Encontro entre Donald Trump e Xi Jinping coloca soja, minerais críticos e tecnologia no centro de uma negociação capaz de alterar a concorrência enfrentada pelo Brasil e acelerar a disputa por investimentos em terras raras
A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping nesta quinta-feira, 24 de setembro, na Casa Branca, reúne algumas das questões mais sensíveis da atual relação entre EUA e China: tarifas, comércio agrícola, terras raras, inteligência artificial, semicondutores e investimentos. Para o Brasil, dois pontos merecem atenção especial. Na soja, uma aproximação entre Washington e Pequim pode aumentar a competição pelo maior mercado comprador do grão brasileiro; nos minerais críticos, a tentativa americana de reduzir a dependência da cadeia chinesa pode estimular novos projetos e investimentos em território nacional.
A relevância chinesa para o campo brasileiro ajuda a dimensionar o impacto potencial. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, respondendo por 32,7% das exportações do setor. No mesmo ano, o Brasil embarcou um recorde de cerca de 108,2 milhões de toneladas de soja em grão para o exterior. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Trégua entre EUA e China reduz tensão, mas não encerra disputa
Na véspera do encontro presidencial, Estados Unidos e China chegaram a um entendimento para estender por dois meses a trégua comercial que terminaria em 10 de novembro. O novo prazo vai até 10 de janeiro de 2027, período em que os dois governos pretendem continuar negociando um acordo econômico mais abrangente.
A trégua impede, por enquanto, uma retomada imediata da escalada tarifária que marcou a relação bilateral em 2025, quando as tarifas recíprocas chegaram a níveis superiores a 100% antes de serem reduzidas por entendimentos posteriores.
Isso não significa que as principais divergências tenham desaparecido. O governo americano continua cobrando maior previsibilidade no fornecimento chinês de minerais críticos, enquanto agricultura, tecnologia e tarifas sobre produtos considerados menos sensíveis permanecem na mesa.
Bessent afirmou que existe a possibilidade de avanços em uma proposta envolvendo a retirada de tarifas sobre aproximadamente US$ 30 bilhões em bens considerados não críticos. Até o encontro desta quinta-feira, entretanto, essa medida continuava em negociação e não deveria ser tratada como acordo concluído.
Para países que vendem commodities às duas potências, mudanças na relação bilateral podem reorganizar fornecedores e preços. No caso brasileiro, a exposição ao mercado chinês já alimenta discussões sobre a dependência do agronegócio brasileiro em relação à China e sobre a necessidade de diversificar mercados.
Soja é o ponto mais sensível para o produtor brasileiro
Nenhuma commodity agrícola conecta a negociação entre Washington e Pequim ao Brasil tão diretamente quanto a soja.
A China é o maior importador mundial da oleaginosa e compra volumes expressivos tanto da América do Sul quanto dos Estados Unidos. Quando as relações sino-americanas pioram e a soja dos EUA perde competitividade, produtores brasileiros podem ganhar espaço. Quando ocorre o movimento contrário, a concorrência aumenta.
Segundo a Casa Branca, no acordo anunciado em novembro de 2025, Pequim assumiu o compromisso de comprar pelo menos 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano em 2026, 2027 e 2028. Em maio de 2026, Washington informou ainda que o governo chinês se comprometeu com pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos agropecuários americanos, além da soja.
Há, contudo, uma ressalva relevante: a Reuters informa que o governo chinês não confirmou publicamente esses compromissos com a mesma formulação utilizada pelas autoridades americanas. O que pode ser observado de forma objetiva são as compras efetivamente registradas.
Até 10 de setembro, dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos citados pela Reuters indicavam quase 10 milhões de toneladas de soja americana vendidas à China da safra atual. Analistas e operadores avaliavam ainda que parte dos cerca de 6 milhões de toneladas registradas com destino não informado poderia ter compradores chineses.
Na semana encerrada em 10 de setembro, especificamente, o USDA registrou 1,7 milhão de toneladas em vendas líquidas da safra 2026/27, das quais 875,3 mil toneladas tinham a China como destino. O próprio Compre Rural acompanhou esses números na matéria sobre as vendas recentes de soja americana e os embarques destinados ao mercado chinês.
Tarifa ainda mantém vantagem para concorrentes dos EUA
Existe um componente capaz de determinar quanto dessas compras será motivado pelo mercado e quanto dependerá de decisões políticas: a tarifa chinesa sobre a soja americana.
A China ainda mantém uma tarifa retaliatória de 10% sobre soja e outros produtos agropecuários dos Estados Unidos, segundo a Reuters. A cobrança não incide sobre a soja brasileira da mesma maneira, o que prejudica a competitividade de cargas americanas diante de alternativas sul-americanas.
