Fazenda do arroz Tio Bepy, avaliada em R$ 161 milhões, vai a leilão para pagar dívidas

Propriedade próxima à área urbana de Miranda reúne nove matrículas contíguas, estrutura para arroz irrigado e volta ao mercado judicial após tentativa de venda em 2024; recursos devem ser usados para quitar dívidas com Petrobras e bancos

Uma das tradicionais áreas ligadas à produção de arroz irrigado em Mato Grosso do Sul voltou ao mercado em uma operação de grande porte. A Fazenda Pouso Alegre, associada à empresa responsável pela produção e comercialização do arroz Tio Bepy, está sendo oferecida em leilão judicial com avaliação próxima de R$ 161 milhões.

Localizada em Miranda (MS), a propriedade soma 2.727 hectares, distribuídos em nove matrículas contíguas. O imóvel fica a aproximadamente quatro quilômetros da área urbana do município, às margens da MS-339, rodovia que conecta Miranda a Bodoquena.

Mais do que o tamanho da fazenda, o caso chama atenção pelo contexto financeiro que levou o patrimônio novamente à Justiça. O objetivo do leilão é tentar quitar dívidas relacionadas à Petrobras, Banco do Brasil e Bradesco, segundo as informações publicadas no processo e reproduzidas pelo Correio do Estado.

Fazenda tem estrutura voltada à produção de arroz irrigado

A área pertence à empresa que produz e comercializa o arroz Tio Bepy e está vinculada ao Engenho Tio Bepy, sediado em Dourados e responsável pela industrialização e comercialização do cereal.

A dimensão do imóvel ajuda a explicar o valor envolvido. Considerando a avaliação próxima de R$ 161 milhões e os 2.727 hectares, o valor médio de referência fica perto de R$ 59 mil por hectare — cálculo meramente proporcional, já que a avaliação judicial considera o conjunto do patrimônio e suas benfeitorias.

A localização também é estratégica. Próxima ao Rio Miranda, a propriedade dispõe de sede estruturada, estação de captação de água, casas de operação, pista de pouso e ampla estrutura de canais destinados à irrigação das lavouras de arroz.

É justamente essa infraestrutura que diferencia uma propriedade historicamente preparada para agricultura irrigada de uma área rural formada apenas por terra nua.

Lances podem ser apresentados até outubro

O período para apresentação das propostas começou em 31 de agosto e segue até 13 de outubro de 2026. Caso não apareça comprador nessa etapa, o valor inicial dos imóveis poderá sofrer redução de até 20%.

Isso significa que, tomando apenas como referência a avaliação próxima de R$ 161 milhões, uma redução máxima de 20% levaria o patamar para algo em torno de R$ 128,8 milhões.

O edital também traz um ponto relevante para eventuais interessados: apesar da existência de dívidas tributárias incidentes sobre as nove matrículas, o comprador não deverá responder por esses débitos, conforme informado na publicação judicial citada pela reportagem de origem.

Além das terras, a Justiça colocou em leilão uma casa de 124 m², construída em terreno de 300 m² na área urbana de Miranda e pertencente à mesma família. O valor mínimo informado para o imóvel urbano é de R$ 200 mil.

Fazenda já havia sido colocada à venda por R$ 147 milhões

Esta não é a primeira tentativa de negociação judicial das terras.

Em julho de 2024, as mesmas áreas já haviam sido levadas a leilão, naquela ocasião com valor mínimo de R$ 147 milhões. Agora, pouco mais de dois anos depois, o patrimônio retorna ao mercado com avaliação próxima de R$ 161 milhões.

A execução judicial está relacionada à pessoa física de um dos proprietários, embora as áreas tenham sido utilizadas na produção de arroz ligada à indústria.

O retorno de uma propriedade desse porte ao mercado ocorre em um momento particularmente delicado para parte do agronegócio brasileiro, marcado por margens mais apertadas em determinadas atividades, custo financeiro elevado e avanço dos pedidos de recuperação judicial.

Recuperações judiciais avançam em Mato Grosso do Sul

Os números apresentados junto ao caso ajudam a dimensionar esse ambiente.

Segundo dados da Receita Federal citados na publicação, 70 empresas estavam em recuperação judicial em Mato Grosso do Sul nos três primeiros meses de 2026, contra 44 no mesmo intervalo de 2025.

O crescimento foi de 59,1% em apenas um ano.

Quando a comparação é ampliada, a escalada fica ainda mais evidente. No primeiro trimestre de 2024, eram 28 empresas nessa condição. Um ano depois, o total chegou a 44 e, no início de 2026, alcançou 70.

Isso representa crescimento de 150% em dois anos, com parcela relevante dos casos relacionada a empresas ligadas ao agronegócio.

O leilão da Fazenda Pouso Alegre, portanto, vai além da venda de uma propriedade rural milionária. O episódio mostra como terra, estrutura produtiva e patrimônio rural podem acabar no centro das disputas financeiras quando o endividamento ultrapassa a capacidade de pagamento.

Para o mercado de terras, a operação também será um teste importante. Uma propriedade de 2,7 mil hectares, irrigada, estruturada e avaliada em quase R$ 161 milhões dificilmente passa despercebida entre investidores, grupos agrícolas e produtores capitalizados.

Agora, a questão é saber se haverá comprador disposto a desembolsar essa cifra — ou se, depois da tentativa realizada em 2024, uma das áreas mais conhecidas ligadas à produção de arroz em Miranda precisará novamente ter seu preço reduzido para finalmente mudar de mãos.

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