Exame de sangue pode ajudar a estimar carga parasitária em cavalos

Pesquisa publicada no Journal of Equine Veterinary Science associa proteína inflamatória e alterações no colesterol à presença de estrôngilos e abre caminho para novas ferramentas de monitoramento da verminose equina.

Um exame de sangue relativamente simples poderá, no futuro, ganhar uma nova função dentro dos programas de controle parasitário de cavalos. Pesquisadores identificaram uma relação entre marcadores presentes no sangue e a intensidade da eliminação de ovos de estrôngilos nas fezes, apontando uma possível ferramenta complementar para reconhecer animais mais expostos à infecção antes mesmo do aparecimento de sinais clínicos evidentes.

O estudo, publicado na edição de outubro de 2026 do Journal of Equine Veterinary Science, avaliou principalmente a proteína C-reativa, conhecida pela sigla CRP, além de diferentes parâmetros do perfil de colesterol. Os resultados indicaram que determinadas alterações sanguíneas acompanharam a ocorrência de parasitas gastrointestinais e a contagem de ovos eliminados pelos animais. A descoberta não elimina os exames parasitológicos tradicionais, mas acrescenta uma nova peça a um dos maiores desafios sanitários da criação de cavalos: controlar verminoses sem aumentar desnecessariamente o uso de vermífugos.

A pesquisa foi conduzida com 77 cavalos de 11 propriedades no sul da Tailândia, divididos em quatro faixas etárias: potros com menos de um ano; animais jovens de 1 a 3,99 anos; adultos de 4 a 10 anos; e cavalos com mais de 10 anos.

Entre fevereiro e maio de 2025, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e fezes. A carga de ovos de helmintos foi avaliada por uma versão modificada da técnica de McMaster, amplamente empregada na parasitologia veterinária.

Nos exames sanguíneos, foram analisados a proteína C-reativa (CRP), colesterol total, triglicerídeos, HDL e LDL, além das relações LDL/HDL e colesterol total/HDL.

Os estrôngilos foram encontrados em mais de 60% dos cavalos de todas as faixas etárias analisadas. Mais importante do ponto de vista diagnóstico, os pesquisadores observaram que níveis séricos de CRP e LDL aumentavam juntamente com a contagem de ovos de estrôngilos, enquanto o HDL apresentou comportamento inverso.

A proteína C-reativa apresentou o resultado mais consistente entre os indicadores avaliados. De acordo com o estudo, valores acima de 0,49 mg/L apresentaram sensibilidade de aproximadamente 73% e especificidade de 75% para indicar infecção por estrôngilos dentro da população estudada.

Também apareceram como potenciais indicadores as relações entre diferentes frações do colesterol. Uma relação LDL/HDL acima de 2,476, por exemplo, apresentou sensibilidade próxima de 64% e especificidade de 71%. Já a relação entre colesterol total e HDL mostrou especificidade superior a 83%, embora com sensibilidade menor.

Na prática, isso significa que não existe um único valor sanguíneo capaz de diagnosticar sozinho uma verminose, mas o conjunto de informações pode ajudar a identificar animais com maior probabilidade de infecção.

Por que uma verminose pode alterar o sangue

A relação não ocorre por acaso. Os parasitas gastrointestinais interagem diretamente com o sistema imunológico e com o metabolismo do hospedeiro.

Quando larvas e formas adultas de determinados nematoides se estabelecem no organismo, há ativação de mecanismos inflamatórios. A proteína C-reativa é justamente um marcador relacionado à resposta inflamatória.

Ao mesmo tempo, infecções parasitárias prolongadas podem provocar modificações metabólicas que se refletem no perfil lipídico do animal. Foi essa combinação — inflamação e mudanças no metabolismo de lipídios — que chamou a atenção dos pesquisadores.

O efeito também parece variar com a idade. Cavalos com mais de dez anos apresentaram níveis superiores de CRP e LDL e menores concentrações de HDL em comparação a grupos mais jovens, reforçando a necessidade de interpretar os resultados considerando a idade e a condição individual do animal.