O efeito aparece no perfil dos compradores. Importadores estatais chineses voltaram ao mercado americano, enquanto esmagadoras privadas permaneceram mais cautelosas diante do custo adicional provocado pela tarifa.
Por isso, uma eventual retirada ou redução desse imposto pode ser tão importante para o produtor brasileiro quanto o próprio compromisso de compra de 25 milhões de toneladas.
Com a tarifa mantida, a soja brasileira conserva uma vantagem comercial. Sem ela, as cargas americanas podem competir de forma mais agressiva justamente durante o período em que a safra dos Estados Unidos entra no mercado.
A disputa entre as duas origens já vinha mudando ao longo de 2026. Em junho, as importações chinesas originadas dos EUA recuaram em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os embarques brasileiros aumentaram, movimento detalhado na reportagem sobre a concorrência entre soja brasileira e americana no mercado chinês.
China não pode simplesmente substituir o Brasil de uma hora para outra
Uma retomada das compras americanas não significa que Pequim deixará de comprar do Brasil.
A dimensão do consumo chinês, combinada à complementaridade entre os calendários de colheita do Hemisfério Norte e da América do Sul, permite que os dois grandes fornecedores ocupem espaço ao longo do ano.
Preço disponível no porto, prêmio de exportação, frete, câmbio, qualidade, estoques e disponibilidade física continuam pesando nas decisões dos compradores.
O risco para o produtor brasileiro está menos em uma substituição total e mais em uma mudança na disputa marginal pelas cargas chinesas. Alguns milhões de toneladas adicionais direcionados aos Estados Unidos podem influenciar prêmios nos portos brasileiros e a formação dos preços internacionais.
Chicago também reage às expectativas de exportação americana. Como os contratos futuros negociados na bolsa são uma das principais referências mundiais para a oleaginosa, uma mudança nas perspectivas de demanda chinesa pelos EUA pode chegar ao preço recebido pelo produtor brasileiro mesmo sem alterar imediatamente o volume exportado pelo Brasil.
Terras raras colocam o Brasil no outro lado da negociação
Se na soja a aproximação EUA–China pode significar concorrência adicional, nas terras raras o movimento de diversificação das cadeias globais cria uma oportunidade diferente para o Brasil.
Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos empregados em aplicações que vão de eletrônicos e equipamentos médicos a veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa, data centers e tecnologias relacionadas à inteligência artificial. O desafio econômico não é apenas retirar esses elementos do solo, mas separá-los, purificá-los e transformá-los em materiais de alto desempenho.
Por isso, mineração e domínio da cadeia industrial são coisas diferentes.
A IEA estima que, em 2024, a China concentrou 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs, principalmente neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Nas etapas seguintes, a concentração foi ainda maior: 91% do refino e 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados.
Esses números explicam por que uma eventual substituição da China não pode ocorrer apenas com a abertura de novas minas.
É necessário construir capacidade de beneficiamento, separação química, produção de metais e ligas e fabricação dos próprios ímãs.
Para quem precisa diferenciar os conceitos, terras raras não são sinônimo de todos os minerais estratégicos. O tema foi detalhado na reportagem sobre as diferenças entre terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos.
Brasil tem uma das maiores reservas, mas ainda precisa agregar valor
O Brasil parte de uma posição geológica relevante.
O levantamento Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), estima as reservas brasileiras de terras raras em aproximadamente 21 milhões de toneladas de óxidos equivalentes, atrás das 44 milhões de toneladas estimadas para a China. O dado coloca o Brasil entre os maiores detentores conhecidos desses recursos no mundo.
Ter a reserva, entretanto, não garante automaticamente protagonismo.
A própria política mineral brasileira passou a reconhecer que o desafio está na agregação de valor. Em 16 de setembro de 2026, entrou em vigor a Lei nº 15.506, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.
A nova legislação prevê instrumentos voltados ao beneficiamento e à transformação no território nacional. Entre eles está a autorização para a União participar do Fundo Garantidor da Atividade Mineral em até R$ 2 bilhões, além de um programa de créditos fiscais direcionado a atividades de beneficiamento e transformação mineral.
O Compre Rural acompanhou a tramitação quando o Congresso concluiu a votação do projeto que criou a política para minerais críticos e estratégicos. Desde então, houve a mudança fundamental: a proposta foi sancionada e tornou-se lei.
Para o Brasil, esse é um ponto central da disputa global. Exportar minério ou concentrado captura apenas uma parte do valor. Desenvolver processamento, ligas, componentes e ímãs pode inserir o país em etapas industriais mais sofisticadas.
