EUA têm menor rebanho em 75 anos e seguem dependentes de carne importada em 2027

Com recomposição lenta do rebanho, EUA devem importar 2,8 milhões de toneladas de carne bovina em 2027; demanda por carne magra mantém oportunidades para o Brasil.

O relatório de outubro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado no dia 9, reforça que a pecuária norte-americana atravessa a fase mais restritiva do seu ciclo em várias décadas. O rebanho bovino iniciou 2026 com 86,16 milhões de cabeças, o menor patamar em aproximadamente 75 anos, acumulando retração de 5,6 milhões de cabeças, ou 6,1%, frente aos 91,79 milhões registrados em 2022. Para o início de 2027, o órgão projeta 87 milhões de cabeças, alta de apenas 1%. Trata-se do primeiro sinal de estabilização após sucessivos anos de liquidação, mas ainda distante de uma recomposição efetiva da base produtiva.

A restrição se reflete diretamente na oferta de carne. A produção norte-americana deve recuar 4,6% em 2026, para 11,29 milhões de toneladas equivalente-carcaça, e voltar a cair em 2027, para 11,24 milhões de toneladas (-0,5%). Na comparação com 2019, quando a produção alcançou 12,39 milhões de toneladas, a perda acumulada chega a 9,3%. O consumo, por sua vez, segue praticamente estável na casa de 13 milhões de toneladas, com 13,11 milhões em 2026 e 12,98 milhões em 2027. O resultado é um déficit entre produção e consumo de 1,82 milhão de toneladas neste ano e de 1,75 milhão de toneladas no próximo, que só pode ser coberto pelas importações.

Os números confirmam essa dependência crescente. As importações norte-americanas de carne bovina devem atingir o recorde de 2,88 milhões de toneladas em 2026, alta de 17,8% sobre 2025, e permanecer em 2,80 milhões de toneladas em 2027. Mesmo com o recuo de 2,7%, o volume projetado para o próximo ano é o segundo maior da série e mais que o dobro dos 1,39 milhão de toneladas importados em 2019. A participação das importações no consumo doméstico, que era de 11% em 2019, chega a 22% em 2026 e deve se manter próxima de 21,6% em 2027. Em outras palavras, de cada cinco quilos de carne bovina consumidos nos Estados Unidos, praticamente um tem origem externa.

O USDA aponta que a colocação de animais nos confinamentos segue em desaceleração em meio a sinais iniciais de retenção de fêmeas. É um movimento clássico de inversão do ciclo pecuário, semelhante ao observado no Brasil ao longo de 2026, e que carrega uma característica nem sempre bem compreendida pelo mercado. Na fase inicial, a retenção não amplia a oferta de carne; ao contrário, a reduz. Cada novilha que deixa de ir para o abate para ser incorporada à reprodução representa uma carcaça a menos disponível para a indústria no curto prazo.

Fonte: USDA/FAS – Livestock and Poultry: World Markets and Trade, 09/10/2026, p. 12 (Cattle Stocks – Top Countries Summary) | Elaboração: Safras & Mercado
Rebanho = estoque de bovinos no início do ano (Total Cattle Beg. Stks). Nascimentos = Production (Calf Crop). Valores originais em mil cabeças.
(*) estimativa 2026; (**) projeção 2027. O relatório publica a série individualizada apenas a partir de 2022.

A produção de bezerros ilustra a lentidão desse processo. O USDA estima 32,5 milhões de cabeças nascidas em 2026, volume 5,6% inferior aos 34,44 milhões de 2022, com projeção de 33 milhões em 2027, avanço modesto de 1,5%. O ganho existe, mas é insuficiente para alterar a disponibilidade de animais terminados no horizonte de um ano.

A explicação está no tempo biológico da atividade. Uma novilha retida hoje precisa atingir idade e condição para a primeira cobertura, passa por nove meses de gestação, e o bezerro gerado ainda demanda entre 18 e 24 meses de recria e terminação até chegar ao abate. Entre a decisão de reter uma fêmea e o aumento efetivo da oferta de carne decorrem, em média, três anos. Por isso, mesmo que a retenção ganhe força ao longo de 2027, seus efeitos sobre a produção devem aparecer apenas entre 2028 e 2029.

Soma-se a esse quadro a ausência do gado mexicano. Desde maio de 2025, a fronteira com o México permanece praticamente fechada à entrada de bovinos vivos em razão da detecção da bicheira do Novo Mundo. Entre 2020 e 2024, os Estados Unidos importaram em média 1,2 milhão de cabeças por ano do país vizinho, animais que complementavam a oferta dos confinamentos. Em setembro deste ano, entraram apenas 2.557 cabeças, queda de 97% frente ao mesmo mês de 2024. Embora dois pontos de entrada tenham sido reabertos, operam com capacidade bastante reduzida em função dos novos protocolos de inspeção. Na prática, parte desses animais passou a ser abatida no próprio México e exportada como carne, sobretudo para os Estados Unidos, o que ajuda a explicar a projeção de alta de 8% nas exportações mexicanas de carne bovina em 2027.

