Exportações de carne bovina do Brasil podem cair mais de 30% em agosto com freada da China

Embarques somaram 141 mil toneladas nas três primeiras semanas do mês; Agrifatto projeta cerca de 180 mil toneladas em agosto, enquanto proximidade do limite da cota chinesa reduz o ritmo das exportações de carne bovina do Brasil

As exportações brasileiras de carne bovina perderam força em agosto e caminham para registrar uma das retrações mais expressivas dos últimos meses. Nos primeiros 15 dias úteis de agosto de 2026, o Brasil embarcou 141,07 mil toneladas de carne bovina in natura, com média diária de 9,40 mil toneladas.

O volume médio diário representa queda de 26,4% na comparação com agosto de 2025, quando os embarques alcançaram média de 12,78 mil toneladas por dia. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), levantados pelo Compre Rural, mostram uma mudança importante no ritmo do comércio exterior da proteína brasileira.

A desaceleração ocorre justamente em um momento no qual a China, principal destino da carne bovina brasileira, reduz as compras diante da proximidade do esgotamento da cota anual estabelecida pelo mecanismo de salvaguarda.

Receita cai, mas preço da carne exportada sobe

Apesar da redução dos volumes, a valorização da carne brasileira no mercado internacional ajuda a amortecer parte do impacto.

Nas três primeiras semanas de agosto, as exportações movimentaram US$ 873,58 milhões, com média diária de US$ 58,24 milhões. O faturamento médio diário caiu 18,6% frente aos US$ 71,59 milhões registrados em agosto do ano passado.

Por outro lado, o preço médio recebido pelo produto brasileiro avançou. A tonelada foi negociada, em média, por US$ 6.192,50, alta de 10,6% sobre os US$ 5.600,70 por tonelada registrados no mesmo período de 2025.

Na prática, o Brasil está exportando menos carne, mas recebendo mais por tonelada, movimento que reduz parcialmente os efeitos da queda dos embarques sobre a receita.

Agrifatto prevê queda de 33% em agosto

A desaceleração pode ficar ainda mais evidente quando o mês for encerrado.

Segundo estimativa da Agrifatto, as exportações brasileiras de carne bovina in natura devem terminar agosto próximas de 180 mil toneladas. Caso a projeção se confirme, haverá queda de aproximadamente 33% frente às 268,4 mil toneladas embarcadas em agosto de 2025.

A dimensão dessa redução ganha importância porque ocorre depois de um período em que o mercado externo exerceu forte papel na sustentação da pecuária brasileira.

O principal motivo está do outro lado do mundo.

China freia compras com cota perto do limite

A China estabeleceu uma cota anual de salvaguarda de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. O volume que ultrapassar esse limite fica sujeito a uma tarifa adicional de 55%, além da tarifa convencional de 12% aplicada ao produto nacional.

Com a cota próxima de ser preenchida, compradores e exportadores passaram a trabalhar com maior cautela.

As vendas brasileiras para o mercado chinês perderam força a partir de meados de julho, já que cargas embarcadas neste momento correm o risco de chegar à China depois do esgotamento da cota e, consequentemente, enfrentar a tarifa adicional.

Essa mudança ajuda a explicar por que a retração já havia começado antes de agosto.

Julho já havia mostrado redução das exportações de carne bovina do Brasil

Em julho, o Brasil exportou 227,94 mil toneladas de carne bovina in natura, queda de 18% frente às 276,88 mil toneladas registradas no mesmo mês de 2025.

O faturamento chegou a US$ 1,447 bilhão, recuo de 6% na comparação anual. Novamente, porém, os preços internacionais ajudaram a compensar parte da redução do volume: o valor médio da tonelada aumentou 14,4%, para US$ 6.350,50.

O que a queda das exportações significa para o boi gordo?

Para a pecuária brasileira, esse é o ponto que merece maior atenção.

A redução das compras chinesas pode aumentar a disponibilidade de carne e de animais destinados ao mercado doméstico, especialmente nas regiões com forte presença de frigoríficos exportadores. Isso tende a diminuir um dos principais componentes de sustentação da arroba observados ao longo dos últimos meses.

O efeito, entretanto, não é automático. A formação do preço do boi gordo continuará dependendo da oferta de animais terminados, das escalas de abate, da demanda interna e da capacidade dos frigoríficos de redirecionar a produção para outros mercados internacionais.

Além disso, o aumento do preço médio da carne brasileira exportada mostra que a queda do volume não significa perda equivalente de valor.

O comportamento da China nas próximas semanas, portanto, passa a ser uma das variáveis mais importantes para o mercado pecuário brasileiro. Se a projeção de aproximadamente 180 mil toneladas em agosto for confirmada, o país terá uma redução de cerca de um terço nos embarques em apenas um ano, aumentando a atenção sobre os reflexos dessa menor demanda externa na arroba do boi gordo.

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