Vendas de mustangues mais que dobraram em 2025 e chegaram a cerca de 3.700 animais; registros apontam cavalos revendidos e transportados para o Canadá, enquanto o governo afirma que o programa federal proíbe o encaminhamento para abate.
Um cavalo selvagem pode custar mais de US$ 3 mil aos cofres públicos para ser capturado e preparado para deixar as terras federais dos Estados Unidos. Depois de passar anos sob responsabilidade do governo, porém, esse mesmo animal chegou a ser vendido por apenas US$ 25. Fora da tutela federal, seu valor pode subir para centenas de dólares no mercado ligado ao abate. É justamente essa diferença — somada a uma brecha na proteção dos mustangues depois da transferência da propriedade — que colocou o programa americano de manejo de cavalos selvagens no centro de uma nova controvérsia.
Uma investigação publicada pelo The New York Times em agosto revelou que as vendas conduzidas pelo Bureau of Land Management (BLM) cresceram fortemente após Donald Trump retornar à Casa Branca. Em 2025, aproximadamente 3.700 cavalos selvagens foram vendidos, mais que o dobro do registrado anteriormente, segundo documentos da própria agência analisados pela reportagem.
O ponto mais sensível não é simplesmente a existência das vendas, previstas dentro da política federal de manejo. O problema está no que pode acontecer depois que determinados animais deixam de pertencer ao governo. Registros de inspeção de gado analisados na investigação mostraram mustangues anteriormente vendidos pelo governo em caminhões destinados a plantas de abate no Canadá. Ao mesmo tempo, o próprio BLM afirma oficialmente que sua política continua sendo não vender ou encaminhar cavalos e burros selvagens para abate.
De símbolo do Oeste americano a um problema bilionário de manejo
Os mustangues ocupam um lugar particular na história rural dos Estados Unidos. Desde a aprovação do Wild Free-Roaming Horses and Burros Act, de 1971, cavalos e burros selvagens presentes em determinadas terras públicas passaram a receber proteção federal e são tratados pela legislação como parte da herança histórica do país.
Mas proteger os animais criou um desafio de manejo que se tornou cada vez mais caro e complexo.
Atualmente, cerca de 73 mil cavalos selvagens vivem em terras públicas federais no Oeste americano, segundo dados citados na investigação. Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de animais retirados dessas áreas permanecem em instalações de manutenção enquanto aguardam adoção, venda ou outras soluções de longo prazo.
O governo realiza capturas para tentar controlar populações consideradas superiores à capacidade de determinadas áreas. Historicamente, uma das principais saídas é oferecer esses animais para adoção.
O problema aparece quando não há adotantes suficientes.
É nesse ponto que a diferença entre adoção e venda se torna decisiva.
A diferença que muda completamente a proteção do cavalo
No programa de adoção, o interessado recebe o animal, mas o governo federal continua sendo seu proprietário durante pelo menos um ano. Nesse período, o BLM pode realizar verificações e o adotante não pode simplesmente vender ou transferir o cavalo. Somente depois do cumprimento das exigências é emitido o título definitivo.
Na venda, a situação é diferente.
Animais enquadrados nos critérios do programa podem ser comercializados diretamente. Com a emissão do Bill of Sale, a propriedade é transferida imediatamente ao comprador. A partir daí, segundo o próprio BLM, o animal deixa de ser considerado legalmente um cavalo ou burro selvagem sob sua jurisdição e a agência não acompanha individualmente o seu destino após a venda.
É exatamente aí que surge a brecha apontada pela investigação.
O comprador precisa declarar que fornecerá tratamento adequado e que não venderá conscientemente o animal para alguém que pretenda encaminhá-lo ao abate ou transformá-lo em produto comercial. Em eventos realizados pelo BLM ao longo de 2026, cavalos elegíveis para venda chegaram a ser anunciados a partir de US$ 25.
O problema é a fiscalização depois que o negócio foi concluído.
US$ 25 na saída do governo e até US$ 750 no abate
A diferença econômica ajuda a explicar por que o caso ganhou tanta repercussão.
Segundo a investigação, o governo pode gastar mais de US$ 3 mil para capturar um mustangue e prepará-lo para o mercado, enquanto alguns animais foram vendidos por apenas US$ 25. Um cavalo destinado ao abate, por outro lado, pode alcançar até US$ 750.
Isso cria uma arbitragem potencialmente enorme.
Um animal comprado por US$ 25 e posteriormente direcionado à cadeia comercial poderia valer muitas vezes o preço pago ao governo. Para organizações de proteção animal, essa diferença transforma as vendas em uma porta de entrada economicamente atraente para intermediários.
Um dos casos investigados envolve um comerciante de gado de Ohio que teria recebido cerca de 500 cavalos do BLM. Ele afirmou que conseguiu revendê-los rapidamente, mas não informou seus destinos e negou ter vendido animais para abate.
A investigação também acompanhou um grupo de 68 mustangues que havia vivido livre no Oeste, foi capturado e permaneceu durante anos em uma instalação federal em Idaho. Em março, os animais foram transportados aproximadamente 1.800 milhas até Ohio e vendidos por US$ 25 cada. No dia seguinte, foram colocados em caminhões e novamente transportados. O destino final não foi esclarecido pelo comprador.
