Fundada por Olavo Barbosa, Bela Vista alcança liderança nacional após ampliar o rebanho sem comprar animais para expansão; ciência aplicada, gestão e eficiência reprodutiva sustentam o crescimento
A fazenda fundada por Olavo Barbosa, conhecido como o “Rei do Leite”, alcançou um novo patamar na pecuária leiteira brasileira. Em oito anos, a Bela Vista saltou de aproximadamente 47 mil para 102 mil litros de leite por dia, um crescimento de cerca de 117%, e conquistou, em 2026, a liderança nacional no ranking MilkPoint/Abraleite.
O avanço veio acompanhado de uma transformação dentro do rebanho. No mesmo período, o número de vacas em lactação passou de 1.700 para 2.750 animais, sem a compra de animais para expansão. A produção média individual também aumentou: saiu de 28 para 42 quilos de leite por vaca por dia, uma alta de 50%.
Por trás desses resultados está um trabalho iniciado em 2018, que colocou a reprodução entre as prioridades da propriedade. A parceria entre campo, indústria e universidade ajudou a transformar conhecimento científico em rotina de manejo, com acompanhamento de indicadores e estratégias para melhorar a fertilidade.
A trajetória dá continuidade ao empreendimento iniciado por Olavo Barbosa, conhecido como o “Rei do Leite”. Fundada em 1960, entre Tapiratiba (SP) e Guaxupé (MG), a Fazenda São José, reconhecida pela marca Leite Fazenda Bela Vista, construiu sua história com investimentos em tecnologia e produção de leite tipo A. Em outubro de 2024, a propriedade celebrou a marca de 100 mil litros de leite por dia, um marco na expansão do negócio.
Agora, os indicadores reprodutivos ajudam a explicar como a fazenda sustentou sua expansão e chegou ao topo do ranking nacional.
A transformação começou pela reprodução
Em 2018, o cenário reprodutivo da Bela Vista apresentava limitações. O intervalo entre partos era de 17 meses, com taxa de serviço de aproximadamente 40% e taxa de concepção de 25%, resultando em uma taxa de prenhez de 10%.
Entre as novilhas, os desafios também eram expressivos. As taxas de serviço e de concepção ficavam próximas de 45%, resultando em taxa de prenhez de aproximadamente 20%. A idade ao primeiro parto chegava a 28 meses.
Esses indicadores representavam baixa eficiência reprodutiva e contribuíam para uma produção de leite abaixo do potencial da propriedade.
Foi naquele ano que o médico-veterinário Tiago Carneiro assumiu a responsabilidade técnica da fazenda e organizou os processos reprodutivos. O trabalho passou a se apoiar em rotina, acompanhamento de indicadores e incorporação de estratégias cientificamente validadas.
Para essa transformação, contou com o apoio do médico-veterinário Carlos Eduardo Cardoso Consentini, gerente técnico da GlobalGen, mestre e doutor pela ESALQ/USP. Durante o doutorado, na University of Wisconsin, em Madison, nos Estados Unidos, Consentini teve orientação do professor Milo Wiltbank, pesquisador internacionalmente reconhecido na reprodução de bovinos leiteiros.
Parte do conhecimento gerado e validado por Consentini em estudos de fisiologia e manejo reprodutivo de rebanhos leiteiros foi posteriormente incorporada e estruturada pela GlobalGen em seus programas reprodutivos. Essa aproximação criou uma ponte entre universidade, indústria e campo.
Uma das primeiras mudanças na Bela Vista foi estabelecer uma rotina semanal de manejo reprodutivo. A propriedade passou a utilizar inseminação artificial em tempo fixo, a IATF, em 100% dos primeiros serviços pós-parto, associada ao diagnóstico de gestação e à ressincronização das vacas não gestantes para uma nova inseminação.
Os resultados começaram a aparecer rapidamente. A taxa de serviço ultrapassou 50% já em 2019 e permaneceu em torno de 54% até 2023.
Em 2024, a fazenda deu outro passo com a implementação da ressincronização precoce. Nessa estratégia, o protocolo de sincronização começa antes do diagnóstico de gestação, permitindo reduzir em sete dias o intervalo entre inseminações.