Estrôngilos estão entre os principais parasitas dos cavalos

Os estrôngilos formam um amplo grupo de nematoides que parasitam o sistema gastrointestinal dos equinos. Dentro dele estão os pequenos estrôngilos, chamados de ciatostomíneos, e espécies de grandes estrôngilos, entre elas o Strongylus vulgaris.

Os pequenos estrôngilos são considerados extremamente comuns em cavalos mantidos em pastagens. Já o Strongylus vulgaris chama atenção pela maior capacidade de provocar doença, pois suas larvas realizam migrações pelo organismo e podem causar lesões vasculares potencialmente graves.

Em muitas propriedades, no entanto, a presença dos parasitas não produz sinais evidentes durante longos períodos. É justamente essa característica silenciosa que torna o manejo parasitário mais complexo.

Um cavalo aparentemente saudável pode eliminar grande quantidade de ovos nas fezes e contribuir intensamente para a contaminação da pastagem.

Ao mesmo tempo, outro animal pode apresentar uma contagem relativamente baixa sem que isso signifique ausência absoluta de parasitas ou de formas larvais capazes de provocar doença.

O problema também está presente nos rebanhos brasileiros

A discussão tem relevância direta para a equideocultura brasileira.

Um levantamento retrospectivo publicado em 2024 analisou dados de diagnóstico referentes a 153 propriedades com cavalos no Brasil, entre 2008 e 2019. Os pesquisadores encontraram estrôngilos em 100% das propriedades avaliadas.

Considerando individualmente os animais examinados, a prevalência de parasitas gastrointestinais chegou a 72,1% entre cavalos adultos e 80,6% nos jovens. Os estrôngilos também apresentaram prevalência de 72,1% no conjunto de animais analisados.

Esses números ajudam a dimensionar por que a parasitologia permanece como uma área estratégica dentro do manejo sanitário de haras, centros de treinamento, criatórios e propriedades que mantêm cavalos a pasto.

Exame de sangue não substitui a contagem de ovos nas fezes

O ponto mais importante para o criador é entender o limite da descoberta.

A pesquisa não estabelece um novo exame sanguíneo capaz de substituir imediatamente a análise de fezes. Os próprios resultados apontam para o uso dos biomarcadores como instrumentos auxiliares de monitoramento e identificação de risco.

As atuais diretrizes da American Association of Equine Practitioners (AAEP) continuam recomendando a utilização da contagem de ovos por grama de fezes, conhecida como OPG ou FEC, para separar os cavalos em baixos, médios e altos eliminadores de ovos e orientar programas mais seletivos de vermifugação.

A entidade recomenda que essa avaliação seja feita uma ou duas vezes por ano dentro dos programas de controle de estrôngilos, além de testes periódicos para verificar se os vermífugos empregados continuam eficientes.

Existe outra ressalva relevante: a própria AAEP afirma que a contagem de ovos não deve ser usada isoladamente para diagnosticar doença parasitária, já que a quantidade encontrada nas fezes nem sempre representa o número das formas larvais responsáveis pelas manifestações clínicas mais graves.

É justamente nessa lacuna que novos biomarcadores sanguíneos podem ganhar importância.

Ciência busca formas de identificar os cavalos mais suscetíveis

A tentativa de encontrar sinais biológicos da resistência ou da suscetibilidade dos cavalos aos parasitas não começou agora.

Um estudo publicado em 2021 na revista Scientific Reports acompanhou pôneis Welsh naturalmente expostos a estrôngilos e encontrou diferenças metabólicas e imunológicas entre animais mais resistentes e mais suscetíveis.

Os pesquisadores identificaram alterações em fenilalanina no plasma, monócitos circulantes e determinadas populações bacterianas intestinais associadas a animais que ultrapassavam 200 ovos por grama de fezes.

O trabalho reforçou a ideia de que a resposta à verminose deixa uma espécie de “assinatura biológica” no organismo — e que parte dela pode ser identificada no sangue.

