Fazenda avaliada em R$ 76 milhões ligada a fundo citado no caso Master é invadida em Minas Gerais

Área da Fazenda Bom Jardim, em Uberlândia, foi ocupada pelo MTL no dia 30 de agosto e desocupada em 1º de setembro; imóvel integra patrimônio do Fundo Bacuri, atualmente administrado pela WNT Capital

Uma Fazenda avaliada em R$ 76 milhões entrou no centro de uma nova disputa envolvendo terras no Triângulo Mineiro. Integrantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) ocuparam, no domingo, 30 de agosto, uma área da Fazenda Bom Jardim, em Uberlândia (MG). Dois dias depois, em 1º de setembro, os ocupantes deixaram o local após atuação e negociação com a Polícia Militar.

O episódio ganhou repercussão adicional porque o imóvel faz parte do patrimônio do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri, cuja atual administradora, a WNT Capital, apareceu em reportagens relacionadas às investigações envolvendo o Banco Master. A documentação disponível, entretanto, não permite afirmar que a fazenda pertença ao Banco Master ou a Daniel Vorcaro.

Ocupação da Fazenda Bom Jardim mobilizou forças de segurança

A mobilização atingiu uma área de aproximadamente 96,76 hectares, localizada nas proximidades da MGC-497, na zona rural de Uberlândia.

Há divergência sobre o número de participantes. O MTL afirmou que aproximadamente 500 famílias integravam a mobilização. Já informações atribuídas ao Governo de Minas apontavam cerca de 130 pessoas presentes na área. Portanto, os números não devem ser tratados como equivalentes nem como uma estimativa única confirmada.

Durante a ocupação, a Polícia Militar permaneceu na região e a Polícia Militar Rodoviária chegou a interromper o trânsito em trecho da MGC-497. O bloqueio foi adotado enquanto as forças de segurança controlavam o acesso ao local.

Em 1º de setembro, as famílias deixaram a propriedade após negociação com a Polícia Militar. Equipes de diferentes cidades mineiras participaram da operação, e o tráfego na rodovia foi posteriormente liberado.

Quem controla a Fazenda avaliada em R$ 76 milhões?

Os registros consultados não colocam Daniel Vorcaro como proprietário da Fazenda Bom Jardim.

O cadastro oficial da Comissão de Valores Mobiliários identifica o Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri e aponta a WNT Capital Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. como sua atual administradora.

Reportagens baseadas na documentação do imóvel e nas demonstrações financeiras do fundo informam que o terreno foi adquirido em 2019 por R$ 14 milhões. No balanço referente ao encerramento de 2025, o imóvel aparecia avaliado em aproximadamente R$ 76 milhões.

O valor de R$ 76 milhões deve ser entendido como avaliação registrada nas demonstrações financeiras do fundo, e não como comprovação de uma venda efetivamente realizada nesse montante.

A reportagem do Intercept Brasil também apontou que o relatório de auditoria das demonstrações financeiras registrou falta de documentação considerada necessária para verificar de forma independente a avaliação dos imóveis.

Qual é a relação com o caso Banco Master?

É nesse ponto que a apuração exige maior cautela. O Fundo Bacuri foi administrado anteriormente pela Reag Trust e posteriormente passou à administração da WNT Capital. Segundo o Intercept Brasil, as duas instituições apareceram em investigações da Polícia Federal relacionadas ao caso Banco Master. A mesma reportagem ressalta, porém, que o próprio Fundo Bacuri não havia sido citado nas investigações até então.

Portanto, não há respaldo para afirmar que a Fazenda Bom Jardim seja uma propriedade de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou um ativo comprovadamente envolvido nas irregularidades investigadas.

A WNT Capital também contestou associações diretas. Em posicionamento divulgado pelo Portal Paranaíba Mais, a empresa afirmou não possuir vínculo ou participação, direta ou indireta, com o Banco Master em relação aos fatos abordados e ressaltou que atua na administração fiduciária de fundos com patrimônios e operações independentes.

A ligação mencionada nas reportagens, portanto, está relacionada ao histórico das empresas responsáveis pela administração do Fundo Bacuri, e não a uma comprovação de propriedade da fazenda pelo banco ou por Vorcaro.

Fazenda avaliada em R$ 76 milhões seria usada em projeto de data center

Antes da ocupação rural, a área já havia chamado atenção por estar relacionada a um projeto de infraestrutura tecnológica em Uberlândia. A RT-One havia escolhido o terreno para a implantação de um data center de inteligência artificial. O empreendimento foi anunciado com investimento superior a R$ 6 bilhões e previsão de capacidade inicial de 100 MW, podendo chegar a 400 MW.

Segundo documentos analisados pelo Intercept Brasil, um contrato firmado entre a RT-One e o Fundo Bacuri previa a utilização de cerca de 960 mil metros quadrados, com aluguel de R$ 1 mil mensais pelo prazo de 15 anos.

Esse acordo não permanece em vigor.

Em julho de 2026, a RT-One comunicou o encerramento da relação contratual referente ao terreno. Segundo a empresa, a rescisão ocorreu de comum acordo com o Fundo Bacuri diante de fatos posteriores envolvendo as administradoras do fundo e não representava reconhecimento de irregularidade por nenhuma das partes.

A companhia informou, então, que passaria a avaliar outros terrenos para o empreendimento, inclusive alternativas em Uberlândia e em outras localidades.

Ocupação ocorreu antes de setembro começar

A cronologia também é relevante para evitar uma interpretação equivocada sobre a atualidade do episódio.

A entrada do MTL na Fazenda Bom Jardim aconteceu em 30 de agosto de 2026. A saída dos ocupantes ocorreu em 1º de setembro. Portanto, em 3 de setembro, quando o caso voltou a circular com força, a propriedade já havia sido desocupada.

O caso reúne dois assuntos distintos que acabaram se cruzando: uma mobilização relacionada à disputa por terras e o histórico financeiro e empresarial de um imóvel que anteriormente havia sido escolhido para receber um empreendimento bilionário.

Até o momento, o que os documentos sustentam é que a Fazenda Bom Jardim integra o patrimônio do Fundo Bacuri. Qualquer atribuição direta da propriedade ao Banco Master ou a Daniel Vorcaro ultrapassa as informações comprovadas disponíveis.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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