Associada a outros ajustes operacionais, a mudança contribuiu para que a taxa de serviço chegasse aos atuais 62%.
Mais fertilidade e menos tempo entre partos
Depois de elevar a taxa de serviço, o trabalho concentrou esforços em aumentar a fertilidade, com a implantação de programas específicos para o primeiro serviço pós-parto.
Essas estratégias incluem protocolos de pré-sincronização antes do protocolo de IATF. O objetivo é melhorar o ambiente endócrino, aumentar a sincronização das vacas e, consequentemente, elevar a fertilidade na primeira inseminação.
No início da transformação, a taxa de concepção no primeiro serviço era de 30% nas primíparas, vacas de primeira cria, e de 24% nas multíparas, com duas ou mais crias.
A partir de 2022, a Bela Vista implementou o programa Duplo E-Synch para o primeiro serviço. Desenvolvido por Carlos Consentini durante suas pesquisas, o programa contou com a colaboração de Tiago Carneiro nos estudos de campo e, posteriormente, foi incorporado pela GlobalGen às suas estratégias e recomendações.
Após a implementação, os indicadores avançaram. Em 2025 e 2026, a taxa de concepção já no primeiro serviço atingiu 55% nas primíparas e 42% nas multíparas.
Considerada um ponto central da reprodução em rebanhos leiteiros, a fertilidade no primeiro serviço foi fundamental para reduzir o intervalo entre partos da propriedade: de 17 meses, em 2018, para 13 meses, em 2026.
Na prática, a evolução reprodutiva ajudou a criar condições para ampliar a produção e melhorar o aproveitamento do potencial do rebanho.
As mudanças também alcançaram as futuras matrizes. A partir de 2022 e 2023, bezerras e novilhas passaram a ser criadas e recriadas em sistema confinado.
Paralelamente, foi sistematizado um programa reprodutivo para as novilhas, envolvendo IATF no primeiro serviço, detecção de cio de retorno e ressincronizações, também dentro de uma rotina semanal.
A taxa de serviço das novilhas chegou a 75% em 2026. A concepção na primeira IATF avançou de 52% para 64%, mesmo com a utilização de sêmen sexado nesse primeiro serviço.
Atualmente, a combinação de taxa de serviço de 75% com concepção geral de 50% resulta em uma taxa de prenhez próxima de 38%.
O reflexo foi expressivo: a idade ao primeiro parto caiu de 28 meses, em 2018, para aproximadamente 22 meses atualmente. As novilhas passaram, portanto, a iniciar sua vida produtiva cerca de seis meses mais cedo.
Crescimento sustentado por ciência e gestão
A comparação entre os indicadores mostra a dimensão da mudança. Em oito anos, a Bela Vista reduziu em quatro meses o intervalo entre partos e em aproximadamente seis meses a idade ao primeiro parto.
Esse aumento da eficiência reprodutiva colaborou fortemente para a melhoria dos números de produção. No período, a fazenda acrescentou cerca de 55 mil litros à produção diária, ampliou em aproximadamente 62% o número de vacas em lactação e elevou em 50% a produção média individual.
O crescimento do rebanho sem a compra de animais para expansão reforça a importância do trabalho desenvolvido dentro da própria fazenda, desde a criação das bezerras até a reprodução das vacas em produção.
Para Tiago Carneiro, a reprodução precisa integrar a estratégia do negócio. O médico-veterinário a define como “um dos corações do projeto da fazenda”.
“Com processos bem definidos e objetivos claros, os resultados aparecem. Avançamos de forma consistente nos últimos anos e, com o investimento contínuo em programas reprodutivos, incluindo a IATF, certamente continuaremos melhorando nossos indicadores de eficiência, fertilidade e produção por vaca.”
Carlos Consentini também destaca que a experiência da Bela Vista demonstra o potencial da aproximação entre ciência e rotina de campo.
“Quando ciência, manejo e acompanhamento de indicadores estão alinhados, a reprodução deixa de ser apenas uma etapa do sistema produtivo e passa a ser uma ferramenta estratégica para o crescimento da fazenda. Mais do que aumentar índices, investir em reprodução significa construir um rebanho mais eficiente, reduzir perdas, antecipar resultados e criar condições para que a produção de leite cresça de forma consistente ao longo do tempo.”
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