Controles chineses mostraram o tamanho da dependência global
O peso das terras raras nas negociações não é apenas teórico.
Em abril de 2025, a China adotou controles de exportação sobre sete terras raras pesadas e materiais relacionados. Segundo a IEA, os embarques dos elementos afetados e de ímãs contendo esses materiais caíram rapidamente nos meses seguintes, provocando dificuldades de fornecimento para empresas de setores industriais fora da China.
Posteriormente, parte do fluxo foi normalizada mediante licenças, mas o episódio evidenciou a vulnerabilidade de cadeias concentradas em um único país.
As restrições passaram a ser um ponto permanente das negociações com Washington. Mesmo após compromissos para melhorar o fornecimento, autoridades americanas afirmaram em setembro que as entregas chinesas de determinados minerais continuavam abaixo do esperado.
Esse movimento ajuda a explicar o interesse internacional em reservas alternativas, inclusive as brasileiras.
Não há garantia de que essa procura se converterá automaticamente em investimentos no Brasil. Para isso, projetos precisam combinar viabilidade econômica, licenciamento, infraestrutura, tecnologia de processamento e compradores de longo prazo.
IA e semicondutores acrescentam uma terceira frente
A disputa tecnológica amplia o alcance da reunião muito além das commodities.
Estados Unidos e China discutem inteligência artificial ao mesmo tempo em que continuam competindo por semicondutores, equipamentos de fabricação de chips e infraestrutura computacional.
Segundo o secretário do Tesouro americano, os dois países avançaram em setembro na ideia de estabelecer um canal para comunicação sobre incidentes graves de segurança envolvendo IA. A confirmação pública chinesa foi mais limitada: a imprensa estatal reconheceu que o tema foi discutido, sem detalhar o mesmo mecanismo anunciado pelo lado americano.
A diferença importa porque demonstra que diálogo sobre segurança de IA não significa abandono da competição tecnológica.
Chips avançados continuam sendo tratados como ativos estratégicos e fazem parte de cadeias que também dependem de minerais críticos.
Para o agronegócio brasileiro, a conexão é indireta, mas crescente. Agricultura de precisão, máquinas autônomas, drones, sistemas de visão computacional, inteligência artificial aplicada ao campo e equipamentos de conectividade incorporam cada vez mais semicondutores.
Isso não permite concluir que uma decisão da cúpula produzirá imediatamente mudanças no preço de máquinas agrícolas no Brasil. O efeito ocorre por meio das cadeias globais: restrições prolongadas podem afetar oferta, investimentos e custos de componentes tecnológicos.
Boeing e outros acordos mostram amplitude da negociação
A pauta econômica não termina em soja ou terras raras.
Durante a visita de Trump à China em maio, a Casa Branca informou que Pequim havia aprovado uma compra inicial de 200 aeronaves comerciais da Boeing para companhias chinesas. O mesmo entendimento criou fóruns bilaterais para discutir comércio e investimentos.
Esses acordos ajudam a mostrar como diferentes setores são negociados simultaneamente.
Agricultura pode avançar enquanto tecnologia permanece travada; minerais podem receber concessões enquanto tarifas sobre outros produtos continuam em vigor. Por isso, um anúncio positivo em uma área não significa necessariamente uma solução ampla para a disputa econômica entre as duas potências.
O que realmente importa acompanhar depois do encontro
Para o produtor brasileiro de soja, três variáveis serão mais importantes que a retórica diplomática: quanto a China efetivamente comprará dos Estados Unidos, se a tarifa retaliatória de 10% será reduzida e como os preços americanos se compararão aos brasileiros.
A confirmação de novas compras pode aumentar a competição, mas o efeito dependerá da disponibilidade do grão brasileiro e americano, do câmbio, dos prêmios e do frete.
Nas terras raras, o mercado deve observar se haverá mudanças concretas nas licenças e controles chineses de exportação e se Estados Unidos e outros países acelerarão contratos e investimentos em fornecedores alternativos.
Para o Brasil, isso coloca duas estratégias em jogo.
No agro, o desafio é preservar competitividade e reduzir excessiva concentração em um único destino. Na mineração, a oportunidade é usar uma das maiores bases de recursos de terras raras do mundo para construir uma cadeia que avance além da simples extração.
A negociação EUA x China interessa diretamente ao país justamente por produzir efeitos diferentes nesses dois mercados: pode aumentar a competição enfrentada pela soja brasileira ao mesmo tempo em que fortalece a procura mundial por novas fontes de minerais críticos.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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