Fazenda avaliada em US$ 100 milhões abre mão de loteamentos para continuar criando gado por gerações

Depois de chegar ao mercado por US$ 100 milhões, propriedade no Colorado adota proteção permanente para impedir a fragmentação da área e manter a criação de gado por gerações

A Nottingham Ranch, uma das grandes propriedades pecuárias em atividade no Colorado, nos Estados Unidos, teve 18.484 acres, cerca de 7,48 mil hectares, colocados sob uma servidão permanente de conservação. O acordo, concluído em outubro de 2026, restringe a conversão da área para grandes empreendimentos e outros usos incompatíveis com a atividade rural, enquanto permite que a fazenda continue privada e dedicada à produção agropecuária.

A decisão ganha outra dimensão quando se olha para o passado da propriedade. Em 2017, a família Nottingham colocou à venda um conjunto maior, com 19.493 acres, por US$ 100 milhões. A oferta incluía terras, rebanho, equipamentos, residências e direitos sobre água. Quase uma década depois, Susan Nottingham optou por preservar a maior parte do rancho como uma unidade produtiva em vez de deixar aberta a possibilidade de sua fragmentação para desenvolvimento imobiliário. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Nottingham Ranch continuará sendo uma fazenda de gado

O instrumento adotado é conhecido nos Estados Unidos como conservation easement, ou servidão de conservação. No caso de terras agrícolas, esse tipo de acordo permite restringir permanentemente determinados usos não agrícolas sem transferir necessariamente a propriedade para o governo ou transformá-la em parque público.

O programa federal de servidões agrícolas administrado pelo Natural Resources Conservation Service, ligado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, prevê justamente a proteção de fazendas, pastagens e ranchos produtivos contra a conversão para usos não agrícolas. A propriedade continua sob domínio privado e pode permanecer em produção de acordo com as condições estabelecidas no instrumento.

No caso da Nottingham Ranch, o Colorado Cattlemen’s Agricultural Land Trust (CCALT) afirma que a intenção é manter a propriedade permanentemente intacta e disponível para uso agrícola. Participaram do projeto organizações e instituições como Eagle County Open Space and Natural Resources, Great Outdoors Colorado, National Fish and Wildlife Foundation, NRCS, Routt County Purchase of Development Rights Program e The Nature Conservancy.

A solução difere, por exemplo, da decisão recente envolvendo três fazendas de gado que serão transformadas em parques nacionais na Austrália. No Colorado, a propriedade não deixa de ser uma fazenda: produção pecuária e conservação permanecem dentro do mesmo território.

Dos US$ 100 milhões à proteção permanente da propriedade

Quando foi anunciada em julho de 2017, a Nottingham Ranch entrou no mercado por US$ 100 milhões, um dos maiores anúncios de terras já registrados no condado de Eagle naquele momento.

Os números divulgados pela imobiliária ajudam a mostrar a escala da operação naquela época. A oferta compreendia 19.493 acres próprios, além de cerca de 60 mil acres utilizados por meio de permissões e arrendamentos para pastejo. O sistema produtivo mantinha aproximadamente 1.200 pares de vacas e bezerros, áreas irrigadas e produção informada de cerca de 3,5 mil toneladas de feno por ano.

A estrutura coloca o rancho dentro de uma tradição de grandes propriedades pecuárias do Oeste dos Estados Unidos, região em que a criação extensiva frequentemente combina áreas privadas, pastagens públicas, irrigação e grandes distâncias. Outros exemplos desse modelo podem ser observados nas mega fazendas do Oeste americano.

A operação não foi vendida naquela ocasião. Em janeiro de 2026, o Colorado Sun informou que Susan Nottingham permanecia à frente do rancho, com cerca de 1.200 bovinos e produção anual próxima de 3 mil toneladas de feno. Esses são os dados produtivos mais recentes localizados publicamente durante a apuração, embora tenham sido divulgados antes da conclusão definitiva do acordo em outubro.

Água do rio Colorado também entra na proteção

Um dos pontos mais relevantes do acordo está abaixo da superfície do debate imobiliário: a água.

O comunicado oficial do CCALT informa que a propriedade utiliza mais de 175 pés cúbicos por segundo em direitos prioritários de água, ligados a cursos d’água tributários do rio Colorado. Esses direitos ficarão vinculados à terra dentro do acordo de conservação.

Em regiões áridas e semiáridas do Oeste americano, o acesso à água tem influência direta sobre a capacidade produtiva das propriedades. Separar direitos hídricos da terra poderia comprometer áreas irrigadas e, consequentemente, a viabilidade de atividades como produção de feno e criação de bovinos.

Por isso, a proteção da Nottingham Ranch não envolve apenas impedir grandes empreendimentos imobiliários. O acordo também busca manter reunidos terra, água e atividade pecuária, três ativos que sustentam o funcionamento do rancho.

Pressão imobiliária pesou na mudança de decisão

A história ganha um componente particular porque Susan Nottingham nem sempre foi favorável às servidões de conservação.

Segundo o Colorado Sun, ela havia manifestado preocupação no passado com instrumentos que pudessem restringir direitos de proprietários rurais. A posição mudou ao longo dos anos, especialmente diante da possibilidade de fragmentação da propriedade e após o contato com produtores envolvidos no próprio CCALT.

O comunicado oficial publicado em outubro acrescenta outro fator: Susan acompanhou a transformação das terras onde seus pais haviam criado gado originalmente no Vale de Vail e a expansão imobiliária sobre áreas rurais do Colorado. A experiência contribuiu para a decisão de proteger a atual propriedade contra processo semelhante.

A área conservada também está próxima de extensas terras públicas e abriga habitats utilizados por espécies como alces, veados-mula, carneiros-selvagens, antílopes, alces-americanos e águias-carecas. A manutenção da pecuária em propriedades com áreas naturais preservadas tem paralelos em outros sistemas produtivos, inclusive na pecuária associada à conservação no Pantanal.

Decisão coloca sucessão e uso da terra no centro do debate

Para além dos números milionários, o caso da Nottingham Ranch toca em um problema recorrente em regiões rurais pressionadas pela valorização imobiliária: o que acontece com grandes propriedades quando manter a atividade agropecuária deixa de ser a única alternativa econômica para seus proprietários?

A venda e posterior subdivisão podem gerar valor no curto prazo, especialmente em regiões próximas a destinos turísticos valorizados. Por outro lado, a fragmentação pode reduzir a disponibilidade de grandes áreas contínuas para pecuária, alterar o acesso à água e tornar mais difícil a continuidade de determinadas operações.

Programas de conservação agrícola tentam oferecer uma terceira possibilidade. Em vez de exigir que o proprietário doe a terra ou abandone a produção, determinados mecanismos permitem negociar ou restringir direitos de desenvolvimento enquanto a atividade rural continua. Nos Estados Unidos, o NRCS informa que os programas federais podem fornecer recursos aos parceiros responsáveis pela aquisição dessas servidões.

No caso da Nottingham Ranch, não significa que os antigos US$ 100 milhões tenham sido simplesmente recusados em uma negociação atual. Aquele valor pertencia ao anúncio de 2017. O que ocorreu em 2026 foi outra decisão: tornar permanente a proteção sobre 18.484 acres de uma fazenda que, anos antes, havia sido oferecida ao mercado como uma grande oportunidade imobiliária e pecuária.

A propriedade permanece privada, o gado pode continuar ocupando suas pastagens e os direitos históricos sobre água permanecem associados à terra. O que muda é a possibilidade de transformar aquela extensão em um grande projeto de desenvolvimento no futuro.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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