É importante fazer uma distinção: não há evidência de que o governo Trump ou o BLM estejam vendendo diretamente cavalos para matadouros. A controvérsia está no sistema que transfere rapidamente a propriedade e pode permitir que animais posteriormente entrem em cadeias de revenda ligadas ao abate.
BLM diz que não vende cavalos para abate
Diante da controvérsia, a posição oficial do Bureau of Land Management é clara: a política da agência continua sendo não vender nem enviar cavalos e burros selvagens para abate.
Os compradores precisam certificar que não irão, de forma consciente, imprudente ou negligente, transferir os animais para organizações ou pessoas que pretendam processá-los comercialmente.
O BLM também afirma ter reforçado recentemente as regras do programa. Compradores que violarem os termos podem ser considerados inelegíveis para novas aquisições, e documentação sobre possíveis irregularidades pode ser encaminhada às autoridades.
Há, contudo, uma limitação estrutural reconhecida pela própria agência.
Depois da venda, o BLM não rastreia o animal.
Se posteriormente aparecer evidência de que aquele cavalo terminou em um kill pen — instalações usadas para reunir animais adquiridos por compradores ligados ao abate —, a agência pode investigar se houve violação das condições estabelecidas no negócio. Mas isso acontece depois que o cavalo já deixou o sistema federal.
Essa diferença entre a proibição formal e a capacidade prática de acompanhar milhares de animais é o centro da discussão.
O orçamento de Trump abre uma segunda frente de disputa
A controvérsia ganhou peso adicional por causa da proposta orçamentária apresentada pela administração Trump para o ano fiscal de 2027.
O orçamento presidencial foi formalmente apresentado em abril de 2026 e ainda depende do Congresso.
Organizações de proteção animal apontam que a proposta não preserva uma tradicional restrição inserida pelo Congresso que impede recursos federais de serem usados para matar cavalos selvagens saudáveis ou realizar vendas que resultem em abate comercial.
Isso não significa que o abate desses cavalos tenha sido automaticamente liberado. A proposta do Executivo não é a palavra final: cabe ao Congresso definir a legislação orçamentária e decidir se mantém as salvaguardas.
Na legislação orçamentária discutida para 2026, por exemplo, havia linguagem expressa impedindo que recursos fossem usados para destruir cavalos selvagens saudáveis não adotados ou transferi-los de maneira que resultasse em processamento comercial.
Portanto, a disputa agora ultrapassa o destino dos 3.700 animais vendidos em 2025. Ela alcança o próprio modelo que os Estados Unidos utilizarão para controlar suas populações de cavalos selvagens nos próximos anos.
Um dilema que também envolve terra, dinheiro e capacidade de suporte
Reduzir a discussão simplesmente a “governo contra cavalos” esconde uma parte importante do problema.
O BLM administra vastas áreas públicas no Oeste americano e sustenta que precisa equilibrar as populações de cavalos e burros com disponibilidade de água, forragem, fauna nativa, condições das pastagens e demais usos das terras federais.
Os cavalos possuem elevada capacidade de crescimento populacional quando encontram condições favoráveis. Sem manejo, os rebanhos podem aumentar rapidamente, pressionando recursos naturais e elevando o risco de falta de alimento e água.
Ao mesmo tempo, retirar milhares de animais das áreas públicas sem uma saída permanente apenas desloca o problema.
O governo passa a assumir alimentação, instalações, cuidados veterinários e manutenção por anos. Foi justamente essa combinação — populações elevadas no campo, número limitado de adotantes e custo crescente de manutenção fora das áreas naturais — que tornou as vendas mais atraentes como ferramenta administrativa.
Mas a solução mais barata para o orçamento pode produzir outro problema quando não existe rastreabilidade suficiente sobre o destino final do animal.
O caso americano traz uma discussão maior para o setor equestre
Embora o episódio aconteça nos Estados Unidos, ele toca em uma discussão cada vez mais relevante para toda a cadeia do cavalo: rastreabilidade e responsabilidade não terminam necessariamente quando ocorre uma venda.
Para um setor que movimenta genética, esporte, lazer, trabalho rural, reprodução e grandes investimentos, a capacidade de conhecer a origem e o destino dos animais tende a ganhar importância não apenas por razões sanitárias, mas também por questões de bem-estar, reputação e acesso a mercados.
No caso dos mustangues, a marcação física permite identificar animais originários do programa federal. O problema revelado pela investigação não é necessariamente saber de onde vieram, mas acompanhar para onde foram depois que deixaram a tutela pública.
E essa diferença é fundamental.
Os Estados Unidos construíram ao longo de mais de cinco décadas uma legislação destinada a transformar seus cavalos selvagens em patrimônio protegido. Agora enfrentam uma equação difícil: controlar populações que crescem, reduzir uma conta pública elevada e encontrar destino para milhares de animais sem criar, no caminho, um incentivo econômico capaz de transformar um mustangue comprado por US$ 25 em mercadoria de centenas de dólares na rota do abate.
A investigação colocou justamente essa contradição sob os holofotes. E, enquanto Congresso, governo, pecuaristas, gestores de terras públicas e entidades de proteção discutem qual será o próximo modelo de manejo, uma pergunta passa a ser inevitável: se a proteção termina no momento da venda, quem garante o destino do cavalo depois que ele atravessa o portão do governo?
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