos.
A busca por animais capazes de permanecer por mais tempo no sistema tem importância econômica. A substituição precoce de vacas aumenta a necessidade de reposição e pode elevar custos de criação antes que o animal tenha tempo suficiente para compensar o investimento feito durante sua fase de crescimento.
Por isso, características relacionadas à vida produtiva também aparecem em programas de avaliação genética de bovinos leiteiros.
Casal saiu das telecomunicações para produzir leite
A entrada de Arnon e Maria Paula na pecuária não ocorreu por tradição familiar.
Antes da fazenda, Arnon trabalhava no setor de telecomunicações e chegou a administrar um provedor de internet. Maria Paula atuava com marketing.
Quando decidiram diversificar os investimentos, uma das primeiras possibilidades avaliadas foi o cultivo de mogno. O período necessário para obter retorno financeiro e as condições das propriedades da região fizeram com que o casal procurasse outras alternativas.
A produção leiteira acabou escolhida após estudos sobre a atividade e conversas com agentes da cadeia local.
A propriedade adquirida exigiu ampla estruturação antes do início efetivo da produção. Durante aproximadamente três anos e meio, segundo os responsáveis, o trabalho ficou concentrado na montagem das instalações, organização dos processos, formação da equipe e planejamento do rebanho.
Essa preparação prévia também abriu espaço para que tecnologia, automação e análise de dados fossem incorporadas desde a concepção do sistema produtivo.
Minas Gerais concentra quase um quarto da captação formal de leite
O projeto está sendo desenvolvido justamente no principal estado da cadeia leiteira brasileira.
Dados divulgados pelo IBGE mostram que Minas Gerais respondeu por 23,9% do leite adquirido por estabelecimentos sob inspeção sanitária em 2025, mantendo a liderança nacional.
No mesmo período, os laticínios brasileiros inspecionados captaram 27,51 bilhões de litros, crescimento de 8,5% sobre 2024 e maior resultado da série histórica da Pesquisa Trimestral do Leite.
Nesse ambiente, tecnologias capazes de apoiar decisões relacionadas a produtividade, reprodução e longevidade podem ganhar espaço principalmente em propriedades que já trabalham com grandes volumes de informações zootécnicas.
Reaproveitamento de água também chamou atenção
A genética não foi a única tecnologia da Fazenda Belluzzi a ganhar repercussão.
Um sistema utilizado para limpeza dos corredores dos animais chamou atenção nas redes sociais devido ao grande volume de água liberado de uma única vez.
Conhecida como flushing, a técnica utiliza uma descarga de água para transportar rapidamente os resíduos acumulados no piso.
O volume visto nos vídeos gerou questionamentos sobre desperdício, mas a propriedade afirma trabalhar com reaproveitamento.
Depois da limpeza, a água passa por etapas de separação e tratamento antes de retornar ao sistema. Materiais utilizados na instalação também podem ser recuperados e reutilizados.
Além da economia de água, a automatização reduz a quantidade de trabalho manual necessária para higienização dos corredores.
A estratégia faz parte de um modelo em que diferentes processos da fazenda são planejados de forma integrada, combinando automação, gestão dos resíduos, energia e conforto dos animais.
Ferramenta poderá chegar a outros produtores
O software foi criado inicialmente para atender às necessidades da própria Fazenda Belluzzi.
O interesse gerado pela divulgação do projeto, porém, levou os desenvolvedores a considerar disponibilizar a tecnologia para outras propriedades.
Ainda existem pontos importantes que precisarão ser conhecidos para avaliar a ferramenta comercialmente, entre eles metodologia de validação, bases de dados utilizadas, indicadores analisados, critérios empregados pelo algoritmo e modelo de acesso pelos produtores.
A experiência mineira, entretanto, ilustra uma mudança que já pode ser observada em diferentes áreas da pecuária.
Em setembro, por exemplo, uma ferramenta desenvolvida pela Embrapa Pecuária Sul passou a permitir consultas a avaliações genéticas de bovinos Brangus utilizando inteligência artificial. A tecnologia facilita o acesso a informações existentes no programa de melhoramento e mostra como sistemas computacionais começam a atuar como intermediários entre grandes bancos de dados e as decisões tomadas dentro da fazenda.
Para a pecuária leiteira, o desafio continuará sendo o mesmo: transformar genética disponível em animais eficientes dentro das condições reais de produção. A diferença é que, à medida que aumenta o volume de informações disponíveis sobre vacas e touros, ferramentas capazes de organizar e comparar esses dados podem assumir uma participação cada vez maior nesse processo.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.