Outro estudo experimental já havia mostrado associação entre infecção por estrôngilos e alterações em haptoglobina, ferro e proteínas sanguíneas, demonstrando que esses parasitas podem produzir uma resposta inflamatória sistêmica discreta mesmo sem sinais clínicos intensos.

O trabalho de 2026 avança justamente ao investigar marcadores mais facilmente mensuráveis e relacioná-los à intensidade da eliminação de ovos.

O impacto pode chegar ao uso de vermífugos

A consequência mais interessante da descoberta talvez não esteja apenas no diagnóstico.

Durante décadas, uma prática comum em propriedades com cavalos foi vermifugar todo o plantel em intervalos fixos. Esse modelo vem sendo abandonado porque o tratamento excessivo acelera a seleção de parasitas resistentes aos princípios ativos disponíveis.

A orientação moderna é diferente: conhecer o perfil parasitário da propriedade, identificar quais cavalos eliminam mais ovos e concentrar tratamentos adicionais justamente nesses indivíduos.

As diretrizes da AAEP recomendam abandonar a vermifugação indiscriminada em intervalos rígidos e também a simples rotação automática de princípios ativos. A estratégia deve considerar exames, histórico dos animais, epidemiologia da propriedade e eficácia comprovada dos medicamentos.

Se os marcadores sanguíneos forem validados em populações maiores e em diferentes regiões, eles podem acrescentar uma camada importante de informação a esse sistema.

Um animal poderia, por exemplo, apresentar um conjunto de alterações sanguíneas compatível com maior exposição ou resposta parasitária e receber investigação mais detalhada, enquanto outros animais poderiam ser acompanhados sem tratamentos desnecessários.

Da pesquisa para a rotina dos haras ainda existe um caminho

Apesar dos resultados promissores, ainda há etapas importantes antes de imaginar o exame como ferramenta rotineira em propriedades brasileiras.

O estudo avaliou 77 animais em uma região específica da Tailândia, onde a prevalência de parasitas era elevada. Valores de referência podem variar conforme idade, nutrição, ambiente, presença de outras doenças e características da população equina.

Além disso, a proteína C-reativa é um marcador de inflamação e não é específica para verminoses. Processos infecciosos ou inflamatórios de outras origens também podem modificar sua concentração.

Isso significa que um resultado alterado precisa ser interpretado juntamente com exame clínico, histórico sanitário, condições de manejo e outros testes laboratoriais.

O avanço científico, portanto, não está em transformar um simples exame de sangue em um “teste de vermes”, mas em mostrar que o organismo do cavalo carrega pistas mensuráveis sobre sua interação com os parasitas.

Para uma equideocultura que precisa reduzir tratamentos desnecessários e, ao mesmo tempo, impedir perdas de desempenho e doenças, essas pistas podem se tornar cada vez mais valiosas.

Manejo tende a ficar cada vez mais individualizado

O futuro do controle parasitário dos cavalos caminha para uma lógica semelhante àquela adotada em outras áreas da medicina veterinária: menos protocolos iguais para todos e mais decisões baseadas em dados de cada animal.

Contagem de ovos nas fezes, histórico de resposta aos vermífugos, idade, condição corporal, ambiente, frequência de pastejo e, eventualmente, biomarcadores sanguíneos poderão formar um conjunto de informações capaz de indicar com maior precisão quais cavalos necessitam de intervenção.

A pesquisa mais recente ainda não muda os protocolos consolidados de vermifugação, mas fortalece uma tendência importante: o controle de parasitas está deixando de ser baseado apenas no calendário para se tornar cada vez mais orientado por diagnóstico e risco individual.

Para criadores e proprietários, essa mudança pode significar tratamentos mais precisos, menor pressão para desenvolvimento de resistência aos vermífugos e uma vigilância sanitária capaz de identificar problemas antes que eles apareçam na forma de perda de condição corporal, queda de desempenho ou doença clínica.

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