É nesse contexto que se insere o Ranchers First, programa anunciado em 31 de agosto pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins, com o objetivo declarado de reconstruir o rebanho bovino norte-americano. A medida de maior impacto direto sobre a recomposição é a criação do BRAND, uma cobertura adicional dentro do seguro de risco pecuário (Livestock Risk Protection) que permitirá ao produtor segurar, por um período de dois anos, o valor econômico de reter uma novilha para reprodução em vez de enviá-la ao abate.

A lógica é consistente com o problema. Em ciclos de preços elevados, como o atual, o custo de oportunidade de reter uma fêmea é alto, já que o pecuarista abre mão de uma receita imediata e expressiva em troca de um retorno que só se materializa anos depois, exposto a riscos de clima, custo e preço. Ao reduzir essa incerteza, o seguro tende a estimular a retenção. O pacote inclui ainda o uso do Programa de Conservação Emergencial em áreas de pastagem do programa de reserva (Grassland CRP) após incêndios e outros desastres naturais, apoio a pecuaristas iniciantes e veteranos de guerra, linhas de crédito garantido para frigoríficos regionais e cooperativos, um esforço de continuidade da capacidade regional de abate e a priorização de carne processada localmente nas compras federais.

O programa deve contribuir para a recomposição do rebanho, mas a característica da atividade impõe limites claros ao ritmo dessa resposta. Em primeiro lugar, o anúncio não trouxe valores nem calendário de implementação, e analistas norte-americanos lembram que um produto de seguro desse tipo costuma exigir testes, aprovação regulatória e fase piloto antes de chegar efetivamente ao produtor. Em segundo, ainda que as ferramentas estejam disponíveis ao longo de 2027, as novilhas retidas nesse período só devem gerar animais para abate entre 2029 e 2030. Por fim, a decisão de reter continuará dependendo das condições de pastagem, da ocorrência de secas, dos preços do gado e dos custos de produção, fatores que nenhum programa controla. No curto prazo, há inclusive um efeito contrário ao desejado pelo consumidor: quanto mais bem-sucedido o estímulo à retenção, menor a oferta de fêmeas para abate e maior a necessidade de carne importada.

A queda de 3% projetada para as importações norte-americanas em 2027 não deve ser interpretada como redução da necessidade de carne externa. Segundo o USDA, o recuo decorre principalmente de política comercial, já que as cotas temporárias ampliadas e isentas de tarifa para carne magra concedidas em 2026 à Argentina e ao grupo de outros países, formado basicamente por Brasil e Paraguai, não devem ser renovadas. O próprio órgão ressalta que a menor produção doméstica, particularmente de carne magra para processamento, manterá as importações elevadas em relação à média histórica.

Essa demanda por carne magra é o ponto central para os exportadores. A carne de vacas descartadas, base tradicional da mistura utilizada na fabricação de hambúrgueres, tende a ficar ainda mais escassa à medida que os pecuaristas retêm fêmeas. A lacuna precisa ser preenchida por cortes magros e trimmings importados, segmento em que Austrália, Nova Zelândia e fornecedores sul-americanos competem de forma agressiva. A Austrália, principal concorrente do Brasil nesse mercado, deve reduzir produção em 2% e exportações em 3% em 2027, também pressionada por menor disponibilidade de animais.

Para o Brasil, o mercado norte-americano segue como alternativa relevante de escoamento. Os embarques brasileiros aos Estados Unidos alcançaram 74,5 mil toneladas em setembro, igualando o maior volume da série, com forte participação de trimmings, perfil alinhado à demanda americana. No entanto, o USDA avalia que os Estados Unidos dificilmente absorverão grandes volumes da carne brasileira que deixaria de seguir para a China e para a União Europeia, dada a concorrência intensa, a demanda importadora mais moderada e condições tarifárias menos favoráveis. Uma eventual renovação das cotas ampliadas representaria um fator altista não contemplado no cenário base do órgão.

Os Estados Unidos entram em 2027 com o rebanho dando os primeiros sinais de estabilização, mas com a produção de carne ainda em queda e um déficit de oferta próximo de 1,75 milhão de toneladas. O Ranchers First acrescenta instrumentos importantes para incentivar a retenção de fêmeas, porém o tempo biológico da pecuária faz com que a recomposição da oferta seja uma questão para 2028 em diante. Até lá, a dependência de importações deve permanecer estrutural, garantindo aos exportadores um mercado deficitário e demandante, sobretudo de carne magra, ainda que a parcela capturada por cada fornecedor passe a depender cada vez mais das condições de acesso tarifário definidas por Washington.

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